A conversão de Delfim (e do PMDB)

A conversão de Delfim (e do PMDB)

A entrevista dada pelo ex-ministro da Fazenda Delfim Netto ao Estadão agravou a sensação de que seus antigos apoiadores estão abandonando o barco da presidente

Fábio Alves

21 Setembro 2015 | 11h29

Foto: Hélvio Romero/Estadão

Foto: Hélvio Romero/Estadão

Para quem precisa avaliar o ambiente político que possa levar a um impeachment de Dilma Rousseff, a entrevista dada pelo ex-ministro da Fazenda Delfim Netto ao Estadão agravou a sensação de que seus antigos apoiadores estão abandonando o barco da presidente com impressionante velocidade.

Soou como música aos ouvidos do PMDB, da oposição e de muitos no mercado financeiro a avaliação de Delfim, que, entre outras declarações, chamou a presidente Dilma de “trapalhona” e que o mais recente pacote de medidas fiscais é “uma fraude, um truque, uma decepção”.

Quem discordaria com a avaliação do ex-ministro sobre os erros cometidos na condução da política econômica pela presidente Dilma no seu primeiro mandato e que resultaram nos desequilíbrios atuais?

Na entrevista, Delfim disse que a presidente mudou um “programa econômico extremamente defeituoso, que foi usado para se reeleger” e que passou “para uma política voluntarista, intervencionista…”

A questão de interesse para os investidores e analistas que tentam decifrar o horizonte de curto e médio prazo para os preços dos ativos brasileiros não é a condenação peremptória que o ex-ministro Delfim faz do governo Dilma per se.

Mas o “timing” da sua própria “conversão da estrada de Damasco”, para usar uma expressão que o mesmo Delfim lançou mão na entrevista para caracterizar a mudança de Dilma do que prometeu durante a campanha para reeleição e o que, de fato, fez depois de reeleita.

Alguém esqueceu, por acaso, que Delfim até há pouco tempo era assíduo frequentador do gabinete de Dilma?

Delfim, Luiz Gonzaga Belluzzo e Yoshiaki Nakano serviram como conselheiros econômicos no primeiro mandato da presidente e viviam desembarcando no Palácio do Planalto.

Só para ficar num exemplo: no dia 8 de abril de 2013, por exemplo, o jornal O Globo estampou uma foto dos três economistas chegando ao Palácio do Planalto sob a manchete “Dilma chama Delfim e Belluzzo para avaliar alta dos preços”.

Por que Delfim não alertou a presidente sobre o seu “programa econômico extremamente defeituoso” naquela época?

Já as críticas ácidas de Delfim – na edição de domingo do Estadão – coincidem com a maré de comentários e ataques que a presidente vem sofrendo há alguns meses, especialmente após a sua popularidade ter despencado para abaixo de dois dígitos.

Em particular, o “fogo amigo” do vice-presidente, Michel Temer, que, entre outras coisas, disse que a presidente não resistiria “mais três anos e meio” com uma popularidade tão baixa.

A especulação que envolve o mercado financeiro brasileiro há semanas é de que Temer estaria alimentando o movimento a favor de um impeachment de Dilma, o que ele tem negado publicamente.

O que os investidores e analistas tentam avaliar é qual o grau de adesão do PSDB a um eventual governo Temer, num cenário em que o pedido de impeachment avançaria no Congresso.

Mera coincidência ou não, o ex-ministro Delfim reservou elogios escancarados a Temer na sua entrevista ao Estadão:

“Numa eventualidade, o vice Temer seria adequado para a Presidência como foi o Itamar Franco?”, indagou a jornalista Eliane Cantanhêde a Delfim.

“Acho que sim. Nós somos muito amigos. O Temer tem qualidades, é uma pessoa extraordinária, um gentleman e um sujeito ponderado, tem tudo…”

Já sobre o presidente do PSDB, o senador Aécio Neves, o ex-ministro foi bem mais contido e disse apenas que o candidato tucano às eleições de 2014 – se tivesse vencido Dilma – teria sido “perfeitamente servível”.

O que o mercado financeiro tenta prever no momento é até quando o empresariado ainda vai dar o seu endosso a presidente Dilma. A paciência dos empresários parece estar se esgotando.

Resta saber o poder de persuasão das palavras do ex-ministro Delfim sobre empresários e investidores.

Que a sua entrevista repercutiu, isso foi indiscutível.

Resta ver nos próximos dias como o Congresso vai votar os vetos da presidente Dilma a medidas consideradas prejudiciais ao ajuste fiscal, como o reajuste dos salários dos servidores do Judiciário e a que alterou o fator previdenciário.

Com base nessas votações, será possível medir o termômetro para os pedidos de impeachment protocolados na Câmara dos Deputados.

Nesses tempos nervosos, qualquer novo petardo de aliados d’outrora poderá causar mais estrago à posição da presidente.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast