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O fiscal e o risco para o dólar

Fábio Alves

12 janeiro 2016 | 13:34

Analistas vão na contramão do Banco Central e esperam resultado primário negativo em 2016

Ao contrário do governo, que tem uma meta fiscal de superávit de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2016, analistas esperam um resultado primário negativo, em particular pela frustração das receitas dada à profunda recessão que enfrenta a economia brasileira.

Conforme a última pesquisa Focus, do Banco Central, a mediana das estimativas é de um déficit primário de 1,7% em 2015, embora após a eventual divulgação do resultado das contas públicas de dezembro – contabilizando o pagamento das pedaladas fiscais – esse número deva ficar acima de 2%. Para 2016, a expectativa do mercado é de um déficit primário de 1%.

Casa de câmbio no centro do Rio de Janeiro

Casa de câmbio no centro do Rio de Janeiro

Todavia, o risco está muito mais para um déficit maior do que 1% neste ano do que menor. Isso em razão da surpresa negativa dos últimos indicadores de atividade, além de choques externos não completamente contabilizados, como uma desaceleração mais forte da economia chinesa e uma queda maior do que o previsto do preço do petróleo.

Apenas parte desse cenário fiscal mais negativo do que a meta oficial do governo para este ano está contabilizada nos preços dos ativos, em particular na cotação do dólar.

Diante do estresse gerado com os indicadores de atividade na China e com a intervenção do BC chinês sobre o yuan, a moeda brasileira está até bem comportada no início deste ano. O dólar avança um pouco acima de 2% ante o real brasileiro no acumulado deste mês.

Por volta das 11h30, a moeda americana estava cotada a R$ 4,0299, baixa de 0,69%.

Na pesquisa Focus, a mediana das estimativas é de um dólar a R$ 4,25 no fim deste ano.

Uma fonte de pressão sobre o câmbio, que pode levar uma valorização mais rápida do dólar, será o fiscal.

À medida que os números dos resultados consolidados do setor público forem comprovando a cada mês de 2016 a estimativa mais pessimista de um déficit primário – ou pior, surpreendendo negativamente o consenso do mercado – os preços dos ativos deverão reagir.

Por enquanto, a mediana das projeções na pesquisa Focus é de uma contração de 2,99% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2016, depois de uma queda esperada já próxima de 4% para 2015.

Mas o desempenho econômico que pesa mais favoravelmente para a arrecadação tributária deve cair mais do que esses 2,99%, isto é, a absorção doméstica: consumo e investimento.

Isso porque essa projeção para o PIB embute um desempenho melhor das exportações brasileiras, que recebem um impulso de um câmbio mais competitivo. Porém, as exportações são menos tributadas do que o consumo e o investimento.

Assim, ter as exportações como um vetor positivo, amenizando em parte a queda do PIB gerada por retração no consumo e no investimento, não necessariamente será traduzida por uma queda menos drástica da arrecadação, dada a estrutura de tributação das exportações.

Ou seja, o potencial para frustração da arrecadação em 2016 pode ir além das projeções de queda do PIB.

Do ponto de vista de controle de gastos, o governo já cortou bastante os investimentos em 2015, o que deixa um espaço menor para redução de desembolsos nessa área neste ano.

Será difícil esperar um corte relevante de gastos, mesmo já contabilizando o efeito de medidas tomadas no ano passado, como novas regras para o pagamento do seguro desemprego, que terão efeito pleno neste ano.

E isso sem contar com possíveis novas decisões do governo para tentar agradar a sua base política, como o PT e os movimentos sociais, a fim de ganhar mais apoio contra o movimento do impeachment.

A pergunta que fica é:

Quanto os preços dos ativos, a exemplo do dólar, ainda precisam incorporar a percepção negativa em relação ao desempenho fiscal do Brasil neste ano?

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