Violência doméstica: saiba o que sua empresa pode fazer para proteger as mulheres da agressão

Violência doméstica: saiba o que sua empresa pode fazer para proteger as mulheres da agressão

Amcham Brasil

08 Março 2018 | 18h04

Mulheres na luta do oito de março, dia internacional da mulher

Mulheres marchando por direitos. Rovena Rosa/Agência Brasil

No Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8 de março, comemora-se as conquistas das mulheres em termos políticos, sociais e econômicos. No entanto, não são poucos os dados que demonstram que a equidade de gênero no Brasil ainda é uma realidade distante. As agressões acontecem na rua, no trabalho, nas escolas. Muitas vezes, nem o próprio lar é um local seguro para mulheres.

Quase 12 anos após a promulgação da Lei Maria da Penha, uma legislação exemplo no combate à violência doméstica, ainda temos dados alarmantes. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país tem a quinta maior taxa de mulheres assassinadas no mundo. Só em 2016, 503 mulheres foram vítimas de agressão física por hora. A maioria das vítimas eram negras (32%) e os agressores conhecidos (61%) – a maior parte companheiro, cônjuge ou ex dessas pessoas. Talvez o dado mais alarmante seja que mais da metade das vítimas não procurou qualquer tipo de ajuda, seja em delegacias especializadas ou entre amigos e parentes (52%). Uma pequena parte das mulheres conseguiu denunciar nas delegacias da mulher (11%).

O velho ditado de que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher” não faz sentido – nem do ponto de vista humano, nem do econômico. As vítimas perdem, em média, 18 dias de trabalho por ano apenas por consequência direta da violência. O prejuízo, em termos de massa salarial perdida, chega a quase um bilhão de reais, segundo pesquisa da Universidade Federal do Ceará e do Instituto Maria da Penha. Além disso, essas mulheres sofrem com perda de produtividade, capacidade de decisão, carreiras mais instáveis e maiores riscos de desenvolver depressão.

Para Daniela Grelin, Diretora Executiva do Instituto Avon, o setor privado precisa entender que também “paga a conta” da violência doméstica. Ela lembra que muitas organizações já tem um forte trabalho em prevenir violências dentro de seus próprios muros – como assédio sexual no ambiente de trabalho ou desqualificação intelectual da mulher. No entanto, nem todas estão olhando para o que acontece fora do ambiente corporativo. “Se são tantos casos de violência, por que essas mulheres não estariam também dentro das empresas? Qualquer organização que tem milhares de mulheres na sua força de trabalho precisa estar atenta a essa questão. Quando a companhia se torna um apoio ou refúgio nesse caso, maior as chances de retenção, maior é o vínculo baseado em valores e maior a possibilidade de se resgatar a capacidade produtiva dessa força de trabalho – que é 52% da sociedade e que é mãe da outra metade”, aponta.

Os primeiros desafios para as empresas que decidirem encarar a questão estão em sensibilizar a liderança e criar canais de amparo às vítimas, segundo Grelin. Isso não configura, em sua visão, suprimir o papel do Estado, mas sim ampliar a rede de apoio às vítimas. “O primeiro desafio é  conscientizar a liderança para se apropriarem dessa questão. A segunda questão é entender quais são as portas de acolhimento que a empresa pode disponibilizar e a boa notícia é que elas não precisam custar muito caro. Se as empresas prestarem atenção, elas vão ver que já tem portas de acolhimento, seja no serviço de saúde, seja no departamento do RH”, explica.

 

O que as empresas estão fazendo para mudar essa realidade?

Na Avon, a perda de uma funcionária, vítima de feminicídio, incentivou a organização, juntamente com o Instituto Avon, a criar um programa em especial para enfrentar a violência doméstica. A primeira parte é uma das principais no sentido de conscientizar e esclarecer as diferentes faces da violência de gênero, utilizando campanhas e treinamentos voltados a isso. Como a especialista lembra, a agressão física é apenas um aspecto da violência contra a mulher – existem vários outros tipos de discriminação que são muito mais veladas e, portanto, mais difíceis de identificar.

“As campanhas são importantes porque uma das questões das violências invisíveis é que elas são tão naturalizadas pela nossa cultura que elas sequer são percebidas. Quando falamos sobre violência patrimonial na fábrica de Cabreúva, algumas mulheres perceberam que já tinham passado por situações assim. A primeira tarefa de uma campanha de conscientização é esclarecer quais são os tipos de violência. Quando conseguimos dar nome às coisas, percebemos a violência sem a lente de naturalização que nossa cultura infelizmente tem. E aí que começa a acontecer a mudança”, relata. Nessa etapa, todos aqueles que trabalham nas portas de acolhimento às vítimas – área de Recursos Humanos, Serviço de Saúde, por exemplo – recebem treinamento, juntamente com as lideranças, para aprender a lidar melhor com a vítima.

Estabelecidos esses canais e qualificando o atendimento, a empresa recebe a denúncia e encaminha para as áreas envolvidas no projeto. A ideia principal é entender qual é a necessidade da vítima – se ela precisa de auxílio jurídico, financeiro, psicológico ou alguma ação em específico como mudança na rota do fretado para garantir mais segurança ao chegar em casa, adiantamento de férias, abono de faltas, ou transferência para outra localidade. “Talvez nosso papel seja, em primeiro lugar, ouvi-la. E só depois dizer: como posso te ajudar? Uma escuta qualificada, cuidadosa, seguida de ‘como posso te ajudar’. Mostrar os canais e recursos que estão a disposição dela e estar ao lado dela, não desistir porque não é uma situação tão simples”, relata.

 

Magazine Luiza

O Magazine Luiza também viveu uma história parecida. Em 2017, uma gerente de loja de Campinas também foi vítima de feminicídio durante o final de semana. Luiza Trajano, CEO da empresa, decidiu criar um canal interno voltado a funcionários e funcionárias que quisessem denunciar casos de violência contra a mulher e buscar auxílio. O Disque-Mulher conta com telefone, e-mail e site e todas as denúncias são realizadas de forma anônima.

Para as vítimas, a companhia oferece apoio jurídico, psicológico, auxílio para redirecionar a denúncia para os órgãos públicos. “Tem muita cobertura pública, mas a gente não sabe disso – a gente orienta”, conta.

“Em 4 meses, foram 78 denúncias. Foi muito assustador e decidimos no mesmo dia criar um comitê dentro da empresa, justamente por ser uma questão complexa de lidar. Mas é mais barato do que a gente pensa” , conta.

Esse grupo de mulheres discute justamente questões de gênero, dos diferentes tipos de violência e treinamentos e ações necessárias para mudar os dados. “O objetivo era furar a nuvem – reconhecer que isso existe e que está mais próximo que imaginamos”, resume. As duas ações foram comunicadas abertamente a todos os funcionários através dos canais de comunicação.

Trajano relata que a maioria das denúncias da organização são feitas por colegas que percebem que a vítima chega ao trabalho machucada, o que considera importante para romper o silêncio. “Peço aos homens ajudarem a não deixar outros homens agredirem mulheres. É comum ouvirmos, depois da denúncia, que as pessoas próximas sabiam que isso estava acontecendo”, lamenta.

 

Entenda os diferentes tipos de violência previstos pela Lei da Maria da Penha

A Lei Maria da Penha, aprovada em 2006, não prevê apenas a violação física ou agressão contra a mulher. Conheça mais sobre os tipos de violência tipificados pela lei, considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a terceira melhor legislação do mundo no enfrentamento à violência doméstica:

Moral: calúnia, difamação, injúria direcionada a uma mulher; exposição de vídeos ou fotos íntimos sem consentimento

Patrimonial: dano, perda, destruição, retenção de dinheiro, bens, documentos pessoas; não-pagamento de pensão

Psicológica: intimidação, manipulação, ameaça direta, humilhação ou quaisquer ações que prejudiquem a saúde psicológica da mulher

Sexual: assédio, estupro (sexo sem consentimento); forçar atos sexuais desconfortáveis; impedir a mulher de prevenir a gravidez ou obrigá-la a abortar

 

e-Book e ações práticas

Durante encontro do comitê de Diversidade da Amcham Brasil, Daniela Grelin, Diretora Executiva do Instituto Avon; Luiza Helena Trajano, CEO do Magazine Luiza; e Carolina Ferracini, Gerente de Direitos das Mulheres da ONU Mulheres Brasil, trocaram experiências e perspectivas sobre o problema. O resultado está em um e-book disponível para download de forma gratuita no Amcham Connect.