Os desafios e as competências para a liderança sustentável

Os desafios e as competências para a liderança sustentável

Amcham Brasil

07 Julho 2017 | 14h20

A liderança conquistou um papel importante nos modelos de negócios contemporâneos. Em um curto período de tempo, o gestor deixou de ser apenas o responsável por conduzir os bons resultados da organização, para ser fonte de inspiração e motivação para os seus colaboradores. O bom líder, de acordo com os padrões atuais, é um técnico que dirige e engaja o seu quadro de funcionários como um time disputando um campeonato mundial.

Neste contexto, o que é engajamento? É a capacidade que um sistema tem de manter seus funcionários motivados e em sintonia com o negócio da empresa. Ou seja, o colaborador precisa encontrar sentido no que realiza, entendendo por que é importante para empresa e quais são os seus resultados, não só para o crescimento da organização, mas para a sociedade como um todo. O papel do líder é manter conexão entre o que é importante para a organização e o que deseja o funcionário. Por isso, os ambientes estão cada vez mais diversos, colaborativos e horizontais, o que contribui para um clima mais criativo e produtivo.

Uma demanda que tem crescido nesses ambientes e que dialoga com o momento atual do mercado e do planeta é a sustentabilidade. As questões acerca do tema são cada vez mais frequentes e o líder é visto como um dos pilares essenciais para o sucesso na área. Seu papel é trazer a temática de forma transversal em toda a organização, aliando resultados econômicos, sociais e ambientais, conforme indica Luciana Alvarez, gerente de comunicação e sustentabilidade da Duratex.“Todo líder tem metas para serem atingidas, principalmente as econômicas, ainda mais no cenário em que a gente vive. Se ele não tiver esse olhar mais abrangente para as questões socioambientais, vendo inclusive como retorno financeiro, será bem complicado. Fica só o lucro pelo lucro”, resume a executiva.

Duratex

A Duratex está implementado um processo de atualização da cultura da organização, incorporando a sustentabilidade de forma mais estruturada em todos os seus processos. Com o apoio de profissionais de diferentes áreas de atuação, a companhia desenvolveu um plano de metas que deve ser cumprido até 2025. São 45 objetivos divididos em 4 temas centrais: pessoas, processos, produtos e serviços. Essas mudanças, de acordo com Alvarez, são de extrema importância para a perenidade do negócio. Além disso, trazem resultados positivos para a empresa e os seus colaboradores. “Quando você atrela isso no dia a dia, tem um resultado de clima organizacional e de resultados, principalmente financeiros, enorme. Isso não tem dúvida. Você atrela uma missão maior” comenta.

Embora o cenário econômico não seja o melhor, a gerente de sustentabilidade da Duratex afirma que a estratégia adotada tem tido grande receptividade, ainda mais das lideranças. “Estamos em um momento tão de equipe”, afirma. Para desenvolver líderes engajados nos quatro temas citados no parágrafo anterior, eles estão promovendo rodas de conversas para discutir comportamentos, compartilhar melhores práticas e inspirar uns aos outros. Outros projetos que aproximam os líderes do cotidiano dos seus colaboradores, entendendo melhor quem são e o que fazem no dia a dia – não só da empresa, mas da vida como um todo – também estão sendo colocados em prática.Iniciativas como essas já renderam a Duratex já conquistou o Prêmio Eco da Amcham.

Mudar e transformar a cultura da empresa, a fim de que os stakeholders enxerguem que a sustentabilidade não pode ser pontual ou apenas um projeto, é de fato um desafio. Algo a ser pensado, logo no primeiro momento, é o alinhamento e o treinamento das pessoas.

Foco em transformação

O desenvolvimento de competências da liderança deve estar na agenda de qualquer pessoa que queira trabalhar com a transformação – e não só no setor privado. Um exemplo é a ONG Redes da Maré, criada em 1997 por moradores do maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro (RJ), que vem investindo em treinamentos para desenvolver a liderança há pelo menos três anos. O principal propósito da ONG é justamente construir o desenvolvimento sustentável na região, desenvolvendo temáticas como educação, arte e cultura e geração de trabalho e renda. Por isso, o trabalho com os colaboradores é essencial para refletir nas ações para fora da instituição. Em parceria com a ProFitCoach, estabeleceram um projeto de coaching com os diretores da ONG, com encontros individuais, estabelecimentos de metas e métodos para a realização do trabalho.

Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré, garante que pelo menos trinta pessoas da rede já passaram por esse processo, com resultados positivos. “Do ponto de vista da sustentabilidade, contribuiu muito para a gente entender melhor nosso papel de trabalho, que é muito desafiador e complexo. Temos de criar a sustentabilidade lidando com muitas dimensões humanas, conflitos, desafios coletivos e individuais. É muito importante que as pessoas que estão em processo de transformação social entendam seu o papel e seus limites”, resume.

Eliana Dutra, CEO da ProFitCoach e coordenadora do projeto na Redes da Maré, que elaborou o projeto de coaching identificou que a estrutura das ONGs tem características semelhantes a de empresas familiares. “Semelhante a uma empresa familiar, é dirigida por pessoas que nem sempre tem a formação de liderança que seria de se esperar de um líder. A ideia era apoiar essas pessoas para elas desenvolvessem as competências que precisavam para aumentar a sustentabilidade da ONG”, explica.

Competências chaves

E quais são as competências necessárias para o líder que quer trabalhar com a sustentabilidade? Para a gerente de sustentabilidade Duratex, trabalhar com a visão do negócio e mergulhar em seu funcionamento são essenciais para compreender os impactos gerados pelo negócio para, daí sim, gerar insights sobre possíveis ações. “Assim sim você consegue ter uma visão sistêmica e trazendo as questões socioambientais à luz desse negócio. O líder precisa ter essa visão antecipatória. Até quando a gente vai fazer bacias que não são econômicas? A gente tem uma meta de até 2025 ter 100% do portfólio de produtos ecoeficientes”, específica. Ser resiliente e inconformado são outras características bem-vindas.

Já para a diretora da Redes da Maré, destacou que estar aberto ao novo e ao trabalho colaborativo são qualidades importantes. No entanto, o principal é acreditar nas mudanças: “tem pessoas que não acreditam que as coisas podem ser pensadas ou feitas de maneira diferente. Uma característica forte de alguém que quer trabalhar com dinâmicas sociais é crer que você está fazendo algo que vai trazer resultados”.