Dia Mundial da Água: qual a responsabilidade da iniciativa privada na gestão dos recursos hídricos?

Dia Mundial da Água: qual a responsabilidade da iniciativa privada na gestão dos recursos hídricos?

Amcham Brasil

22 Março 2018 | 16h20

O dia 22 de março é celebrado internacionalmente como o Dia Mundial da Água. Estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992, a data reflete a necessidade de refletir sobre o uso e a proteção de seus recursos hídricos.

Um dos espaços colocados para essa discussão é o Fórum Mundial da Água. A 8ª edição, que vai do dia 18/03 até amanhã (23/03), é sediado pela primeira vez no Hemisfério Sul: Brasília recebe mais de 70 mil pessoas que fazem parte da iniciativa privada, sociedade civil e governos para debater justamente o que se propõe no Dia da Água. Para Mônica Queiroz, curadora da programação do “Rumo a Brasília 2018”, é importante que o evento aconteça no em uma região que tem diversos desafios relacionados a acesso, saneamento e gestão. Brasília, por exemplo, vive uma de suas piores secas e sua população convive com racionamento de água há mais de um ano. “É muito importante olhar pra água com o olhar de quem vive os dramas da água – e, não por acaso, o próximo país a sediar o Fórum é no Senegal”, comenta.

A especialista, que está acompanhando o evento, relata que uma das características mais marcantes dessa edição é o posicionamento claro da iniciativa privada quanto aos desafios da gestão hídrica. Um dos exemplos citados por ela é o Compromisso Empresarial para a Segurança Hídrica do CEBDS, assinado por grandes empresas no dia 19/03, durante o Fórum. O documento prevê metas para promover eficiência hídrica nas organizações e combater o desperdício. O diferencial é que o trabalho com a água não seria apenas intramuros, mas sim extramuros, como Queiroz coloca. “Não adianta nada reduzir o consumo de água dentro de seus processos produtivos e não olhar para a cadeia como um todo, o entorno e a comunidade”, relata.

Outro fator importante que aparece nas discussões do Fórum é pedido, por parte da iniciativa privada, por mais legislações que destravem questões para o setor – como, por exemplo, uma legislação própria para a questão do reuso ou sobre saneamento.

Iniciativa privada e gestão da água

Como fator essencial no uso dos recursos naturais, a iniciativa privada tem tomado iniciativas importantes relacionadas ao consumo de água. Um desses exemplos positivos é a Duratex. Em uma de suas fábricas, localizada em Taquari (RS), a organização desenvolveu um sistema de reuso de água que conseguiu eliminar completamente o lançamento de efluentes.

Cósimo Giovanni Rettl, Coordenador de Sistema de Gestão Integrada da Duratex, relata que a companhia buscava uma qualidade pós-tratamento que permitisse o reuso em todos os processos da fábrica. “E isso é a coisa mais difícil de acontecer. Existem tecnologias para tratamento, mas que não geram uma água de boa qualidade para todos os processos. Quando achamos a melhor tecnologia, adequamos nossa estação de tratamento de água. Esse foi o grande pulo do gato, então qualquer ponto da fábrica pode consumir essa água de reuso”, conta.

Com isso, a empresa alcançou seu objetivo e fechou o ciclo hídrico nos processos fabris da unidade. Em resultados, isso significou uma redução de 85% de captação de água na unidade, algo em torno de 110 m³ por dia. Com essa quantidade de água, é possível suprir as necessidades de abastecimento de 730 pessoas, levando em conta um consumo médio de 150 litros por dia. A Duratex recebeu o Prêmio Eco de sustentabilidade da Amcham – Brasil pela iniciativa.

Izidoro Sacarrão Machado, Coordenador de Sustentabilidade da empresa, esclarece que o reuso de água já é uma prática em outras unidades da Duratex, mas existe a pretensão de passar o conhecimento para outras unidades. “Precisamos ajustar alguns pontos por conta de processos industriais diferentes, não é só replicar. A água está dentro da nossa estratégia, e com isso buscamos reduzir a captação, trabalhando dentro do critério de sustentabilidade”, ressalta.

O Analista de Meio Ambiente da organização, Israel Reis, acredita que o modelo do não lançamento de efluentes é o caminho mais correto a se seguir dentro da sustentabilidade e da gestão de água. “Como a legislação ambiental vai ficando mais restritiva, fica mais difícil a questão do tratamento de efluentes e da devolução para o rio. Esses parâmetros estão ficando mais criteriosos, e isso não é uma coisa ruim, é uma coisa boa para proteger o meio ambiente, mas que torna o processo oneroso. Incentivar o não-lançamento de efluentes é talvez o caminho mais correto para seguir, então é uma luz que surge com grandes benefícios para a indústria e sociedade”, explica.

Redução de consumo

O desenvolvimento tecnológico ajudou a ECO1, empresa de que trabalha com eficiência hídrica, a diminuir substancialmente o uso de água para um cliente de logística na lavagem de caminhões de carga. A Tegma precisava limpar caminhões a cada carregamento por conta da carga de produtos químicos, o que acabava gerando um gasto mensal de R$ 52 mil em água. Uma máquina de lavagem a vapor possibilitou uma redução de 95% no consumo de água – ou seja, o custo caiu para aproximadamente R$ 2,5 mil. A economia de água foi de 1300 m³ ao mês para 10 m³ – com o equipamento, a quantidade média necessária de água é de 4,5 litros de água por caminhão. Além disso, o vapor é eficiente e faz a limpeza sem a necessidade do uso de produtos químicos, o que também deixa de poluir. A iniciativa também recebeu o Prêmio Eco da Amcham em 2017.

Paulo Nogueira, Diretor de Produtos e Inovação da ECO1, explica que houve um aumento expressivo na preocupação com a sustentabilidade no setor privado. O que atrapalha, muitas vezes, é o desconhecimento que há uma solução adequada: “O que a gente enfrenta na indústria é que a maioria das vezes, o cliente não sabe que ele tem um problema. Porque como a nossa solução é nova, não existia no mercado, ele convivia com aquilo, achavam que não tinha outra forma de fazer”, relata. As novas tecnologias, segundo o especialista, são determinantes no caminho para o sucesso da gestão dos recursos naturais.

Sociedade civil

Para além das discussões entre governo e empresas, a grande novidade da 8ª edição do Fórum ficou por conta da Vila Cidadã – espaço voltado para a sociedade civil e que pauta também algumas questões da agenda do Fórum de graça.

“O Brasil está sendo inovador – a Vila Cidadã é inovadora, trazendo crianças, famílias e jovens para discutir dentro da agenda do Fórum, tendo a sustentabilidade como linha transversal entre as pautas. Isso vem para trazer a sociedade em uma esfera que era muito política. Veio para quebrar esse paradigma de que sim, a sociedade civil pode participar e pode contribuir, pode fazer parte de vários pontos de solução e trazer discussões para dentro do Fórum”, comemora.