No cheque especial: uso de recursos naturais já ultrapassou a capacidade do planeta se regenerar

No cheque especial: uso de recursos naturais já ultrapassou a capacidade do planeta se regenerar

Amcham Brasil

17 Agosto 2017 | 16h11

Estamos no vermelho. A demanda de energia, água, alimentos e matéria-prima para atividades econômicas superou a quantidade que a natureza consegue gerar em um ano: desde o dia 2 de agosto, os recursos naturais para 2017 se esgotaram. A partir desta data, tudo o que será usado, produzido ou consumido pertenceria a gerações futuras: é como se, ao invés de pagarmos as contas no débito, estivéssemos jogando nossas despesas para o cartão de crédito. O fenômeno, calculado pela organização Global Footprint Network, é chamado de Dia da Sobrecarga da Terra. Em 1987, quando começou a ser registrada, a data caiu no dia 9 de dezembro. Infelizmente, desde então, esse dia chega mais cedo a cada ano.

Segundo cálculos da instituição, o mundo precisaria de 70% a mais de recursos naturais para suprir a demanda global hoje – ou seja, de 1,7 planeta. Quando olhamos para países desenvolvidos, o número se multiplica. Se todas as pessoas do mundo tivessem o consumo de países como Austrália e Estados Unidos, por exemplo, seriam necessários cinco planetas; para Inglaterra, França e Suíça, seriam três.

O aumento da população mundial, da renda e do consumo em diversos países e as emissões de carbono são os principais responsáveis pelo esgotamento do nosso orçamento natural, segundo as principais autoridades em sustentabilidade. Fabrício de Campos, especialista do programa agricultura e alimentos do WWF-Brasil, lembra que já estamos vivendo as consequências desse processo, uma delas é mudanças climáticas. “A gente sobrecarrega a atmosfera com gases de efeito estufa, não temos a capacidade para absorver isso, alterando o clima e prejudicando não só ecossistemas naturais, mas também a economia”, explica.

Esses dados ajudam a entender como a economia e a sociedade devem se reestruturar para entender que chegamos a um limite. A mudança nos hábitos de consumo, a reestruturação de transportes e geração de energia são pontos essenciais a serem trabalhados. Para isso, é preciso redesenhar o modelo linear (extração, produção, consumo e descarte) da economia, atuando para ter processos e serviços circulares que poupem e otimizem o uso desses recursos.

Lixo como um erro de design

Um exemplo é a gestão de materiais dentro da cadeia. Geralmente, o assunto de resíduos é associado a reciclagem. No entanto, há mais formas de atuar para reformular a questão – sendo inclusive uma oportunidade de atuação para a iniciativa privada. Para Daniela Lerario, CEO da TriCiclos Brasil, o lixo é um erro de design que custa caro. “É preciso ‘reciclar a reciclagem’, mudar a forma como enxergamos o problema, mostrar que o termo tem muito mais do que as pessoas imaginam. Antes da reciclagem, existem oportunidades nas maneiras de produzir e consumir que apresentam potencial ainda maior de redução do impacto dos resíduos”, afirmou.

Em 2015, o país registrou a geração de 79,9 milhões de toneladas de resíduos sólidos, segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Isso faz com que o Brasil seja o quarto maior gerador de detritos do mundo. Além disso, o mesmo relatório aponta que houve aumento no volume de rejeitos enviados para destinação inadequada: 30 milhões de toneladas foram para lixões irregulares. Vale lembrar que esses materiais, além de não serem aproveitados e poluírem o solo e a água, emitem gases de efeito estufa como o metano (CH4), abundante em aterros sanitários.

O Movimento Resíduo Zero, lançado em 2015 pela Eccaplan, tem como princípio a não-geração de resíduos. Como lembra Fernando Beltrame, CEO da organização, esse processo se inicia em pensar em maneiras de não consumir. “Então, quando você está em uma empresa, você não vai pensar em como reduzir a caixa de papelão. É o que fazer para nem utilizá-la”, afirma. A conscientização e a educação ambiental desenvolvem um papel fundamental para mudar esses hábitos de consumo.

Reciclagem

Enquanto em estados como a Califórnia, nos Estados Unidos, a destinação correta alcança índices de 80%, em São Paulo a reciclagem fica em torno de 2 ou 3% de tudo que é gerado, segundo Beltrame. O Movimento Resíduo Zero tenta mudar essa realidade: a campanha engaja pessoas físicas e jurídicas para adotarem a reciclagem. Um dos trabalhos oferecidos pela organização é na parte de eventos, evitando que o lixo produzido durante aquele período vá para aterros.

Um exemplo foi a ação recente na Casa Cor, em São Paulo. O evento de arquitetura, decoração e paisagismo, que aconteceu entre maio e julho, fez uma parceria com a Eccaplan e conseguiu reaproveitar 95% do material que foi exposto. “Às vezes, os clientes e as pessoas que frequentam esses eventos não sabem o que será feito com aquele resíduo. Uma feira no Expo Center Norte de três dias pode produzir 50 caçambas de rejeitos. E são caçambas grandes, seis vezes maiores que as das ruas”, conta.

Beltrame aponta que algumas políticas públicas poderiam ajudar a melhorar os índices de reciclagem de tipos de materiais. Um exemplo citado por ele é o vidro. “Quase ninguém recicla vidro em São Paulo. É a única embalagem que, de uma garrafa, você faz outra garrafa. A latinha [de alumínio] todo mundo recicla porque um quilo você vende por dois, três reais. O vidro, dois a cinco centavos pelo quilo. Ou seja, 100 quilos de vidro dá cinco reais. Estamos criando montanhas de vidro no Brasil”, alerta.

Além da falta de políticas públicas e engajamento de forma geral, um dos problemas são embalagens que, devido a sua composição, não podem ser recicladas. Um exemplo são as embalagens laminadas, compostas de Polipropileno Biorentado (BOPP) e alumínio. Muito usadas na indústria alimentícia pela flexibilidade, são um fardo para o meio ambiente: ainda não há uma tecnologia que consiga reciclar o material.

A TriCiclos desenvolveu uma metodologia para medir o índice de reciclabilidade das embalagens, considerando fatores materiais (como composição), design (complexibilidade e riscos de contaminação) e eficiência. Após essa avaliação, as embalagens são classificadas em categorias que vão desde excelente (100% de reciclabilidade) até não reciclável. “Com base no resultado, as empresas podem aperfeiçoar suas embalagens e/ou produtos para que eles sejam mais eficientes diminuindo seu impacto ambiental e contribuindo com o aumento da reciclagem no país”, conta Daniela Lerario. Mesmo materiais que não são recicláveis, como o lixo orgânico, podem ser reaproveitados através de compostagem e virar adubo para fertilizar o solo.

Para Fabrício de Campos, do WWF-Brasil, não será uma tarefa fácil reverter a situação dos recursos naturais. Para isso, o especialista recorda os compromissos ambientais que devem ser cumpridos nas esferas do governo, iniciativa privada e pelo cidadão: “Na esfera governamental, a redução do consumo de recursos e a construção de uma infraestrutura mais verde; a iniciativa privada deve atuar em suas próprias cadeias de valor, combatendo o desperdício; o cidadão comum, deve reduzir seu consumo e torná-lo mais consciente. É possível reverter esse quadro e, na realidade, não temos outra opção”.