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Brasil pode ter nota rebaixada após PIB e déficit público

Fábio Alves

29 agosto 2014 | 14:08

Analistas apostam que as agências de classificação de risco vão esperar o fim das eleições e as primeiras medidas do presidente eleito para decidir sobre o rebaixamento

Mantega: “Não acredito” (Foto: Reuters)

A contração mais forte do que analistas e investidores esperavam do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre deste ano, além da divulgação do terceiro déficit primário consecutivo das contas do setor público, coloca sob forte pressão de rebaixamento o rating soberano brasileiro.

O IBGE divulgou que o PIB do segundo trimestre deste ano contraiu-se 0,6%, mais do que a mediana das estimativas, de queda de 0,4%. E o PIB do primeiro trimestre foi revisado de expansão de 0,2% para contração de 0,2%, confirmando as expectativas de uma recessão técnica no Brasil.

As agências internacionais de rating vêm colocando grande peso no crescimento econômico para avaliação da qualidade de crédito soberano do Brasil, mas a Moody’s e a Fitch, que ainda não reduziram a nota de classificação do País, demonstraram mais paciência, dando a entender que esperariam o final do ciclo eleitoral para tomar uma decisão.

“As agências de rating não vão mexer nisso até depois das eleições”, diz um respeitado economista com conexões em Brasília. “Aguardarão posicionamento do governo eleito a respeito, mas se não mudar nada, a Fitch deve mover-se antes, embora tenha que mexer no ‘outlook’ (perspectiva) primeiro, para negativo.”

Já um economista-chefe de uma importante instituição financeira é da opinião de que o “downgrade” (rebaixamento) da classificação de risco brasileiro só acontece com a reeleição da presidente Dilma Rousseff. “A oposição vai ganhar o benefício da dúvida”, afirma a fonte. “Quanto a quem sai na frente, sinceramente não saberia dizer, mas um rebaixamento da Moody’s teria um peso maior que o da Fitch.”

Em março deste ano, a Standard & Poor’s rebaixou o rating brasileiro de BBB para BBB-, com perspectiva estável. Ao anunciar a mudança, a S&P citou o fraco crescimento brasileiro e a deterioração das contas públicas entre as causas do rebaixamento.

Para um renomado economista de um grande banco estrangeiro, a dinâmica atual de desaceleração forte da economia – reforçada pelo PIB do segundo trimestre deste ano – e de piora dos resultados primários do governo não impedirá, inclusive, um novo rebaixamento pela S&P, a qual já se antecipou à Moody’s e à Fitch.

“O natural seria a Moody’s e a Fitch convergirem seus ratings para a nota da S&P em relação ao Brasil, mas elas não deverão fazer nada antes das eleições”, argumenta o economista do banco estrangeiro. “O rebaixamento não é inevitável desde que haja um anúncio de ajuste macroeconômico pelo próximo governo, todavia essa tendência atual de crescimento da economia e contas do governo leva a um rebaixamento, inclusive mais um da S&P.”

Em entrevista coletiva logo após a divulgação do PIB, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou não acreditar que “haverá revisão do grau de investimento” do Brasil em 2015.

Em julho deste ano, a diretora e principal analista responsável por América Latina da Fitch Ratings, Shelly Shetty, disse que a manutenção do fraco ritmo de crescimento econômico do Brasil e da deterioração das contas do governo teria impacto negativo no rating soberano do País, podendo levar a um rebaixamento da nota no futuro. A Fitch atribui ao Brasil um rating BBB, com perspectiva estável.

Já a Moody’s, também em julho, divulgou um relatório com uma mensagem mais dura sobre a avaliação da economia brasileira e a perspectiva sobre o rating soberano do País. A agência de rating tem uma classificação de grau de investimento Baa2 para o Brasil, com perspectiva estável.

Com o título “Brazil’s Slowing Growth and Increasing Inflation Are Credit Negative” (ou “A desaceleração do crescimento do Brasil e a inflação crescente são negativas para o crédito”, numa tradução livre do inglês), o relatório diz que as tendências negativas para o crédito com menor crescimento e maior inflação sugerem que as condições macroeconômicas não irão melhorar durante o resto do ano, mesmo após as incertezas acerca da eleição presidencial de outubro terem se dissipado.

O pessimismo em relação ao Brasil se agravou hoje depois da divulgação das contas do setor público consolidado (Governo Central, Estados, municípios e estatais, com exceção da Petrobras e Eletrobras), o qual apresentou déficit primário de R$ 4,715 bilhões em julho. É o terceiro mês consecutivo de déficit no resultado do setor público. Em junho, o resultado havia sido negativo em R$ 2,100 bilhões.

Para o economista-chefe de uma grande instituição financeira ouvido mais acima, o PIB de 2015 será ruim mesmo com vitória da oposição, pois receberá um “carry” (carrego) muito ruim e condições de renda e crédito igualmente negativas.

“A diferença relevante entre cenário de vitória de oposição versus reeleição será como 2015 termina e principalmente 2016, quando a melhora dos fundamentos reverteria trajetória de deterioração das expectativas, tanto entre consumidores como principalmente empresários”, explicou.

E como o próximo presidente terá que enfrentar a desaceleração da economia para evitar um rebaixamento do rating?

“Com retomada de confiança”, diz um importante investidor brasileiro. “Queda na confiança está ampliando efeitos contracionistas de política monetária: em um primeiro momento é preciso estabilizar isso com medidas que reduzam a incerteza no ambiente macroeconômico à frente.”

Para ele, a tese de altas na taxa Selic em breve perde força.

“Mas é preciso primeiro estabilizar a confiança para depois entender em que mundo estamos”, acrescenta. “Sem isso, e com inflação ainda elevada, cortes de juros no curtíssimo prazo podem piorar a situação”, diz.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast