Quero viver nesta cidade

Fujisawasa é o projeto mais ambicioso, como cidade sustentável, ecolôgica e digital. Em 2018, mais de mil casas mostrarão como reduzir as emissões de carbono em mais de 70% e usar o máximo de energia solar, com vias públicas preparadas para pedestres, para a bicicleta e veículos elétricos. Vale a pena conhecer esse projeto.

Ethevaldo Siqueira

16 Setembro 2012 | 23h03

Assim serão as primeiras mil casas de Fujisawa, a cidade sustentável (Foto: Divulgação)

Confesso, caro leitor, que gostaria de viver em uma cidade como Fujisawa, em que a vida urbana será totalmente sustentável, ecológica e muito mais humanizada do que a esmagadora maioria das cidades que conhecemos. Sob muitos aspectos, ela realiza nossos sonhos com o projeto denominado Fujisawa Sustainable Smart Town (Fujisawa SST).

Vale a pena conferir. A partir de 2018, as primeiras mil residências da nova Fujisawa vão dispor de rede elétrica inteligente (smart power grid), energia solar e baterias em cada casa, iluminação pública interconectada, vias públicas projetadas para bicicletas, pedestres e veículos elétricos. E muito mais.

Que bom saber que a humanidade tem iniciativas na área ambiental, tão inovadoras e positivas como essa. Fico até mais otimista em saber que existem pelo menos dez ou doze projetos de cidades sustentáveis como Fujisawa em implantação no mundo.

Por que Fujisawa?

O projeto da cidade sustentável inteligente é financiado e patrocinado por oito empresas, sob a supervisão da administração municipal da cidade. As oito empresas patrocinadoras são: Panasonic, PanaHome, Accenture, Orix, Nihon Sekkei, Sumitomo Bank, Tokyo Gas e Mitsui Fudosan. Os dados aqui citados sobre o projeto Fujisawa SST foram colhidos em entrevista com dois especialistas, Yukio Nakashima e Shiro Nishiguchi, diretores da Panasonic, na feira de Berlim (IFA 2012), há três semanas.

Fundada na metade do século 20 e hoje com quase 500 mil habitantes, Fujisawa apresentava até recentemente os mesmos problemas que afetam outras cidades, resultantes da industrialização e da degradação ambiental. Ao longo dos últimos anos, as indústrias foram transferidas para outras regiões e a cidade passou a ser inteiramente repensada, reestruturada, reconstruída e planejada para tornar-se uma verdadeira cidade verde.

“Ao recuperar e regenerar as áreas urbanas degradadas, nosso objetivo é reeducar a população para a sustentabilidade sob todos os aspectos e orientar outras cidades a fazer algo parecido” – enfatiza Yokio Nakashima.

Diferentemente de Brasília, a nova Fujisawa não nasce de um sonho arquitetônico e urbanístico de dois gênios como Oscar Niemayer e Lúcio Costa. A proposta japonesa tem como objetivos a correção de rumos e a elevação permanente da qualidade de vida humana, dos padrões educacionais, da racionalização dos transportes, da autossuficiência energética, da proteção ao meio ambiente e da sustentabilidade como um todo.

Sonho verde

Fujisawa reformula conceitos a partir de sua experiência concreta, para corrigir os erros mais frequentes que degradam as cidades e a própria vida humana. A cidade se transforma em uma espécie de campo de provas visando ao aprimoramento das estratégias de recuperação e de reconstrução de uma cidade que tem problemas semelhantes aos de milhares de outras no século 20, desfiguradas pela industrialização e pelos combustíveis fósseis.

Mais do que criar uma nova cidade hi-tec, altamente sofisticada, o projeto visa reeducar moradores e administradores urbanos, em especial as novas gerações, para evitar que o ambiente urbano não se transforme no inferno social, econômico e ambiental que conhecemos tão bem aqui em São Paulo, na Cidade do México ou em Jacarta, na Indonésia.

Mil casas

Em 2018, a cidade sustentável de Fujisawa começará a viver em sua plenitude a experiência de uma comunidade verde de mil casas planejadas segundo padrões totalmente amigáveis ao meio ambiente. Uma das metas mais ambiciosas do projeto será reduzir em 70% as emissões de carbono em relação aos níveis recordes de 1990.

Embora o conceito de edifícios verdes não seja novo, tudo ali está sendo repensado para corrigir todas as estruturas existentes que não atendam aos padrões e tecnologias ecológicas sustentáveis. A ideia fundamental é que as tecnologias atuais e as estratégias de planejamento urbano caminhem juntas desde o primeiro momento, para obter o máximo de eficiência e bons resultados.

Até os desastres naturais como os terremotos e tsunamis ocorridos nos últimos anos no Japão inspiraram e motivaram os autores do projeto de Fujisawa SST em busca de respostas àquelas catástrofes. Os habitantes da cidade já se orgulham de seus planos de segurança, das metas de autossuficiência energética e de mobilidade máxima. E, diante das muitas comunidades japonesas devastadas em fase de reconstrução, Fujisawa já tem oferecido boas sugestões e um modelo de renascimento urbano.

Nova cabeça

É impressionante como, depois do tsunami de março de 2011, muitas empresas e líderes japoneses passaram a defender novos paradigmas para a vida social e econômica do país. A energia nuclear será, provavelmente, banida em menos de 10 anos. A indústria já busca todos os meios possíveis para reduzir o desperdício de energia e a emissão de carbono. Não se trata mais de mera propaganda ou relações públicas, mas de sobrevivência.

O mundo tem muito a aprender com projetos como Fujisawa SST e, talvez, com uma dúzia de outros, em fase de implantação, como a proposta russa da cidade sustentável de Skolkovo, nas proximidades de Moscou.

Será que o Brasil não poderia pensar, também, em um projeto parecido, apoiado por uma dúzia de grandes corporações?

Mais conteúdo sobre:

Cidades sustentáveisFujisawa SST