Programas de incentivo a reciclagem trocam embalagens por desconto em livros, transporte e alimentos

Programas de incentivo a reciclagem trocam embalagens por desconto em livros, transporte e alimentos

Amcham Brasil

09 Outubro 2017 | 14h41

Imagine trocar boa parte do seu lixo por desconto no transporte público, em livrarias, produtos e até mesmo por alimentos. Essa não é só uma boa ideia que promove a cultura da reciclagem, diminui os impactos ambientais e recompensa o consumidor final: é uma realidade, ainda que restrita a alguns municípios brasileiros. O desenvolvimento de negócios, máquinas e serviços que fazem o lixo ter valor aos olhos da população e promovem uma destinação correta a eles é o foco de pessoas como Felipe Cury, Marcelo Valadão e Benki Piyãko.

A situação do lixo é algo preocupante no Brasil. O último relatório da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE) aponta que a disposição final do lixo urbano apresentou retrocesso: 41,6% dos resíduos urbanos do país em 2016 foram parar em lixões ou aterros controlados – locais que não possuem medidas para proteger o ambiente de danos. Isso representa 29,7 milhões de toneladas de lixo, o que significa que esses locais receberam mais de 81 mil toneladas de resíduo por dia. Quanto a coleta seletiva, apenas 3.878 municípios (69%) apresentam iniciativas de coleta seletiva – no entanto, na maior parte dessas cidades, a coleta seletiva não abrange a totalidade da área urbana.

Reinaldo Kühl, gerente da categoria Foods & NAB da Owens Illinois na América Latina, avalia que há um conjunto de fatores sociais, governamentais e privados que fazem com que o índice de reciclagem no Brasil ainda seja muito baixo. Por isso mesmo, esse problema deve ser resolvido de maneira conjunta e aponta três pontos que devem ser atacados. “Disponibilidade é o primeiro, precisamos ter pontos de coleta e acessibilidade para o consumidor realizar o descarte corretamente. No Brasil, isso é muito difícil. O segundo é educação para os consumidores, não temos educação voltada à reciclagem. Uma coisa que os países desenvolvidos trabalham e que acho que devemos trabalhar aqui é a questão da recompensa. Na Alemanha, você troca uma embalagem retornável de PET ou vidro em uma loja de conveniência e você consegue obter um benefício”, opina.

Segundo Kühl, a Retorna Machine, tecnologia desenvolvida pela empresa Triciclo, trabalha com dois pontos fundamentais nessa questão: a disponibilidade para o consumidor final e o sistema de recompensas. A Retorna Machine é uma máquina de venda reversa que recolhe resíduos sólidos reutilizáveis ou recicláveis. Qualquer pessoa pode criar uma conta no sistema da Triciclo, através do site, aplicativo ou da própria máquina e fazer o descarte dos resíduos. Com isso, o consumidor vai acumulando pontos vinculados a seu cadastro e que podem ser revertidos em benefícios como crédito no Bilhete Único, desconto na conta de luz, em livros na Saraiva e outras vantagens de parceiros do programa.


Todas essas máquinas são conectadas pela internet e avisam os colaboradores da empresa quando o compartimento fica cheio. A equipe vai até a máquina, recolhe os resíduos, armazena em um galpão próprio e realiza a triagem do material. Esses resíduos são empacotados e revertidos para empresas recicladoras e cooperativas.

Em pouco mais de um ano, a empresa conta com 20 máquinas em operação que já coletaram um milhão e 300 mil embalagens. Através de parcerias, a Triciclo conseguiu colocar os equipamentos em locais públicos e privados como lojas de supermercado do Carrefour, hospitais, estações de metrô da Linha 4 Amarela, shopping e faculdades. Por enquanto, a grande maioria dos equipamentos está na cidade de São Paulo e algumas estão nas fábricas da Owens Illinois no Rio de Janeiro e Recife. A diversificação desses locais faz com que haja uma grande movimentação e acabem gerando um apelo social grande, segundo Felipe Cury, CEO da ‎Triciclo.

“A forma de trabalhar com incentivos traz o cidadão para o projeto e de certa maneira realiza a educação e reeducação ambiental. Na hora que ele percebe que aquela latinha que ele jogou no lixo vale dinheiro no Bilhete Único, ele começa a criar a convicção de que aquele resíduo tem um valor. Ele para de olhar aquilo como um lixo e olha pra algo que tem um valor”, salienta Cury.

Poder das parcerias

Inicialmente, as máquinas da Triciclo recolhiam apenas alumínio e plástico. Quando um funcionário da Owens Illinois viu a tecnologia, pensou na viabilização da coleta de vidro através de uma parceria. A partir deste ano, o conjunto de ações das duas empresas deu origem a uma máquina que também capta esses recipientes. Esse material também é triado pela Triciclo e retorna para o fabricante.

“Esse tipo de benefício traz dois tipos de vantagem para nosso parceiros: o primeiro é um retorno intangível, que é a valorização da marca, produto e serviço dentro da sustentabilidade. O outro é a possibilidade de instalar máquinas dentro das lojas, aumentando o tráfego e também realizar campanhas com produtos específicos para aumentar a margem de lucro”, explica Cury.

A Owens Illinois tem outros projetos com empresas para promover o ciclo sustentável do vidro. Um exemplo é a Glass is Good, idealizada pela DIAGEO, que é resumidamente um programa de logística reversa em parceria com cooperativas de catadores, bares e casas noturnas e a Owens, que compra os cacos de vidro e usa novamente como matéria-prima. Segundo a empresa, cada quilo de cacos utilizado na produção de novas embalagens substitui 1,2 quilo de matérias-primas virgens. Desde 2012, a iniciativa já reciclou mais de 11 milhões de toneladas e recebeu o Prêmio Eco de Sustentabilidade da Amcham.

A reciclagem impactando na vida urbana

Em uma cidade de 15 mil habitantes do Acre, na fronteira com o Peru, uma iniciativa de incentivo à reciclagem melhorou a questão do lixo na cidade, economizou recursos públicos e promoveu o desenvolvimento econômico da comunidade. Marechal Traumaturgo abriu o primeiro supermercado ecológico do país, onde as pessoas da comunidade trocam plástico por crédito em alimentos no estabelecimento. O quilo do material vale R$ 0,50 – se a embalagem estiver limpa, sem rótulo e tampa, a loja paga R$ 0,60. Com esse dinheiro, as pessoas podem comprar os alimentos do mercado, todos provenientes de microprodutores da própria cidade. O TrocTroc foi idealizado por Marcelo Valadão, presidente da Fundação House of Indians, e o líder indígena do povo Ashaninka, Benki Piyãko.

Ao conhecer o município, Valadão ficou impressionado com a quantidade de lixo nas ruas. A água do município é contaminada – por isso, boa parte dos habitantes consome água mineral engarrafada. Isso gerava um excedente de plástico que ia parar nas ruas e no rio que corta a cidade. O TrocTroc surgiu como uma resposta para criar um incentivo e conscientização da comunidade a respeito da questão do lixo, fornecendo uma logística que proporciona o descarte correto – algo essencial em um local isolado, acessível apenas de avião ou viagens de barco. Uma parceria com a prefeitura garante que, a cada dois meses, o governo leve o material coletado pelo mercado para a cidade de Cruzeiro do Sul, onde o plástico passa por triagem e é encaminhado para a capital do Estado, Rio Branco, para ser reciclado.

“Em uma semana de trabalho, arrecadamos cinco toneladas de plástico. Acabou o lixo da rua, foi uma revolução na cidade. A motivação dentro do projeto foi tão grande que as pessoas viram a cidade limpa e começou a acontecer uma corrente ecológica automaticamente. As escolas começaram a falar sobre reciclagem, a prefeitura começou a fazer um projeto sobre ecologia. Perceberam que é muito mais do que um projeto de reciclagem: nós tocamos na saúde pública, porque menos resíduo na rua significa menos foco de habitat para vetores de doenças”, comemora Valadão.

Além desses ganhos, o modelo do TrocTroc proporcionou renda aos microprodutores da cidade e barateou o preço dos alimentos para os consumidores finais. A intenção é que o projeto se espalhe para outros municípios e regiões do Brasil, segundo Valadão.

“É muito lucrativo. A nossa intenção é criar uma pequena fábrica para pegar o plástico, triturar e transformar em esfera. A partir do momento que ele é triturado em esfera, o que custa 50 centavos vale R$ 1,80 o quilo. Então, se tivermos empresários que invistam nesse projeto, o lucro é muito grande. Nós queremos fazer uma parceria que todos ganham”, avalia.