Vender ou não as reservas internacionais

Vender ou não as reservas internacionais

Lançar mão das reservas num momento de estresse, embora ainda não de descontrole e pânico generalizado, poderia agravar a percepção do mercado de que a crise atingiu um 'tipping point', ou ponto de virada, para o abismo

Fábio Alves

25 Setembro 2015 | 13h36

Foto: Estadão

Foto: Estadão

Foi explicação comum na imprensa atribuir a forte queda do dólar na tarde da quinta-feira à fala do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que as reservas internacionais poderiam ser usadas.

Depois de bater quase R$ 4,25 na manhã de ontem, a moeda americana encerrou o pregão de ontem a R$ 4,0580 após as declarações de Tombini. E na manhã desta sexta-feira, o dólar chegou a cair quase 4%, até R$ 3,8850, e por volta do meio dia ainda sustentava queda de 2% a R$ 3,9640.

Terá sido mesmo o uso do gogó por Tombini, abrindo a possibilidade de lançar mão das reservas internacionais, que fez o mercado se acalmar?

Ou terá sido o fato de, nos últimos três dias, o BC já ter inundado os agentes econômicos (empresas e investidores com obrigações em dólares) com proteção via US$ 3,2 bilhões em contratos de swaps cambiais, dos quais US$ 2 bilhões apenas hoje em dois leilões?

O debate que está avançando velozmente na imprensa é se teria chegado o momento de o BC, finalmente, vender dólar à vista, queimando as reservas internacionais.

Afinal, dizem os defensores de tal medida, manter essas reservas é muito caro e o estresse dos últimos dias deixou os preços dos ativos brasileiros sem parâmetros. E seguro, como o próprio Tombini qualificou as reservas ontem, é para ser usado.

Para esta coluna, o uso das reservas internacionais neste momento causaria mais estrago – via efeito psicológico – do que benefícios, estes poderiam vir de imediato fazendo o dólar recuar, mas seria temporário.

Lançar mão das reservas num momento de estresse, embora ainda não de descontrole e pânico generalizado, poderia agravar a percepção de investidores, empresários e analistas de que a crise brasileira atingiu um “tipping point”, ou ponto de virada, para o abismo.

De fato, a situação é crítica, mas não se chegou a um ponto sem retorno.

Tome-se, por exemplo, o cupom cambial, que é a taxa exigida por quem aceita tomar os contratos de swaps que o BC está vendendo, além, obviamente, de receber a variação do câmbio no prazo desses contratos.

Em novembro de 2008, no auge da crise financeira mundial, o cupom cambial num contrato de swap de 180 dias superou a barreira dos 7%. Naquela conjuntura, ofertar swaps cambiais ficou tão caro para o BC que valia a pena vender as reservas internacionais e absorver o risco cambial que o mercado brasileiro já não estava disposto via contratos e não moeda em espécie.

Desde que a crise política e econômica elevou o estresse no Brasil neste ano, o cupom cambial num contrato com vencimento em janeiro de 2016 estava ao redor de 1,60% em julho.

Com a piora do humor após o envio da proposta de Orçamento de 2016 contendo déficit de R$ 30,5 bilhões e o rebaixamento da classificação de risco soberano do Brasil pela agência Standard & Poor’s (S&P), o cupom cambial do Janeiro/2016 chegou a bater 2,65% no dia 4 deste mês – nem de perto os mais de 7% na crise de 2008.

Piora significativa sim, mas não uma disparada nesse custo que autorizasse a venda de dólar à vista via reservas internacionais.

Desde então, como o BC passou a intensificar a realização dos chamados leilões de linha, pelos quais faz a venda de dólares com a promessa de recompra da moeda por um determinado prazo, os investidores se acalmaram um pouco e o cupom cambial caiu para ao redor de 2,20% agora, ainda elevado, mas não estratosférico.

Outro argumento para não usar as reservas agora é que a demanda por hedge não tem sido tão exagerada neste momento que a oferta dos leilões de linha não esteja dando conta.

Em outras palavras, não se vê no momento uma situação de pânico e de desesperança em relação ao horizonte de curto e médio prazo no Brasil que faça com que investidores e empresas rejeitem assinar qualquer contrato com o governo para eliminar o risco da variação cambial.

Como o cupom cambial parece estar relativamente ancorado, embora num patamar mais elevado do que se desejaria, para o mercado a venda de reservas internacionais ou de swaps cambiais dão na mesma: é o governo abrindo mão de ativos dolarizados.

E para o governo, com um cupom cambial ainda em níveis “civilizados”, o custo de uma ou outra operação fica praticamente o mesmo, mas o ônus psicológico de queimar o “seguro” das reservas é maior.

É como se fosse um atestado de que a economia brasileira finalmente sucumbiu.

Aliás, as reservas internacionais ainda são um dos últimos pilares da era Lula, quando o ex-presidente citava o crescimento desse colchão de dólares entre as várias conquistas do seu governo, além da redução da pobreza, da criação de empregos, etc.

Não que o BC se importe com isso, mas certamente sofreria resistência por parte do ex-presidente Lula, da presidente Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores.

Sim, desde o início desta semana, o mercado pareceu ter entrado numa dinâmica de ter perdido a noção de “two-sided risk”, isto é, considerando apenas que o movimento do dólar será unidirecional: para cima.

Era, de fato, necessário o BC ser mais enérgico na oferta de hedge e também Alexandre Tombini como chefe da instituição vir a público e acalmar o mercado.

A opção por aumentar a oferta de swap cambial, por enquanto, foi a acertada.

Mas fica o alerta: sem arrumar a casa e corrigir os desequilíbrios atuais da política econômica, vai chegar o momento que os swaps cambiais serão ineficazes.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast