Florestas integradas ao cultivo: o desafio brasileiro de diminuir a pegada de carbono na agricultura

Florestas integradas ao cultivo: o desafio brasileiro de diminuir a pegada de carbono na agricultura

Amcham Brasil

01 Março 2018 | 16h30

Em 40 anos, o Brasil deixou de ser importador de alimentos e produtos agrícolas para ser uma das maiores potências mundiais desses produtos. O ganho na produtividade e aumento na eficiência do cultivo fizeram o agronegócio crescer e ganhar peso dentro do PIB nacional. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que, englobando toda a cadeia produtiva (insumos, agropecuária, indústria e serviços), a estimativa de participação é de 23,5% no PIB de 2017, com projeção de crescimento para este ano.

Ao mesmo tempo, o setor de Uso de Terra no Brasil tem uma grande pegada de emissão de carbono: cerca de 70% de todas as emissões de gases do efeito estufa (GEE) provém daí. A agricultura, pecuária e outras atividades extrativas têm impacto direto nesse índice. Por isso, há uma enorme necessidade de repensar e reformular a produção para controlar danos ambientais. André Guimarães, co-facilitador da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), destaca esse como o grande desafio brasileiro. “Estamos no desafio de continuar a melhorar a qualidade e produtividade da produção enquanto a gente reduz o desmatamento – ou seja, crescendo verticalmente, e não horizontalmente”, relata.

Guimarães cita duas alternativas para conseguir alcançar essa meta e que devem ser pensada concomitantemente. Em áreas já aberta e produtivas, é necessário investir mais em tecnificação para aumentar a produtividade, mudar práticas de uso de solo para aumentar a produção em unidade monetária e volume. O segundo bloco de ações se refere a áreas que ainda não estão desmatadas. Alguns exemplos são premiar agricultores que tem excedente de reserva legal, criar pagamentos de serviço ambiental ou desenvolver atividades econômicas que pressupõe a floresta em pé, com serviços e produtos florestais não madeireiros. “É uma combinação de melhorar o uso das áreas abertas junto com a valorização dos ativos que estão em pé. Você vai ter uma paisagem produtiva otimizada e a valorização de áreas que estão em pé”, resume.

Em áreas em que já há uma produção, há diversos tipos de reformulações que podem ajudar a reduzir a pegada de carbono. No entanto, Guimarães ressalta a importância de se analisar cada propriedade e negócio antes de implementar soluções. “Existe, na realidade, um perfil de uso de solo bastante variado na agricultura e pecuária. A gente tende a generalizar o uso de solo, mas ele é bem heterogêneo”, alerta. Sistemas agroflorestais, por exemplo, combinam atividades produtivas diferentes de diferentes ciclos e ajuda a aumentar a renda por hectare. No entanto, em uma grande escala, é muito mais difícil de ser concretizado. Nesses casos, há o sistema agrosilvopastoril: integrar lavouras, com espécies florestais e pastagens, com culturais mecanizáveis. Esse tipo de sistema também permite uma utilização mais eficiente da área.

 

Oliveiras que recuperam a Mata Atlântica

Na fazenda Caminho do Meio, onde é produzido o azeite Olibi, a restauração da mata a partir de reflorestamento foi realizada muito antes de se pensar em uma atividade comercial para a área. A propriedade, localizada na Serra da Mantiqueira (MG), no meio da Mata Atlântica, foi adquirida por Nélio Weiss em 1999. Naquela época, a região apresentava já algumas características de devastação, resultado de queimadas e retirada de árvores. Weiss começou o plantio de mudas nativas e não nativas já naquela época, cobrindo 18 hectares de solo devastado e adensando a mata em mais 15 hectares. “Comecei a ver o efeito de atrair pássaros, e eles acabam atraindo outros animais da cadeia: mais insetos, pássaros maiores, predadores mamíferos. Na medida em que foi passando o tempo, fui anexando mais terras e boa parte disso não tinha nada de mata. Tivemos algumas experiências plantando espécies não eram plantas nativas – algumas deram certo, outras não, e fomos experimentando”, explica o fundador.

Percebendo a importância da presença de aves na região, que auxiliam na distribuição de sementes, Weiss plantou árvores frutíferas para atrair as espécies e, em parceria com o Ibama, fez um projeto soltura de aves. O instituto calcula que, no Brasil, cerca de 38 milhões de animais silvestres são retirados da natureza todos os anos – cerca de quatro milhões para comércio ilegal. No mundo, é o terceiro crime mais lucrativo, apenas após venda de armas e drogas. Desde 2007, os viveiros da Caminho do Meio recebem animais apreendidos de maus-tratos e comércio ilegal, são tratados e devolvidos à natureza. Em alguns casos mais graves, em que os pássaros não podem ser reinseridos na natureza, a fazenda mantém um criadouro que cuida permanentemente deles.

Para arrecadar fundos para manter os projetos, Weiss começou o cultivo de oliveiras dentro da propriedade, em harmonia com a vegetação nativa. Apesar de ser uma planta que não é tipicamente brasileira, as plantas se adaptam bem a serra: o solo tem características parecidas e a altitude ajuda a manter um clima um pouco mais frio. “Eu precisava achar uma cultura permanente cuja plantação tornasse a propriedade e os projetos sustentáveis, mas que também ampliasse o projeto. A oliveira tem duas características importantes: as aves não comem azeitona. Não adiantaria fazer uma plantação de frutos que fosse alimento das aves, não daria certo pra sustentar o investimento. E, em segundo lugar, é uma árvore que exige muito pouco do solo, que usa muito pouco dos recursos naturais”, explica. A primeira muda foi plantada em 2011 e a primeira colheita comercial realizada no ano passado, gerando 426 litros de óleo de azeitona.

Desde 2016, foi criado o projeto Adote uma Oliveira, que possibilita com que pessoas participem contribuindo financeiramente com a iniciativa. O investimento anual em uma árvore é revertido a todas as ações ambientais dentro da propriedade. A verba arrecadada até agora viabilizou a plantação de mais 130 árvores nativas, a reintrodução de 312 aves de volta na natureza e o cuidado de 215 pássaros resgatados. Todo o modelo criado por Weiss foi reconhecido pelo Prêmio Eco de sustentabilidade da Amcham em 2017.