Os três pilares da sustentabilidade: como o desenvolvimento econômico pode contribuir para os negócios, a natureza e a sociedade

Os três pilares da sustentabilidade: como o desenvolvimento econômico pode contribuir para os negócios, a natureza e a sociedade

Amcham Brasil

19 Maio 2017 | 15h06

O termo sustentabilidade nunca foi tão utilizado quanto no nosso contexto atual, onde as preocupações com as mudanças climáticas e os seus impactos no futuro do planeta se mostram urgentes. Nas escolas, nas empresas, na mídia e até mesmo nos discursos governamentais é fácil encontrar essa terminologia. Só nos últimos 12 meses, a palavra foi utilizada cerca de 206.00 vezes em notícias publicadas na internet no Brasil, de acordo com o buscador do Google. Dividido por 365 dias, isso quer dizer que, em média, ela foi usada 564 vezes por dia pela imprensa e por blogs. No entanto, ainda que muito difundida, quando surge a necessidade de definir o que é sustentabilidade, poucos conseguem chegar a uma explicação clara e concisa sobre o tema.

A palavra deriva de outro termo, chamado “desenvolvimento sustentável”, que foi reconhecido internacionalmente em 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, na Suécia. “O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”, é a sua definição mais comum e que fundamentou outros encontros, como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92), realizada em 1992 no Rio de Janeiro. A ECO-92 representou a primeira tentativa internacional de elaborar planos de ação e estratégias para assegurar o planeta.

O conceito de sustentabilidade, assim como do desenvolvimento sustentável, é amparado por três pilares: econômico, social e ambiental. Seu objetivo é manter a harmonia entre os componentes para garantir a integridade do planeta, da natureza e da sociedade no decorrer das gerações. Sendo assim, pensar a sustentabilidade como um conceito único e voltado para a gestão dos recursos naturais finitos é equivocado. Ela vai muito além.

Ao longo de três semanas, nossos textos estarão pautados nestes pilares, explicando de forma mais aprofundada a importância de cada um, principalmente em relação às responsabilidades do setor privado. Esta série de análises e exemplos de práticas empresarias positivas marcam a abertura das inscrições do Prêmio Eco 2017, promovido pela Amcham há 35 anos.

A sustentabilidade econômica aplicada aos negócios

Como a sustentabilidade se relaciona com o desenvolvimento econômico? Historicamente, o sucesso das organizações está atrelado apenas a seus resultados financeiros. No entanto, talvez isso não seja mais o suficiente. No início deste ano, a ONG britânica Oxfam publicou um relatório em que denunciava a desigualdade econômica no mundo. Segundo a instituição, oito pessoas no planeta possuíam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial. Este dado trouxe ao debate o sistema econômico vigente e a responsabilidade de governos, empresas e civis dentro dessa questão. Se a iniciativa privada integra esse sistema, gerando empregos, produtos e riquezas, porque não pode repensar seu papel, promovendo o desenvolvimento econômico ao seu redor? Como promover a sustentabilidade nos seus processos?

Para o Aron Belinky, Coordenador do Programa de Produção e Consumo Sustentáveis do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, a sustentabilidade, quando integrada aos negócios, também pode ser analisada e definida a partir de três gerações, que definem o estágio de desenvolvimento e o envolvimento da empresa com o tema.

A primeira, que corresponde ao período entre os anos 70 e 90, diz respeito à identificação do problema, que nada mais é do que reconhecer que, de fato, o estilo de produção e consumo da época não poderia continuar. É o momento em que a agenda da sustentabilidade entra no negócio para tentar convencer a todos sobre a sua relevância. No segundo momento, entre 1992 e 2012, o foco foi as oportunidades de conexão entre a sustentabilidade e os negócios. É o momento em que a agenda começa a ser assimilada e pensada na organização. Ações estratégicas e integradas com o negócio entram em prática.

Já no terceiro momento, para Belinky, é o vivenciado atualmente. Ele corresponde a uma evolução do estágio anterior: agora os processos encontram-se assimilados de modo que se diluem na empresa. As ações não são mais definidas como práticas de sustentabilidade, mas como o modo de pensar da organização. Vira parte do seu DNA. Neste cenário, o desafio é ampliar do estratégico para os pontos práticos do negócio.

A partir deste sistema, o especialista da FGV afirma que haverá uma “seleção natural” no mercado. “Vão ter negócios que, se você olhar por essa ótica, não vão se sustentar nos próximos anos. Eles não vão ter condições de prosperar. Em contrapartida, negócios que são muito compatíveis com isso [sustentabilidade], vão ter uma grande condição de prosperar neste cenário”.

Um exemplo usado pelo professor foi a indústria automobilística. A sustentabilidade nesse setor iria além do funcionamento do produto. “A indústria automobilística é altamente dependente de espaço nas ruas. Não cabe mais nas ruas e é cada vez mais caro estacionar. Além disso, existem soluções alternativas para as pessoas. O caminho do futuro, certamente, serão as novas formas individuais ou coletivas de se deslocar. Então, esse modelo de negócio tem um problema. Uma empresa que tem essa visão e seja capaz de identificar isso vai ganhar mercado e competitividade”, comenta.

Quando a sustentabilidade chega ao seu último estágio, ela gera valor para a empresa. Como citamos anteriormente, ela deixa de ser uma prática para se tornar uma estratégia de atuação que permeia toda a organização de forma natural.

Thiago Tereda, gerente de sustentabilidade da Beraca, empresa brasileira fornecedora de ingredientes provenientes da biodiversidade do país, concorda que a sustentabilidade pode ser um modelo de negócio e muito bem sucedido. A Beraca, por exemplo, é uma companhia que busca matérias-primas naturais para o desenvolvimento de produtos para a indústria cosmética. Ela trabalha em parceria com mais de 100 comunidades de agricultores familiares em diversos biomas do país, que são responsáveis pelo manejo sustentável dos insumos utilizados pela empresa, como buriti, cupuaçu, andiroba, açaí e outros.

Essa relação, além de valorizar o potencial da floresta em pé, promover a segurança e a manutenção do bioma, também gera renda para as mais de 2.500 famílias cadastradas. Dessa maneira, estabelece as conexões para o desenvolvimento sustentável a partir de práticas econômicas, de desenvolvimento social e de preservação ambiental. De acordo com dados de 2013 divulgados pela empresa, em Salvaterra, município do Pará, 84,5% da renda dos coletores de sementes foi gerada pelas cooperativas da Beraca. Já em Bragança Paulista, interior de São Paulo, este índice foi de a 77%. Ou seja, a maior parte da renda dos coletores de sementes nestes locais veio do trabalho em conjunto com a Beraca. A iniciativa concorreu ao Prêmio Eco em 2014.

Ter um negócio que crie valor para o cliente é uma das chaves de sucesso para Tereda. “A sustentabilidade é um grande guarda-chuva, você pode focar no que tem potencial para ser negócio para você”, indica. Como os consumidores estão cada vez mais exigentes e preocupados com o futuro, negócios sustentáveis são mais bem sucedidos.

O gerente de sustentabilidade da Beraca também ressalta a importância de tratar o assunto com seriedade, como parte do DNA da empresa. “Se você trata isso como periférico, o negócio fica muito frágil. Em uma crise as primeiras coisas que vão cair são aquela que não são essenciais. Então, se a empresa enxerga que não é essencial [a sustentabilidade], ela será cortada. Agora, se você criou vantagem competitiva e valor para o seu cliente, é muito mais difícil você deixar de fazer isso, porque perde mercado. Isso vai estar na agenda de todos os colaboradores, incluindo a do CEO”.

Em 2004, quando operando em um local afastado na Índia, funcionários da Schneider Electric perceberam que as pessoas que moravam ao redor da empresa não tinham acesso à energia. Aquilo provocou um insight entre as pessoas da organização: não bastava oferecer o produto, mas também trabalhar com as comunidades ao redor, principalmente para atingir as pessoas mais pobres. Reconhecendo a importância que esse recurso tem na atividade econômica, a Schneider Electric implantou o Programa de Acesso a Energia. Globalmente, a iniciativa já levou o recurso para mais de dois milhões de famílias.

No Brasil, as ações se concentram em locais mais afastados, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Embora a maior parte dos municípios brasileiros tenha acesso à energia, um levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), aponta que o país possui um milhão de residências sem luz.

Denise Molina, Gerente de Sustentabilidade e Acesso à Energia da organização, reafirma que um dos pontos principais da iniciativa é gerar oportunidades para a comunidade. Em um primeiro momento, o programa tinha como foco a capacitação de pessoas para trabalharem com eletricidade. A mão de obra acabou sendo absorvida pela cadeia de clientes e fornecedores da Schneider. Além da geração de empregos na área, esse treinamento acaba sendo importante para preservar as instalações e equipamentos na região, principalmente considerando que a tecnologia usada pela organização é a energia solar e envolve uma logística específica.

“Para a comunidade, a iniciativa traz desenvolvimento. A gente sempre trabalha com a formação das pessoas e também com empreendedorismo. Isso ajuda as pessoas a criarem suas próprias atividades”, conta a especialista. Isso é possível através de parcerias com outras empresas ou mesmo com organizações civis. Um exemplo é a situação da mulher nesses lugares. “No último semestre, descobrimos as dificuldades que as mulheres têm em se tornarem empreendedoras. A partir disso, a gente fez parcerias com ONGs, por exemplo, que tem como causa a mulher e o combate a violência a doméstica. Nós recrutamos as mulheres que gostariam de trabalhar na área elétrica”, explica. Após esse treinamento, a Schneider encaminha essas profissionais para seus clientes, o que acaba engajando a cadeia na causa.

Há também parcerias para incentivar pequenas cadeias extrativistas sustentáveis, aproveitando o próprio potencial da região, como extração de produtos agrícolas. A Schneider entra fornecendo a capacidade de geração de energia e outros parceiros podem contribuir com tecnologias ou técnicas necessárias. “Para o programa dar certo, tem que estar muito vinculado ao negócio principal da empresa. O primeiro passo é entender bem o core-business da organização e ir mapeando quem está de fora do mercado. A partir daí, é estruturar o impacto positivo que a ela quer provocar. Uma empresa, sabendo o que ela faz e entendendo sua vocação para servir o mercado,  consegue engajar outras e sua cadeia”, aconselha.

Para os próximos anos

Os três entrevistados acreditam em rumos positivos para os próximos anos, isso porque a própria sociedade está exigindo melhores práticas. Ela está mais engajada e consciente.

Aron Belinky vê um discurso mais pautado no aprimoramento das ações. Ele aposta que o termo sustentabilidade cairá em desuso. “uma empresa que se preocupa em ser eficiente no ponto de vista energético, não vai considerar isso só como uma questão de sustentabilidade.” Mais do que isso, para ele, será uma ação de sobrevivência para os negócios. “É um assunto que está se incorporando cada vez mais nas estratégias e das práticas do dia a dia das empresas”, completa.

“O próprio caminhar da civilização vai puxar cada vez mais as empresas. Ninguém vai querer perder as demandas desse público”, comenta Thiago Tereda sobre as mudanças no perfil do consumidor. Para ele, a sustentabilidade é um caminho sem volta, que deverá ser trabalho nas organizações em longo prazo. “Acho que a gente só vai incorporar a sustentabilidade de fato quando ela for o negócio e não um processo acessório”.

Denise Molina também acredita em um amadurecimento na área. “É um momento muito bom, promissor e inspirador, mas que precisa se aproximar do negócio. O negócio precisa, talvez, se reinventar. Acho que a sustentabilidade é a alavanca que permite essa reinvenção”, afirma.

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