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A reviravolta de Tombini para a decisão do Copom

Surpresa com a nota divulgada hoje, comentando as projeções do FMI, levanta suspeitas de que o BC sofre ingerência política

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Fábio Alves

19 Janeiro 2016 | 10h59

É impossível ignorar a intervenção feita pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, praticamente na abertura dos negócios do mercado futuro de juros.

Em pleno período de silêncio, que habitualmente antecede a reunião do Copom, Tombini solta uma nota oficial comentando as novas projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil para 2016 e 2017 do Fundo Monetário Internacional (FMI).

“O presidente Tombini ressalta que todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado”, diz a nota divulgada no site do Banco Central.

Imediatamente após a nota, as apostas do mercado para a Selic se dividiram entre altas de 0,25 ponto porcentual e 0,50 pp e, em uma hora de pregão, já estavam mais concentradas em torno do ritmo menor de aperto para a reunião do Copom, cuja decisão será anunciada nesta quarta-feira (20). Até ontem, as apostas majoritárias eram de uma elevação de 0,50 ponto.

O FMI revisou o desempenho do PIB brasileiro neste ano de uma queda de 1% para uma contração de 3,5%. Em 2017, o Fundo cortou a projeção para o Brasil de expansão de 2,3% para crescimento zero.

Como interpretar então que, em cima da hora da reunião do Copom, o presidente do BC venha a público para comentar projeções do FMI?

Já não é de hoje que o mercado não reage às estimativas do Fundo. As atenções dos investidores voltam-se para os indicadores de atividade e decisões de política econômica e monetária da China e dos Estados Unidos, assim como o preço de commodities importantes, em particular o petróleo.

Também interfere nos preços dos ativos a divulgação de indicadores brasileiros, especialmente os índices de inflação.

Além disso, decisões de política econômica, como anúncios que afetam as contas públicas, a exemplo das metas fiscais ou estímulos ao crédito, mereceriam atenção ou até comentário extraordinário de Tombini às vésperas do Copom.

Mas as projeções do FMI?

Certamente, Tombini aproveitou-se dessa desculpa para tentar, de última hora, calibrar as expectativas do mercado para uma das seguintes alternativas:

1) Não subir a taxa Selic na reunião deste mês, como quer o Partido dos Trabalhadores, alas do governo e economistas renomados;

2) Subir os juros básicos num ritmo menor do que a aposta majoritária dos investidores até ontem, de uma alta de 0,50 ponto porcentual;

3) Sinalizar que o ciclo de aperto monetário, se ocorrer, será de tamanho bem menor do que muitos analistas originalmente haviam estimado, entre 1 ponto e 1,25 ponto porcentual.

O problema dessa intervenção de Tombini, cujo pretexto do FMI é muito fraco para ser feito em cima da hora, é o custo para a sua já debilitada credibilidade.

Por que então o discurso claramente mais “hawkish” (inclinado ao aperto) dele e do BC como um todo, em seus mais recentes instrumentos de comunicação, incluindo aí a carta que enviou ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, para justificar o estouro da meta de inflação em 2015?

Obviamente, com essa postura titubeante, com esse vaivém da sinalização, Tombini só reforça a percepção dos investidores de que comunicação foi sua maior deficiência à frente do BC.

Mas essa deficiência não é sem custo ao Brasil, haja vista o fraco desempenho desta gestão do BC em controlar as expectativas inflacionárias.

A surpresa com a nota divulgada hoje, comentando as projeções do FMI, levanta suspeitas de que o BC sofre ingerência política, de que interesses contrários à alta de juros – necessária para controlar expectativas ainda elevadas – exerceram pressões de última hora sobre ele, Tombini.

Depois de guiar as apostas de investidores para uma elevação da Selic de 0,50 ponto – como era até ontem -, essa reviravolta com um comentário que abre espaço para não subir juros ou, se subir, num ritmo mais brando, vai solapar ainda mais a credibilidade das palavras de Tombini ou de outros diretores do BC sobre os próximos passos da política monetária.

Afinal, é só esperar para ver como estará a temperatura política no dia da decisão do Copom.

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