Um país sem governo

A impunidade chegou ao seu ponto máximo nas greves selvagens que nos tornam reféns de grupelhos sindicais e corporativos.

Ethevaldo Siqueira

10 Agosto 2012 | 19h28

Coluna do Estadão de domingo, 12 de agosto de 2012

Quem viveu, como eu, na semana passada, o pesadelo de utilizar grandes aeroportos brasileiros, como o Galeão ou Guarulhos, sentiu na pele certamente o que é a humilhação a que estamos sendo submetidos por policiais e funcionários arrogantes, prepotentes e autoritários, embora pagos, suprema ironia, com o dinheiro de nossos impostos.

Como milhões de outros cidadãos, sinto vergonha de viver em um país sem governo, sem justiça e sem o menor respeito por seu povo. É triste reconhecer, leitor, mas a impunidade triunfa no Brasil de 2012. A cada dia que passa, mais empresas e cidadãos são desrespeitados em seus direitos fundamentais, nos aeroportos, na alfândega, na vigilância sanitária, nos portos, nas rodovias, nas greves selvagens, nas universidades paralisadas há meses.

A omissão não é apenas do Executivo, mas do governo como um todo, incluindo Congresso e a Justiça. Nem o Ministério Público, que tem prestado bons serviços nos últimos anos, dispõe-se a enfrentar a imensa chantagem a que estamos submetidos.

Somos reféns

Diante de greves selvagens, eu, você, todos os brasileiros, estamos de joelhos, somos reféns, nas mãos de qualquer grupelho sindical ou corporação profissional. Essas entidades sabem que não há qualquer limite para seus protestos.

Aliás, a ousadia e a violência desses movimentos crescem à medida que as entidades representativas de cada categoria se sentem mais poderosas e organizadas. Até porque sabem que o governo não coíbe nenhum excesso e não se opõe à ação desses novos donos do poder.

É claro que ninguém é, nem poderia ser, contra as reivindicações justas de nenhuma categoria. Nem contra o direito de greve, nos limites da lei. No entanto, não se pode violar, impunemente, o direito dos cidadãos que nada têm a ver com as discórdias ou dissídios bilaterais. O mundo civilizado e democrático não tolera atos e manifestações violentas contra a população ou a destruição do patrimônio público ou privado.

Mas o que acontece no Brasil de hoje? Aqui, os novos donos do poder fecham hospitais, bloqueiam vias públicas, interrompem serviços essenciais e de emergência. E riem na nossa cara, porque a impunidade é total. Sabem que não serão presos, não perderão o emprego e, no final, receberão todos os dias parados e conseguirão reajustes superiores à inflação.

E quem paga a conta? Eu e você, leitor.

As mal-amadas

A recente crise do celular mostrou quem é quem na telefonia móvel, o papel e o desempenho das operadoras, da Anatel e do governo – bem como a responsabilidade de cada um desses players na solução dos problemas do setor.

É claro que as operadoras de celular são odiadas por grande parcela da população. Para alguns, simplesmente por serem empresas privadas. Para outros, porque algumas prestadoras têm capital estrangeiro. E para a maioria, com muito mais razão, porque todas prestam serviços medíocres e atendem mal os seus clientes. A suspensão da venda de celulares por 11 dias, imposta a três operadoras pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), comprovou o quanto essas empresas precisam melhorar.

Outra lição da crise foi o reconhecimento público pela agência reguladora de que sua fiscalização tem sido pouco eficaz no combate aos maus serviços. Vamos cobrar, portanto, nova postura da Anatel.

Cordeiros

O cidadão brasileiro parece ter paciência infinita, ovina ou bovina, mesmo sendo desrespeitado todos os dias, em todos os setores, não apenas por operadoras de telefonia, mas nos transportes, hospitais públicos, seguradoras de saúde, previdência ou segurança e pela maioria das empresas prestadoras de serviços.

Muitos perguntam por que o governo e suas agências não dizem toda a verdade e passam a enfrentar seriamente os abusos e os maus serviços. A resposta é simples. Primeiro, por estarem conscientes de prestar os piores serviços nas áreas estatais. Segundo, porque é mais fácil jogar para a torcida.

Buscar popularidade com punições draconianas e fogos de artifício não resolve. Desse modo, o governo finge que nos defende – como nos juros bancários, controlados pelo próprio Banco Central, e na telefonia, em que fiscaliza mal. Isso só desvia por algum tempo a atenção da população da montanha de mazelas denunciadas diariamente pela mídia, envolvendo escândalos, corrupção, obras superfaturadas, impostos escorchantes e ineficiência estatal.

Hora de reagir

Por que a maioria esmagadora dos brasileiros não reage? Talvez por falta dessa consciência fundamental de cada cidadão, de que somos nós quem paga impostos equivalentes a quase 40% do Produto Interno Bruto e não recebemos em contrapartida serviços minimamente decentes.

Em lugar da cínica operação padrão dos policiais, o Brasil poderia e deveria por em prática a verdadeira operação padrão respeitável, que é a rigorosa aplicação da lei, da justiça e do respeito à população.

Não se cale, leitor. Grite, infernize todo mau político, use a internet e todos os instrumentos democráticos para denunciar o abuso, a corrupção, a violência e a mentira. Use todas as armas republicanas ao seu alcance para combater esse estado de coisas. Aproveite cada eleição para dar troco, pelo voto.

Um dia, talvez, tenhamos governo que jogue de nosso lado.

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