A inflação do Carnaval

Alexandre Cabral

24 Fevereiro 2017 | 17h29

“A minha alegria atravessou o mar

E ancorou na passarela

Fez um desembarque fascinante

No maior show da Terra”

Clássico do Carnaval carioca, da escola de samba União da Ilha.

 

Opa! Texto sobre o Carnaval? Ou sobre Economia? Na verdade, vai ser uma mistura dos dois temas e eu poderia chamar de EconoCarnarval ou CarnEconomia. Vou falar sobre a inflação do Carnaval. Já começo provocando a curiosidade de vocês: será que os preços de produtos ligados ao Carnaval subiram muito nesses últimos 12 meses?

 

Detalhes

Vou considerar a variação dos preços dos últimos 12 meses de acordo com o IPCA-15, calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Isso porque ficaria muito complicado eu saber, por conta própria, a variação de preços de cada item. Nos últimos 12 meses, o IPCA-15 subiu 5,02%.

Vou usar dois exemplos de situação:

– Uma família – formada por pai, mãe e dois filhos menores de idade – que vai viajar para passar o Carnaval no Rio de Janeiro;

– Um grupo de quatro amigos solteiros, com destino também ao Rio de Janeiro.

Obs: Tenham sempre em mente que a inflação de 12 meses foi de 5,02%.

 

Família

Na sexta à noite, um táxi (+2,36%) pega a família rumo ao aeroporto, pois os quatro viajarão de avião (-2,52%) para o Rio de Janeiro. Chegando lá, a família pega outro táxi, agora rumo ao hotel (-6,14%) onde ficarão hospedados nos próximos 5 dias.

Só que este Carnaval está quente demais e a família resolveu comprar alguns produtos para levar na viagem, como:

– Para o pai, novos chinelos (+7,07%), shorts (+4,16%) e uma camiseta (+3,91%) com a inscrição “nós ‘bebe’(sic) mas ‘aguenta’ (sic)” – achando que está abafando;

– A mãe (medo desse parágrafo ficar infinito) vai ao shopping comprar roupas novas: blusa (-1,47%), vestido (-2,10%), saia (+2,95%), short (+0,77%), calça comprida (+3,52%), lingerie (+7,58%) e um casaco novo (+0,32%) – vai que faz frio no Rio em fevereiro… Compra ainda sandália (+2,15%) e tênis (+11,12%) e, para caprichar no visual, passa na manicure (+5,53%), faz o cabelo (+3,63%) e se depila (+2,55%);

– E, para as crianças, o casal compra chinelos (+0,56%), shorts (+3,78%), camiseta (-0,58%) e um vestido (+0,90%).

A família passa o Carnaval se dividindo entre praia e blocos. Eles comem sanduíche natural (+11,00%), as crianças tomam refrigerante (+7,22%), os pais bebem cerveja (+5,43%) e pedem uma caipirinha (+6,79%). Vão de metrô (+2,58%) e voltam de ônibus (+5,64%). E assim passam os 5 dias.

Detalhe que ia esquecendo: o malandro do pai se acha o esperto e não passa protetor solar. No terceiro dia, parece um camarão, está cheio de queimaduras (eu acho que conheço essa história) e é obrigado a comprar remédios para aliviar a dor (+10,94%).

 

Amigos solteiros

Quatro amigos (2 de cada sexo) resolvem ir de carro para o apartamento da tia de uma delas, no Rio de Janeiro. Antes da viagem, resolvem fazer algumas compras, já que o dinheiro está curto.

– Cerveja (+6,18%)  e refrigerante (+9,39%) para levar – na boa, tem supermercado no Rio, mas fazer o que?;

– O café da manhã vai ser no apartamento, então compram leite (+11,01%), queijo (+8,80%), pão francês (+3,81%) e suco de frutas (+6,29%);

– Individualmente também compram: sabonete (+10,64%), desodorante (+9,34%), absorvente higiênico (+11,79%), perfume (+7,49%), pasta de dente (+11,14%) e shampoo (+11,70%).

Pegam o carro e partem rumo à Cidade Maravilhosa. O veículo é movido à gasolina (+1,19%). Eles pagam os pedágios (+8,48%) na via Dutra e param para tomar um lanche (+11,00%).

Chegando ao apartamento, verificam que a tia esqueceu de deixar o detergente (+9,54%) e a esponja (+3,25%).

No Carnaval carioca, se divertem à vontade, vão todos os dias aos blocos. Só que, no último dia, um dos amigos, bêbado, quebra a perna (+12,15%) e outro é obrigado a comprar alguns remédios (+13,61%) devido ao excesso da folia. Na quarta-feira de cinzas, quando vão ligar o carro, não conseguem. Morreu. São obrigados a voltar de ônibus (+6,49%).

Vinte dias depois, chega uma correspondência à casa de um deles: multa (+68,31%) por excesso de velocidade na estrada.

 

Resumo

Esses dois exemplos são caricaturas, somente para representar, em perfis diferentes de consumo, como a variação de preços afeta o nosso dia a dia. Só por curiosidade: a família utilizou 29 itens medidos pelo IBGE. Desses, 19 variaram menos que a inflação oficial do período, de 5,02%. Já os amigos consumiram 21 itens, sendo que somente 3 variaram abaixo da inflação. Logo o carnaval da família sentiu menos a inflação do que dos solteiros.

 

Conclusão

Acho que a solução é ficar em casa mesmo, comendo uma boa salada de alface (-7,89%), tomate (-47,66%) e cebola (-51,43%), chupando uma laranja bahia (-26,04%) e escutando um CD (+0,30%) com músicas de Carnaval, naquele aparelho recém-adquirido (+1,91%), principalmente porque gasta pouca energia (-11,65%). Aproveite também para colocar o papo em dia com os amigos via telefone fixo (-1,89%) e para convidá-los para uma boate (-1,87%). E não esqueça: vá de metrô (+2,58%).

 

Várias pessoas me ajudaram na inspiração desse texto, por meio da minha página no Facebook. Obrigado pela colaboração de todos!

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