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Juros: Alta de 0,25 ou 0,50?

Fábio Alves

11 janeiro 2016 | 13:44

Ao jogar, na carta explicando o estouro da meta, boa parte da culpa sobre a política fiscal, o BC deixa no ar um grau de incerteza sobre a intensidade inicial do aperto

Se alguma dúvida ainda paira sobre a próxima reunião do Copom, marcada para o dia 20, é o risco não totalmente desprezível de que a retomada do ciclo de aperto monetário se dê ao ritmo de 0,25 ponto porcentual e não de 0,50 ponto, que ainda é a aposta majoritária do mercado.

Até a divulgação da carta do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, explicando as razões para o estouro do teto da meta de inflação em 2015, e também da nota do Ministério da Fazenda, na sexta-feira à noite, havia quem apostasse (e forçasse a barra) na manutenção da taxa Selic em 14,25% na reunião do Copom deste mês.

Agora, não.

Consolida-se na abertura dos negócios desta sexta-feira o cenário base de uma elevação dos juros em 0,50 ponto.

E por que haveria então o risco de um aperto mais suave, de 0,25 ponto?

Ao jogar, na carta explicando o estouro da meta, boa parte da culpa sobre a política fiscal, o BC deixa no ar um grau de incerteza sobre a intensidade inicial do aperto, pois o problema iria muito além da política monetária.

Ou seja, do ponto de vista da demanda, não há muito que se esperar em termos de atuação da política monetária, devido à forte recessão que o País enfrenta.

Nesse sentido, aliás, o desempenho negativo da economia surpreendeu em 2015, com estimativas de contração ao redor de 3,7%. Para 2016, os analistas ouvidos pela pesquisa Focus, divulgada hoje, estimam uma queda de 2,99%. Mas o BC, no último Relatório Trimestral de Inflação (RTI), projetou uma retração bem menor para este ano: de 1,9%.

Portanto, se para o futuro, como a carta do BC destacou, a política fiscal terá um papel relevante, faria sentido então um aperto com menor intensidade apenas para controlar as expectativas inflacionárias, pois a maior parte da tarefa caberá ao controle de gastos públicos, segundo a tese de quem defende uma alta mais modesta, de 0,25 ponto.

“Outro ponto importante sobre o combate à inflação… diz respeito à adoção de um desenho de política fiscal consistente e sustentável, de modo a permitir que as ações de política monetária sejam plenamente transmitidas aos preços”, afirmou Tombini num trecho da carta.

Ele arremata esse raciocínio da seguinte forma: “Nesse ponto, vale ressaltar que, considerando que o ajuste fiscal em curso também possui suas próprias defasagens entre a discussão e a adoção das medidas e seus resultados, quanto mais tempestiva for sua execução, mais rápida será sua contribuição para a retomada de uma trajetória de preços.”

Mas por que a alta de 0,50 ponto ainda é a aposta majoritária de investidores e analistas?

Justamente porque as expectativas inflacionárias estão ainda fora de controle apesar de os indicadores de atividade econômica seguirem surpreendendo negativamente.

Seria preciso, assim, uma atitude enérgica do BC, mostrando que vai utilizar o único instrumento que detém para controlar as expectativas.

Na pesquisa Focus, divulgada hoje, a mediana das projeções para o IPCA de 2016 deu um salto de 6,87% para 6,93%, enquanto as estimativas do Top 5 (os analistas que mais acertam a projeção desse indicador) de médio prazo subiram de 7,44% para 7,49%.

Resta pouco tempo para a decisão do Copom, no dia 20: não somente para a divulgação de indicadores que possam mudar radicalmente o ambiente para a inflação, como também para declarações públicas de diretores do BC.

Para começar o ciclo de aperto monetário com uma intensidade menor, de 0,25 ponto porcentual, será necessário o BC vir a público e calibrar as apostas nesse sentido. Caso contrário, fica valendo o consenso de alta de 0,50 ponto da taxa Selic.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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