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A ata de um momento bom (para o BC)

Notas sobre a reunião do Copom de 5 e 6 de setembro, divulgadas ontem, mostram preferência do Copom por encerrar o atual ciclo de queda da Selic com cortes gradativamente menores.

Fernando Dantas

13 Setembro 2017 | 20h34

Em tempos bem mais calmos para a política monetária, quando a combinação da “quebra da espinha dorsal da inflação” (na expressão do presidente do BC, Ilan Goldfajn) com a economia finalmente numa rota de recuperação menos dúbia, a ata do Copom não trouxe maiores surpresas. Vencida a fase inicial mais turbulenta do mandato do atual Copom, quanto menos se sacudir o barco, melhor.

Assim, a discussão dos analistas sobre a ata se volta mais para os detalhes táticos da atuação do BC do que para o grande desenho estratégico, que está claro: com a inflação derrotada, a prioridade passa a ser a de pavimentar a estrada para uma retomada consistente, prolongada e sustentável. No momento, isso significa estimular a economia com taxa real de juros abaixo da neutra, algo que o BC informa já estar ocorrendo.

A questão mais relevante passa a ser sobre a forma, gradualista ou não, de encerrar o ciclo, o que não quer dizer que este dilema seja de suma importância, mas apenas que as outras frentes de batalha da autoridade monetária estão pacificadas por ora.

O BC indicou claramente sua preferência por um “tapering” do ciclo de afrouxamento monetário, com redução gradual dos cortes até o seu encerramento, o que sugere parar num nível em torno de 7%, talvez um pouco menos. O Copom, porém, deixou margens na comunicação para alterar os planos sobre o design do fim de ciclo caso as circunstâncias mudem.


Na parte da ata sobre riscos, e sobre os trunfos do País para enfrentar estes riscos, é reconfortante ler a avaliação realista sobre “a capacidade que a economia brasileira apresenta de absorver eventual revés no cenário internacional, devido à situação robusta de seu balanço de pagamentos e ao ambiente com inflação baixa, expectativas ancoradas e perspectiva de recuperação econômica”.

Dessa forma, a fragilidade do Brasil aparece na conjugação de revés internacional com “a frustração das expectativas sobre as reformas e ajustes necessários na economia brasileira”.

Se essa frustração já existe, ou periga surgir em breve, ou é um risco mais de médio prazo é algo que não aparece explicitamente na ata. O Copom louva as “recentes aprovações de medidas na área creditícia”, provável referência à TLP e a MP 775, do sistema de registro centralizado de duplicatas e recebíveis, colocando-as na lista de reformas que contribuem para a queda da taxa de juros estrutural. Por outro lado, a ênfase nas menções sobre o papel, para atingir o mesmo objetivo, das “reformas, notadamente as de natureza fiscal”, torna claro que a autoridade monetária ainda enxerga muito dever de casa não realizado.

Em relatório divulgado hoje sobre a ata, o consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, reitera sua observação, já feita sobre o comunicado da decisão do Copom, de que os riscos para baixo da inflação – efeitos secundários da deflação de alimentos e inércia a partir dos níveis baixos da inflação corrente – estão mais colocados no curto prazo, isto é, serão mais rápidos para se materializar ou não. Já os riscos para cima, a combinação já mencionada de frustração de reformas e piora no cenário internacional, se “materializariam em horizonte algo mais distante”. Assim, no curto prazo, para Schwartsman, a probabilidade de a Selic terminar o ciclo abaixo da sua projeção de 7% é maior do que a de acabar acima.

Por outro lado, enquanto os riscos “para baixo” são parte do repertório normal de eventos com que todo BC tem que lidar, o risco “para cima” representa uma combinação infeliz de circunstâncias que pode pôr em xeque não só a gestão cotidiana da política monetária, mas toda a estratégia de travessia econômica até o próximo governo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/9/17, terça-feira.