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BC europeu corta juros e injeta dinheiro mas não dá ‘nome aos bois’

Fábio Alves

quinta-feira 04/09/14

Após a decisão anunciada nesta quinta-feira, 5, não será surpresa se o euro bater US$ 1,20 ao longo dos próximos 12 meses

Mario Draghi, presidente do BCE: decisões não foram unânimes (Foto: Reuters)

Mario Draghi, presidente do BCE: decisões não foram unânimes (Foto: Reuters)

Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), ao surpreender novamente os investidores ao anunciar corte de juros e compra de papéis lastreados em ativos (ABS, em inglês), incluindo os bônus cobertos, não só arrancou do BCE o título de banco central mais monótono do planeta, como também colocou o euro numa séria trajetória em direção ao patamar de US$ 1,20.

O que muitos participantes do mercado não se deram conta é que o afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) talvez já tenha chegado, enquanto muitos ainda estão falando que Draghi abriu as portas para a adoção de QE em 2015, ou mais cedo ainda, no final deste ano.

Mas diante do que foi anunciado hoje, quem pode dizer que uma forma de QE já não estará sendo adotada quando o BCE começar a fazer as compras dos ativos em outubro?

A questão aqui é: se o BCE vai comprar esses títulos, inclusive os lastreados por hipotecas residenciais, como vai pagar por eles?

Sim, porque se o BCE estiver imprimindo dinheiro para comprar os bônus, então isso pode ser classificado como sendo um programa de QE. Então, quando chegará o momento de os investidores e analistas perceberem que a compra de ABS anunciada hoje seja, de fato, uma espécie de QE, com injeção de liquidez pelo BCE?

Essa resposta é importante, pois pode afetar o sentimento dos investidores, acelerando uma depreciação do euro frente ao dólar.

Na realidade, a relutância de o BCE – e também uma parcela grande de analistas – tachar as medidas de hoje como um programa de afrouxamento quantitativo é porque as compras não envolvem títulos emitidos pelos governos dos países da zona do euro.

Talvez, o que muitos investidores e analistas não se deram conta ainda é que o BCE não anunciou que irá simplesmente aceitar os papéis lastreados em ativos como colaterais para simplesmente emprestar dinheiro com base nisso, como já aconteceu anteriormente com medidas envolvido títulos públicos.

Ao contrário, Draghi disse que vai fazer compra direta desses títulos. Vão comprar esses papéis como? Supõe-se que com dinheiro. E onde vão conseguir o dinheiro? Imprimindo.

Então, se ficar mais claro como o BCE estará pagando pelos papéis lastreados em ativos, os investidores poderão classificar o que está acontecendo como um programa de QE.

O problema é que anunciar um programa amplo de compra de ativos, aos moldes do QE adotado pelo Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos, envolve uma decisão política muito mais complicada no âmbito da zona do euro.

Daí, os investidores terem ficado numa zona cinzenta de tentar entender a extensão e a profundidade do que Draghi anunciou hoje, aliás com muitas dúvidas, como, por exemplo, qual o tamanho das compras de ABS.

Obviamente, que o mercado de ABS é relativamente pequeno, ao redor de 150 bilhões de euros, o que não causaria muito impacto no mercado, mas se forem incluídos os bônus cobertos, daí o valor inclui um mercado de trilhões de euros.

Neste momento, ninguém no mercado – e talvez nem o próprio BCE – tem uma boa noção de quanto o balanço patrimonial do BCE será aumentado com o anúncio de compra de ABS hoje.

Draghi disse que fará um anúncio sobre isso em outubro. Mais cedo, circulou o número de 500 bilhões de euros em injeção de liquidez, mas, por enquanto, é especulação.

Em relatório a clientes hoje, o estrategista de câmbio para G10 do Deutsche Bank, Alan Ruskin, comentou que, numa situação mais extrema, a expansão do balanço patrimonial de 20% poderia fazer o euro se depreciar até 10% frente ao dólar.

“O elo atual entre o balanço patrimonial do BCE e a cotação do euro provavelmente será mais fraco do que a era pré Draghi de comentários como o ‘faremos o que for necessário’”, disse Ruskin na nota. Ele tem uma estimativa de cotação de US$ 1,25 para o euro no final deste ano.

Outras instituições financeiras começaram a enviar relatórios revisando para baixo suas estimativas para a cotação do euro/dólar.

“Achamos que há um potencial de baixa substancial do euro no próximo mês, com a reunião do Fomc (sigla em inglês para Comitê Federal do Mercado Aberto, do Federal Reserve) em 17 de setembro como um catalisador importante para o euro/dólar e para o dólar em geral”, disse o estrategista-chefe de câmbio da corretora japonesa Nomura Securities, Jens Nordvig. Ele estima que o euro vai cair para a cotação de US$ 1,27 no final deste mês.

Por volta do meio-dia de hoje, o euro caía abaixo de US$ 1,30 pela primeira vez em 14 meses.

Assim, antes até mesmo de dizer “isso foi, na realidade, um programa de QE”, o BCE vai testar o território e ver como será – mês a mês – a compra de ABS.

De qualquer forma, a direção do euro é para baixo nos próximos meses. Isso porque a cotação do euro/dólar está sendo afetada pelo diferencial de taxas entre a curva de juros nos Estados Unidos e na Europa, em particular, o “yield” dos bônus governamentais da Alemanha.

Enquanto, o “yield” dos títulos do Tesouro americano vem subindo na expectativa de o Fed sinalizar o início do ciclo de alta de juros, que acontecerá em 2015, a taxa dos papéis europeus está negativa.

E o corte de juros anunciado por Draghi hoje só põe mais pressão no euro/dólar. O BCE cortou a taxa básica, a de refinanciamento, para a nova mínima histórica de 0,05%, de 0,15% anteriormente. Além disso, a instituição diminuiu a taxa para depósitos bancários, para -0,20%, de -0,10%.

Assim, não será uma surpresa se o euro bater US$ 1,20 ao longo dos próximos 12 meses.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast