Reforma ministerial, a derradeira de Dilma?

Mercado financeiro vai reavaliar o termômetro do impeachment da presidente a partir do anúncio da reforma ministerial

Fábio Alves

28 Setembro 2015 | 11h55

A esperada reforma ministerial, cujo anúncio foi adiado inúmeras vezes, pode ser a última da presidente Dilma Rousseff, caso ela erre mais uma vez no cálculo político para agradar ou não o PMDB, que se transformou ao mesmo tempo em seu maior partido aliado e de oposição.

Vai ser a partir do anúncio da reforma que o mercado financeiro vai reavaliar o termômetro do impeachment da presidente:

A reforma agradará o PMDB por inteiro?


Se uma das alas do partido ficar ressabiada com a parte que lhe coube do latifúndio, representará maior ou menor risco para fazer avançar os pedidos de impeachment na Câmara?

Qual o segmento peemedebista que realmente interessa à presidente num ambiente em que seu mandato corre risco?

E mesmo que todas as alas do PMDB sejam contempladas no primeiro escalão, terão essas alas o controle total dos cargos abaixo dos ministros, isto é, receberão as pastas para administrá-las com “porteira fechada”?

O histórico da presidente Dilma ao distribuir a cota de ministérios para a base aliada sempre foi de fatiar o poder dos ministros de outros partidos ao nomear nomes de sua confiança para a estrutura interna desses ministérios, isto é, não somente para a Secretaria-Executiva da pasta, mas também agências e órgãos com orçamentos robustos.

Ficará satisfeita a bancada do PMDB da Câmara dos Deputados apenas com o cargo de ministro da Saúde ou desejará também ter o poder de nomear o comandante da Funasa ou da DATASUS?

Nesse sentido, o desfecho político, de fato, da reforma ministerial não se dará apenas com a divulgação dos nomes dos novos ministros, mas como a presidente Dilma irá se comportar em relação aos cargos de segundo e terceiro escalões.

As declarações dos caciques do PMDB após o anúncio da reforma ministerial terão efeitos imediatos sobre os preços dos ativos brasileiros, pois os investidores vão tentar medir se o novo arranjo político conseguiu afastar ou aproximar a ameaça do impeachment.

Pesarão sobre o humor dos investidores não somente o que o vice-presidente, Michel Temer, terá a dizer, mas também os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, além de um novo ator nesse clube de influência: o líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani.

Ao abrir negociação direta com Picciani, a presidente Dilma quer evitar que o PMDB desembarque da base aliada e assuma postura de oposição no congresso que o partido realizará em novembro, como vem defendendo Eduardo Cunha.

Publicamente, Cunha é contra as indicações de peemedebistas para a reforma ministerial que está para ser anunciada e diz que a distribuição de cargos pela presidente Dilma não vai impedir a volta da CPMF de ser barrada na Câmara.

Mas o orçamento do ministério da Saúde, com toda a estrutura de secretarias, agências e órgãos vinculados, é grande demais para ser ignorado.

Para o mercado financeiro, só o tempo vai dizer se Cunha está blefando ou não.

De qualquer forma, o mais provável é que o PMDB ganhe espaço no governo ao deter maior número de ministérios em detrimento do Partido dos Trabalhadores, o qual vem se mantendo menos arisco à perda de pastas. Talvez o PT esteja seguindo a orientação atribuída ao ex-presidente Lula de que é melhor perder ministérios do que a Presidência.

Em termos práticos do ajuste fiscal, a reforma ministerial resultará mais em cortes “para inglês ver”, pois algumas pastas perderão apenas o status de ministério, mas suas estruturas seguirão intactas, como a Controladoria-Geral da União (CGU).

Para a presidente Dilma, todavia, essa reforma poderá ser a sua garantia de sobrevivência no cargo.

Quanto mais tempo de sobrevida ela terá ao acomodar o PMDB em mais ministérios é difícil prever, uma vez que a velocidade da crise política e econômica vem surpreendendo até os mais pessimistas.

Nesta semana, o Ibope deve divulgar mais uma pesquisa sobre a popularidade da presidente. No mais recente levantamento do Ibope, que foi a campo entre 18 e 21 de junho a pedido da CNI, apenas 9% dos ouvidos aprovaram seu governo.

De lá para cá, a crise política e econômica somente se deteriorou, com alta do desemprego e do dólar. É de se esperar então uma queda da popularidade de Dilma.

Nesse ambiente, a reforma ministerial poderá ser a última cartada da presidente. A ver.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast