Roupas e sapatos biodegradáveis como alternativa para combater descarte de resíduos têxteis

Roupas e sapatos biodegradáveis como alternativa para combater descarte de resíduos têxteis

Amcham Brasil

29 Março 2018 | 16h52

Segundo estimativas do Sebrae, o mercado têxtil brasileiro produz cerca de 170 mil toneladas de retalhos por ano – mais de 80% desse total vai para lixões. O descarte incorreto desses tecidos lota aterros e lixões irregulares. A decomposição desses tecidos é lenta, especialmente se houver fibra sintética nas peças. A reciclagem é dificultada pelo mesmo motivo: separar as fibras, muitas vezes misturadas entre naturais e sintéticas, exige um tipo estrutura de logística reversa que o país ainda não tem.

O setor enfrenta grandes pressões para se reinventar: é a segunda indústria mais poluente do mundo, com alto uso de insumos como água, energia e químicos, desde o cultivo até a venda da peça para o consumidor final. As indústrias têxteis e de vestuário, juntas, são a quarta maior atividade econômica e representam mais de 14% do emprego mundial – o Brasil, nesse caso, é o quinto do segmento têxtil e quarto no de confecção, segundo o relatório “Sustentabilidade e Competitividade na Cadeia da Moda”, realizado pela Uniethos.

Uma alternativa para poluir menos é o investimento em novos materiais para tecidos. A Rhodia, há quatro anos, lançou o primeiro fio biodegradável do mundo. O pioneirismo e a preocupação com o meio ambiente marcam fortemente o portfólio da empresa, segundo Renato Boaventura, presidente da unidade global de negócios Fibras da Solvay (dona da Rhodia). “Dentro dos nossos negócios, acreditamos que a questão da sustentabilidade no setor têxtil passa por uma grande transformação e o que nós queremos realmente é promover e acelerar a promoção dessa sustentabilidade. Estamos falando de redução de impacto, redução de água e energia, produtos biodegradáveis e reciclados, de fonte renovável, de economia circular”, resume.

A solução da decomposição natural é uma opção que faz muito sentido para o Brasil. Segundo Boaventura: “A realidade do mercado brasileiro é que, infelizmente, 90% do lixo vai para aterro sanitário, então não dá pra gente não considerar essa realidade. A solução do biodegradável atende isso”.

Recentemente, a empresa desenvolveu o primeiro fio têxtil de poliamida biodegradável voltado à confecção de uniformes escolares. A roupa se decompõe rapidamente quando descartada em aterros sanitários – em menos de três anos, segundo a organização. Não gerando resíduos, o fio também acelera a geração de biogases, podendo ser usado como matéria-prima para geração de energia elétrica. A opção pelo segmento de uniformes atende a uma particularidade – uma vestimenta com uso limitado, ou seja, de difícil reuso, e que se perde rapidamente com o crescimento de crianças e adolescentes.

“Percebemos que as escolas estão atentas a isso [sustentabilidade], e nada como usar os próprios materiais dos uniformes para ajudar na formação e educação de valores. Lançamos as peças no começo do ano w algumas escolas que já começaram a usar. O objetivo inicial foi esse segmento, mas percebemos espaços legais para uniformes profissionais de maneira geral”, conta. A parceria com confecções de uniformes e malharias ajudou na viabilização do projeto como um todo. A iniciativa recebeu o Prêmio Eco de sustentabilidade de 2017.

A sustentabilidade, para a organização, leva novos negócios e oportunidades exclusivas de crescer. Um exemplo recente que ilustra isso é a parceria com a Insecta Shoes, marca de sapatos vegana. Em janeiro deste ano, as duas empresas anunciaram uma parceria para fazer sapatos com um fio biodegradável. Antes disso, a Rhodia nunca tinha entrado no mercado de sapataria. Foi preciso desenvolver tecidos especiais, linhas de costura, forro e até palmilha – toda uma gama de produtos para atender a esse mercado.

O protótipo do modelo foi anunciado no evento Inspiramais, que aconteceu entre 16 e 17 de janeiro, em São Paulo. Agora, a Insecta ficará responsável por desenhar a coleção para já ser lançada no segundo semestre. “Nosso próximo passo é promover a economia circular: é o desafio para projetos internos. Esperamos crescer com soluções que promovam a sustentabilidade no setor têxtil”, finaliza. A meta da empresa é, até 2025, ter pelo menos 50% do seu portfólio de produtos que promovam a sustentabilidade.