Música erudita na favela

O que nos faz gostar de música clássica desde garotos? Ambiente social e familiar? Oportunidades de acesso a concertos e a gravações de grandes compositores? Influência de pais e professores? Talvez tudo isso e outros fatores, como, por exemplo, projetos idealistas como os dos maestros Sílvio Baccarelli e João Carlos Martins, que formam corais e orquestras com garotos e jovens de favela?

Ethevaldo Siqueira

22 Setembro 2012 | 11h39

Desde o início do século 20, as novas tecnologias se transformaram em extraordinário fator de difusão da música em todo o mundo, com o advento da gravação elétrica, do rádio, da TV, dos CDs, da internet e de outros avanços tecnológicos. Aliás, com a internet, esse poder de difusão pode crescer ainda muito mais: só no YouTube já existem milhares de horas de documentos armazenados em vídeo sobre a música clássica e seus intérpretes. É claro que, para encontrar alguns gramas de ouro, temos que remexer toneladas de lixo, em especial, na massa de conteúdos tão díspares do YouTube.

A propósito, ouvi de especialistas, em evento internacional recente, a previsão de que a internet poderá promover uma fusão profunda entre o rádio, a TV aberta e a TV por assinatura e transformar-se em novo e poderoso meio de difusão da música, entre outros conteúdos.

Num segundo cenário, além da tecnologia, existem circunstâncias ainda mais poderosas para estimular o gosto pela música clássica entre jovens e crianças, entre as quais, o ambiente familiar, a educação artística precoce, a influência do meio social, as oportunidades culturais decorrentes do acesso a eventos públicos gratuitos.

Por último mas não menos importante, destaco o trabalho de alguns raros idealistas capazes de transformar grupos de meninos de origem muito humilde em corais e orquestras de surpreendente qualidade.


Pense, leitor, na magnífica contribuição dos maestros Sílvio Baccarelli e João Carlos Martins, em favelas paulistanas, como Heliópolis e Paraisópolis. Esses projetos  provam que podemos, realmente, não apenas despertar o gosto pela música clássica em crianças e jovens oriundos de camadas sociais de baixa renda, mas, mais do que isso, formar com eles conjuntos de música erudita de qualidade. Diante do sucesso extraordinário dessas orquestras jovens, eu me pergunto sempre: por que não ampliar nacionalmente essas experiências, com apoio de mais empresas públicas e privadas, de governos e de todos os tipos de instituições culturais?

O ponto essencial desse trabalho, para mim, é provar que o gosto pela música pode ser despertado em muitas crianças que não tiveram o privilégio de nascer e ambiente familiar e social favorável. Basta que elas tenham oportunidade e a devida educação musical.

Sem oba-oba

O Brasil poderia ampliar significativamente o ensino e a difusão da música erudita. O ideal é que todo apoio cultural de empresas públicas e privadas fosse concedido de forma séria e contínua, com aferição dos resultados e sem o desperdício de recursos com a simples propaganda dos projetos. Certos incentivos culturais governamentais acabam sendo consumidos mais em publicidade do que na aplicação direta em sua finalidade.

Outras vezes, os projetos ganham tons partidários e ideológicos. Isso aconteceu até com nosso imortal Villa-Lobos, durante a ditadura Vargas, ao organizar e levar corais de centenas de estudantes a estádios para aplaudir e exaltar o Estado Novo.

Precisamos, sim, de milhares de ações de estímulo ao gosto musical, de apoio aos jovens talentos, de todas as camadas sociais e econômicas. Precisamos, sim, de muitas viradas culturais, como a que se faz em São Paulo uma vez por ano, que envolvam toda a sociedade.

Minha descoberta

A música tem sido para mim uma espécie de oxigênio espiritual. Sou um privilegiado por ter descoberto a beleza da música ainda garoto, no ambiente familiar. Por ter tido contato frequente com a música clássica em casa, por ter descoberto o violino, a partir dos sete anos, com um tio e minha mãe.

O rádio, também, ampliou muito meu contato com a música, além de ter sido minha primeira janela para o mundo. Além da paixão pela notícia, ele me proporcionou muito maior contato com a música de boa qualidade, em especial com alguns programas de música clássica transmitidos por algumas emissoras, até em AM, como as Rádios MEC, Roquete-Pinto, Jornal do Brasil, Eldorado e Excelsior.

No antigo Colégio Municipal de Bebedouro, tínhamos um coral de 90 alunos, sob a direção de Pedro Pellegrino, um maestro e professor de violino, que me deu as melhores aulas desse instrumento. Ele nos encantava ao tocar músicas como Poema, de Fibich ou da Ária para a Corda Sol, de Bach, ao violino. E nos ensinava que “o bom violinista tem que tocar com paixão, transmitir emoção e, se possível, fazer as pedras chorarem”.

As orquestras

Com Eleazar de Carvalho, aprendi o que é uma orquestra sinfônica, ao frequentar seus concertos para a juventude. Em seguida, descobri a beleza das sinfonias de Mozart, ao assistir aos concertos gratuitos da orquestra da Rádio Gazeta. Uma noite, com essa orquestra, então regida por Edoardo de Guarnieri, ouvi pela primeira vez a Sinfonia nº 40, Mozart, ao som da qual Schubert dizia “ouvir até o canto dos anjos.”

Lembro-me da alegria com que ouvi pela primeira vez uma orquestra de fama mundial, a Filarmônica de Nova York, que visitava São Paulo em 1957, sob a regência de Dimitri Mitropoulos e que tocou até ao ar livre, no Vale do Anhangabaú, do lado do Teatro Municipal. Nos anos 1980, conheci o regente indiano Zubin Mehta e, com ele, pude curtir a beleza musical das Filarmônicas de Israel e de Nova York.