Mercado à espera do rali ‘pós-Dilma’

Mercado à espera do rali ‘pós-Dilma’

Uma eventual saída de Dilma Rousseff antes do fim de seu mandato parece ser condição necessária para uma reversão mais duradoura das expectativas do mercado

Fábio Alves

30 Setembro 2015 | 12h46

Dilma em cerimônia em Brasília no dia 27 de setembro (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Dilma em cerimônia em Brasília no dia 27 de setembro (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Muitos investidores estrangeiros fizeram uma aposta ousada recentemente: se posicionaram no mercado financeiro brasileiro, em particular no câmbio e nos juros, à espera de um forte rali nos preços dos ativos numa eventual saída da presidente Dilma Rousseff do cargo, via impeachment ou até mesmo renúncia.

A ideia é que, se houvesse um impeachment da presidente, quem já estivesse bastante pessimista em relação ao Brasil – nesse caso, a esmagadora maioria dos investidores locais – consideraria essa notícia bastante positiva para a economia brasileira, o que deflagraria uma corrida para zerar suas posições, como reflexo de um movimento de “stop loss”.

Em momentos de pessimismo extremo, como o que está refletido atualmente nos preços do câmbio e dos juros futuros no Brasil, uma notícia que poderia ser considerada positiva – o impeachment no cenário de vários investidores – levaria muitos participantes do mercado a bater seus “stop loss” ao mesmo tempo. Nessa situação, costuma ocorrer os fortes ralis de alta nos preços dos ativos.


A questão que se levanta dessa aposta é a seguinte:

Uma eventual saída de Dilma Rousseff antes do fim de seu mandato parece ser condição necessária para uma reversão mais duradoura das expectativas de investidores, empresários e consumidores.

Os índices de confiança recentes, atingindo recordes de baixa, provam isso.

Mas será que a saída dela do poder é a condição suficiente para que um rali de “alívio” nos preços do ativo seja duradouro?

O raciocínio de vários investidores é: pior do que com a Dilma não fica.

Mas, em se tratando de política, sempre pode piorar.

Nesse sentido, vale a pena perguntar:

Será que quem assumir o lugar de Dilma, num eventual impeachment ou renúncia, conseguirá implementar o ajuste fiscal necessário para fechar o rombo das contas públicas?

Isso porque, ao sair do poder, o Partido dos Trabalhadores promete ser uma oposição ruidosa, levando para as ruas movimentos sindicais e sociais, além da expectativa de greves de funcionários públicos e outros trabalhadores.

Ou alguém acha que o PT e outros movimentos de esquerda vão simplesmente aceitar uma mudança traumática no comando da Presidência?

Ou seja, não está tão claro que um rali dos preços com uma eventual saída de Dilma seja duradouro.

É importante observar que, na fotografia de hoje, dia 30, a probabilidade do impeachment de Dilma ficou mais distante do que ontem, em razão da reforma ministerial. Além da saída de Aloizio Mercadante do comando da Casa Civil, causa de vários conflitos na coordenação política com o Congresso, a alocação de maior número de ministérios para o PMDB, agradando as várias alas do partido, “comprou” uma maior sobrevida no cargo para a presidente.

Para quem está esperando um rali pós-Dilma, essa reforma ministerial é uma péssima notícia.

Mas uma sobrevida – até quando? – da presidente no cargo significa que melhorará o horizonte para a economia brasileira?

Provavelmente, não. A reforma ministerial não teve o objetivo de consertar os desequilíbrios da economia brasileira e sim comprar proteção contra um processo de impeachment por algum período de tempo. Quanto, não se sabe.

Nesse aspecto, a instabilidade dos ativos brasileiros deverá prosseguir.

Até porque qual é o investidor ou analista que consegue responder com absoluta certeza a seguinte pergunta:

Daqui a seis meses, quem estará na Presidência da República?

Por fim, o problema de quem fez a aposta do “rali pós-Dilma” é que, na hora que demora a acontecer o impeachment, o mercado financeiro fica nervoso, instável e muito volátil, haja vista os picos na cotação do dólar frente ao real e das taxas dos contratos futuros de juros na semana passada.

Quem pode fazer essa aposta é o investidor que dispõe de posição forte, ou seja, capacidade de aguentar perdas temporárias até que esse evento (impeachment) venha acontecer.

Na semana passada, por exemplo, teve muito investidor que já havia se posicionado para o rali pós-Dilma e foi “stopado” duas vezes, pois ocorreu limite de alta nas taxas do DI na quarta e na quinta-feira e esse investidor não aguentou a volatilidade.

Assim, além de muito caixa, o investidor precisará de sangue frio para apostar num evento (saída de Dilma de maneira traumática) que está ainda distante ou não pode nem acontecer.

Mas a aposta desses investidores prossegue.