Reduzir, mitigar e neutralizar: como as empresas se adaptando a uma economia de baixo carbono

Reduzir, mitigar e neutralizar: como as empresas se adaptando a uma economia de baixo carbono

Amcham Brasil

20 Fevereiro 2018 | 16h02

Em 2016, a temperatura do planeta foi de 1.1 Cº acima do período pré-industrial, de acordo com o World Meteorological Organization (WMO). Nesse período, o número de partículas de dióxido de carbono bateu o recorde de 400 partes por milhão. Esses dados, expostos no portal dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), apontam o lento avanço global rumo a uma economia de baixo carbono. O Brasil, apesar de emitir relativamente menos gases do efeito estufa (GEE) do que países desenvolvidos, vem aumentando sua pegada de desde 2014, conforme divulgado pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Neutralização x redução

Apesar disso, empreendedores brasileiros despontam com alternativas para reduzir e neutralizar os impactos ambientais de suas atividades. Felipe Bottini, sócio fundador da Neutralize Carbono, explica que a neutralização e a mitigação são processos diferentes. A redução das emissões envolve reformular processos industriais ou de logística para meios menos poluentes. Um exemplo seria deixar de usar energia elétrica de uma fonte não renovável para uma renovável – de termoelétrica para solar. A neutralização seria a compensação pela emissão de uma determinada atividade econômica – em outra ponta do processo, a empresa deixa de emitir aquela tonelada ou investe em algo externo a suas atividades. O importante é garantir que a compensação seja feita através de atividades que geram benefícios ambientais na mesma proporção. “A redução tem um certificado de carbono que garante que, para cada tonelada emitida, eu deixo de emitir a mesma quantidade em outra ponta. Quando eu faço esse match, esse encontro, eu chamo de neutralização”, explica o especialista.

A empresa de Bottini trabalha com os dois processos de maneira integrada e complementar. O especialista explica que, para implementar quaisquer ações, é necessário realizar um inventário de emissões: o levantamento ajuda a organização a identificar o quanto está sendo emitido em cada etapa de seus processos. A partir dessa análise, é possível perceber qual ação poderia mitigar ou neutralizar aquela quantidade de GEE. Tais medidas podem envolver troca de equipamentos para maior eficiência energética, melhorias em processos de gestão de resíduos, plantio e conservação florestal, por exemplo.

Para realizar esse inventário corporativo, os tipos de emissão são classificados em três escopos principais. O tipo um, relacionado a emissão direta de fábricas ou empresas; o dois, que contabiliza da fonte de eletricidade utilizada nas atividades, e o três, que acaba sendo mais “indireto” à empresa por contabilizar a contratação de serviços de outras companhias. Pelas regras, a metodologia corporativa realiza ações para mitigar ou neutralizar apenas os dois primeiros tipos.

Neutralização em eventos

Essa classificação, no entanto, pode ser muito ineficiente para algumas atividades. Um exemplo é o mercado de eventos. Em um evento, um dos principais impactos é o transporte e deslocamento de materiais e pessoas, seguido do consumo de combustíveis em geradores de energia e consumo de energia elétrica. Com isso, a maior parte das emissões está no escopo três por serem oriundas de contratações de serviços: ou seja, não haveria necessidade de neutralizar.

Bottini relata que esse incômodo fez a Neutralize Carbono criar uma nova metodologia especializada nesse nicho. Para um inventário eficiente, a NC realiza uma pesquisa extensa com o público, olhando não para a propriedade de emissão, e sim para a exclusividade – no caso, avaliando se aquela pegada acontece por causa do evento ou aconteceria sem a ocasião. “Se alguém está em São Paulo e vai pegar um avião pra ir pro Rio de Janeiro para ir ao Rock In Rio apenas para ir ao festival, essa é uma emissão exclusiva. Agora, se a pessoa está indo para a cidade e, aproveitando a ocasião, vai para o Rock In Rio, é do tipo não exclusiva”, explica Bottini. A partir desses resultados, a empresa neutraliza através da alocação de créditos de carbono e emite certificados que atendem aos pré-requisitos da ONU. O trabalho da empresa foi um dos vencedores do Prêmio Eco de sustentabilidade empresarial da Amcham.

A compensação de carbono em eventos tem um grande valor de marketing, principalmente para eventos recorrentes, segundo Bottini. A Neutralize já trabalhou com algumas edições de grandes festivais de música como o Rock in Rio e o Lollapalooza.

Pedalando não se polui

A redução das emissões de GEE, às vezes, envolvem o retorno ao passado – por mais irônico que isso pareça. É o caso de entregas comerciais pela bicicleta, modelo de negócios da Courrieros. “A bicicleta é um meio de entrega muito antigo. Se você pensar, em 1900 e pouco, as pessoas faziam entrega de pão com bicicleta. Estava no desuso e voltamos a usar”, relata André Biselli, sócio-fundador da organização que nasceu da vontade de juntar empreendedorismo, cultura, sustentabilidade e bike. Em operação nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, a Courrieros tem mais de 100 ciclistas e realiza cerca de 2500 entregas por dia. Pelos cálculos de Biselli, a empresa deixou de emitir por volta de cinco toneladas de CO2, comparando às entregas tradicionais feitas por motocicletas.

A organização trabalha com três principais grupos de entrega: o tipo avulsa, sob demanda; o segundo aloca o ciclista para um cliente com grande demanda como, por exemplo, um restaurante na hora do almoço. O terceiro é o e-commerce: a Courrieros recebe a carga ou retira do cliente e faz as entregas. Todo o operacional é controlado por um aplicativo interno para gestão e comunicação com os ciclistas. A iniciativa também recebeu o Prêmio Eco de sustentabilidade no final de 2017.

Em cidades dominadas ainda por veículos movidos à combustível fóssil, as operações da Courrieros mostram que a bicicleta não é apenas para o lazer ou trajetos muito curtos. “Ainda temos essa grande barreira de que existe um preconceito com a eficiência da bike. Através de testes, mostrando para o cliente, vamos quebrando um pouco esse ceticismo. É um mercado que vem crescendo bastante, o consumidor tem essa tendência de ter mais consciência social e ambiental e a entrega ecológica vai nesse sentido. Isso sem perder a eficiência – para distâncias como 10 km, é bem competitivo se comparado a entrega por motocicleta”, pontua.

Apesar do crescimento no uso de bikes – tanto para serviços do setor privado como meio de locomoção e lazer -, Biselli acredita que há muito espaço para incentivar e melhorar esse tipo de transporte. Segundo sua avaliação, a bicicleta ainda é muito cara, há pouca orientação relacionada à segurança pública e ainda faltam locais como vestiários ou bicicletários em empresas, são fatores que podem dificultar a vida do ciclista. “São pequenos detalhes que podem não parecer nada mas, que se a iniciativa privada olhar, pode ser um estímulo. Começar pelos próprios funcionários já é ótimo”, aconselha.