Deu ‘Match’ na reciclagem: app e ações que unem catadores e recicláveis

Deu ‘Match’ na reciclagem: app e ações que unem catadores e recicláveis

Amcham Brasil

15 Março 2018 | 17h38

Cerca de 160 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos são gerados diariamente no país. Calcula-se que quase 40% de todo esse descarte poderia ser reciclado, segundo a publicação do IPEA “A Organização Coletiva De Catadores De Material Reciclável no Brasil”. No entanto, apenas 13% do total de resíduos urbanos gerados no país são encaminhados para a reciclagem. Um dos motivos para isso é que apenas uma pequena parcela dos municípios tem coleta seletiva (18%) disponibilizada pelas prefeituras. A maioria dessas cidades se concentram nas regiões Sudeste e Sul (81%), segundo dados do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre).

Além de ser uma atividade totalmente ligada à sustentabilidade, a reciclagem significa geração de renda e oportunidade para milhares de brasileiros. Sem o trabalho desses catadores e catadoras, a reciclagem no Brasil não seria possível. Quase 90% de todo o material reciclado no Brasil é coletado por essas pessoas que trabalham na ponta. O IPEA aponta que, economicamente, o setor pode gerar benefícios seis vezes maiores do que o registrado atualmente.

Diante da falta de estrutura pública quanto a coleta seletiva, algumas organizações tentam realizar o match entre aqueles que separam suas embalagens e as cooperativas e catadores de reciclagem. Recentemente premiada durante inovação do fórum Netexplo, que reconhece projetos de tecnologia com maior impacto social mundialmente, o Cataki é conhecido como o “Tinder da reciclagem”. Os cidadãos usam o app para localizar um dos mais de 300 catadores registrados no banco de dados. O usuário pode analisar o perfil de cada um e quais materiais eles coletam, fazer a ligação e combinar o horário, local e o preço do serviço.

A iniciativa foi concebida pelo Pimp My Carroça, que atua junto aos catadores há mais de cinco anos com o objetivo de tirá-los da invisibilidade. Conforme conta Breno Castro Alves, coordenador do projeto, esse é uma das principais questões que motivaram a criação do app:

“Muito antes de qualquer prefeitura no Brasil começar a pensar em programa de reciclagem, já havia catadores passando de porta em porta, pegando jornais velhos, garrafas e recicláveis. Isso estava na infância de todo brasileiro, em todo lugar do país, e isso existe até hoje. É o setor profissional que, desde sempre, faz uma prática de sustentabilidade. E eles precisam ser valorizados e reconhecidos. Dentro disso, a missão do Pimp My Carroça é combater a invisibilidade dos catadores. Dizemos que eles são super-heróis, mas com o pior poder do mundo: a invisibilidade. O Cataki é mais uma das abordagens para combater isso e fazemos isso via trabalho, geração de renda e viabilização de novas coletas”, resume.

Atualmente, o aplicativo é voltado para o usuário, segundo Alves. Já que a maioria dos catadores não tem smartphone, o contato com eles é feito através de ligações. Como acabam mudando de número, por vezes o cadastro fica desatualizado. A ideia do Pimp é fazer uma versão para os catadores no futuro: a ideia seria que os usuários tirassem fotos do que precisa ser coletado, conseguissem mandar para os trabalhadores através de uma rede e assim facilitar a comunicação mais direta entre eles. “Muitos catadores estão recebendo chamadas e isso é muito legal. Eles recebem a primeira chamada e depois a mesma pessoa liga de novo, ou indica pra alguém. No fim das contas, inauguramos uma plataforma de comunicação, um catálogo desses catadores, o que tem funcionado”, avalia. Todo o trabalho do Pimp e do Cataki é realizado de maneira voluntária e sem fins lucrativos.

Não é necessário ter um volume mínimo para chamar algum catador pelo app. Alves, no entanto, ressalta que não vale a pena se for para atender apenas a uma casa para dar um saco de recicláveis, porque o valor é muito baixo. Nesse caso, é mais vantajoso se juntar os resíduos de prédio, vila ou quarteirão. ” Se for para uma casa só, o Cataki funciona melhor para pegar entulho, uma geladeira, um sofá velho”, exemplifica.

Pontos de entrega voluntária – PEV

Dentro da Quitanda, estabelecimento em Pinheiros (SP), a instalação de um Ponto de Entrega Voluntária (PEV) foi parte do projeto de sustentabilidade para diminuir a pegada ecológica do estabelecimento. Beatriz Costa, responsável pela sustentabilidade da Quitanda, conta que a parceria com a cooperativa YouGreen foi importante para colocar os catadores novamente como protagonistas desse processo.

“Percebemos que não era suficiente doar materiais para as cooperativas porque isso não possibilitava uma remuneração justa e adequada – o preço oscila muito com a demanda dos materiais do mercado, então a venda dos materiais através dos catadores não é suficiente pra eles pagarem todas as contas. Entendemos que jamais teríamos uma prestação de serviços qualificada se a gente não remunerasse os serviços dos catadores. Isso é o diferencial do nosso ecoponto”, conta.

O estabelecimento recebe 500 visitas e opera com quase seis toneladas de material por mês. No PEV, catadores recebem o material triado pelos frequentadores, interagem com as pessoas que vão deixar os resíduos através de uma sensibilização e educação ambiental para elas. O processo, segundo Costa, humaniza e aproxima a relação entre catadores e pessoas e garante a qualidade dos resíduos que chega às cooperativas.

Através de acompanhamentos internos com a Recicleiros, parceiros na Gestão de resíduos da marca, a Quitanda acompanha processos de inovação e reflete mensalmente sobre melhoria de processos. Nesse ínterim, a marca repensa também suas embalagens. A iniciativa recebeu o Prêmio Eco de sustentabilidade da Amcham em 2017.

Como melhorar os índices de reciclagem no Brasil?

Para além dessas iniciativas, algumas ações mais macro são necessárias para promover uma cultura de reciclagem eficiente no país. Breno Alves lembra sobre a necessidade de governos se mobilizarem em torno dessa questão. “Eles poderiam se inspirar e buscar soluções diferentes, inovadoras, assumir que os sistemas que temos hoje não servem. Buscamos uma prefeitura que seja ousada para tentar algo diferente, um plano municipal com o Cataki, é uma das nossas metas”, aponta.

Outra questão apontada por ele seria melhorar a remuneração dos catadores – pagá-los pelo serviço ou, ao menos, aumentar o preço dos materiais. “Hoje o Brasil recicla quase 98% de latinhas de alumínio. Isso porque o alumínio é quatro reais o quilo, enquanto o vidro é dez centavos. Então quem vai pegar a garrafa de vidro? Se a gente conseguisse pagar esse valor no plástico e no vidro, acredito que iríamos a 90% de reciclagem desses materiais também”, resume.