Tecnologias de cidades inteligentes devem movimentar US$ 59 bilhões nos próximos anos no Brasil

Tecnologias de cidades inteligentes devem movimentar US$ 59 bilhões nos próximos anos no Brasil

Amcham Brasil

21 Julho 2017 | 14h41

Os smart grid, medidores inteligentes para uso eficiente e sustentável de energia nas cidades, fazem parte de um mercado de tecnologia de smart cities que deve movimentar cerca de 59 bilhões de dólares nos próximos anos no Brasil. É o que afirma Fabiano Hessel, professor e pesquisador da faculdade de informática e coordenador do Centro de Inovação para Cidades Inteligentes e IoT da PUC-RS.

“Há 140 projetos de parceria público-privada (PPP) de iluminação pública via smart grid em estudo ou sendo executados”, observa o especialista. A estimativa financeira diz respeito ao quanto as tecnologias de serviços inteligentes voltados para as cidades, como mobilidade urbana, smart grids, segurança e atendimento à saúde, podem gerar de negócios até a década de 2020 no Brasil.

Já as tecnologias de cidades inteligentes (em inglês, smart cities) e internet das coisas (IoT, na sigla em inglês), têm expectativa de negócios totais de 70 bilhões de dólares. “Os onze bilhões de dólares restantes se referem a serviços para o cidadão, como pagamentos conectados, atendimento à saúde e teletrabalho”, detalha.

As principais cidades do mundo investem cada vez mais em tecnologias de comunicação, como a IoT, e equipamentos públicos modernos e com sensores de dados buscando se tornar uma smart city. Os medidores inteligentes de energia, por exemplo, coletam dados de consumo, como a hora em que o consumidor chega a casa e que tipo de aparelhos são ativados – luz de aposentos, geladeira ou TV.

Com sensores e aplicativos de IoT nos equipamentos, o padrão de uso se transforma em informações sobre o melhor horário de consumo e também gerar agendamento de ligação dos equipamentos domésticos, como lavadoras de roupa ou máquinas de lavar louças – que podem ser gerenciados através de smartphones e dispositivos móveis.

Para os gestores municipais, as informações coletadas e transmitidas pelas distribuidoras servirão para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, reduzir emissões urbanas de poluentes e explorar melhor as vocações econômicas e ambientais.

Usar comunicação em rede para saber como economizar na energia elétrica é um dos aspectos que define uma cidade inteligente. Também é o tipo de projeto que mais se destaca no Brasil, continua Hessel. “Boa parte das PPP são de sistemas de gestão inteligente de iluminação pública.”

Dados da consultoria McKinsey revelam que as smart cities vão movimentar aproximadamente dois trilhões de dólares no mundo até a próxima década, incentivado pela necessidade de criar tecnologias que facilitem a vida das pessoas nas cidades.

De acordo com Thomaz Assumpção, CEO da empresa de inteligência de mercado Urban Systems, a eficiência energética é um dos pilares das cidades inteligentes. “Ela está ligada à construção de uma matriz mais sustentável e competitiva de energia, como é feito nas principais cidades”, afirma.

Os smart grid também têm sido usados pelas distribuidoras para viabilizar o uso de fontes alternativas de energia, como a solar. A vantagem dessa matriz é que ela permite ao consumidor final gerar a própria eletricidade durante o dia, enviar o excedente à rede elétrica e, assim, ter o valor abatido na conta. A operação só é possível com um medidor inteligente ou bidirecional, o que a maioria das residências ainda não possui.

Desde 2013, a AES Eletropaulo vem testando tecnologias inteligentes no projeto piloto que mantém em Barueri. A distribuidora, que pertence ao grupo AES Brasil, venceu o Prêmio ECO de sustentabilidade empresarial em 2016 pelo projeto de revitalização e reuso de materiais da rede elétrica. Os resultados do projeto piloto tem comprovado a viabilidade dos sistemas, afirma Charles Lenzi, presidente da AES Eletropaulo.

“Equipamentos que usamos em caráter experimental mostraram resultado. Já transferimos o uso de alguns deles, como desligador automático e detector de falta, para a nossa área de concessão.” A distribuidora atende a 24 municípios da região metropolitana de São Paulo, incluindo a capital, e investiu 75 milhões de reais no projeto.

Como os equipamentos têm comunicação direta com a central de operações, é possível mapear a situação da rede elétrica em tempo real. “Os processos internos foram melhorados com tecnologia de comunicação e pudemos dar uma resposta mais rápida ao cliente, reduzindo o tempo de atendimento. Com isso, também melhoramos nossos indicadores de desempenho”, assinala Lenzi.

No final de agosto, a distribuidora de energia que atende a região metropolitana de São Paulo vai começar a fase de testes com medidores eletrônicos residenciais. O equipamento consegue fazer leitura automática do consumo energético, gerando informações sobre padrão de uso e oportunidades de economizar energia. O medidor também possibilitará o uso de outras fontes, como a solar.

O projeto de Barueri deve ser concluído em 2019, segundo Lenzi. “O sistema para coleta de dados está pronto e teremos condição de ter uma parte importante de nossa área de concessão inserida dentro do contexto de rede inteligente.”

Outra rede inteligente de energia está sendo pesquisada pela distribuidora EDP Bandeirante, do grupo EDP Brasil, em Aparecida, na região nordeste do estado de São Paulo. A distribuidora, que concorreu ao Prêmio ECO com um projeto de energia sustentável, investiu quase 11 milhões de reais no projeto.

A distribuidora instalou medidores inteligentes em 19 mil unidades consumidoras espalhadas em diversas regiões da cidade, além de instalar sistemas de IoT e infraestrutura de rede, conta Lívia Brando, gestora da área de inovação da EDP Brasil. “O objetivo é saber como cada medidor se comporta em cada localização. Além disso, os demais sistemas permitem controlar remotamente o consumo de energia e detectar falhas ou falta de energia.”

Para as duas distribuidoras, os resultados mostrados pelas redes inteligentes evidenciam o alto potencial econômico, tecnológico e ambiental dos projetos. Mas é preciso que haja políticas públicas mais favoráveis ao financiamento e parcerias de investimento. “Um medidor inteligente não é barato. Sem uma visão setorial e de longo prazo para o setor, fica difícil saber como planejar o financiamento ou a viabilidade desses sistemas”, observa Lenzi.