As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A lei é para todos

Última pesquisa da CNT/MDA, com níveis espantosamente baixos de popularidade de Temer, mostra que o vendaval da Justiça e da polícia atingiu tanto o PT quanto o PMDB, e possivelmente vai abalar qualquer ocupante do Executivo Federal envolvido em escândalos daqui em diante. Pesquisa também indica que permanece a aparente contradição entre a felicidade dos mercados e os níveis reduzidos de intenção de votos em candidatos centristas.

Fernando Dantas

20 Setembro 2017 | 21h18

A pesquisa divulgada hoje (19/9, terça-feira) pela CNT/MDA, com a popularidade de Michel Temer caindo ainda mais, para níveis ineditamente ínfimos, e Lula liderando robustamente em todos os cenários de primeiro e segundo turno nos quais é incluído, suscita algumas reflexões.

A primeira é que soa cada vez mais forçada a narrativa de que o mensalão, o petrolão e a Lava-Jato, para citar os nomes mais conhecidos da grande investida que as forças policiais e a Justiça brasileira vêm fazendo contra a corrupção, são uma artimanha das elites para destruir Lula e o PT, representantes das classes populares e dos pobres.

O que se nota, na verdade, é que seja quem for que chegue ao poder no Executivo Federal entra imediatamente na grande berlinda nacional e será atacado fortemente pela Justiça, pela mídia e pelos formadores de opinião – às vezes até com excessos reprováveis – pelos malfeitos de que é acusado.

Da mesma forma que ocorreu com o PT, a cúpula do PMDB que assumiu as rédeas do País após o impeachment está sendo impiedosamente desmoralizada aos olhos tanto da elite quanto do povo pelo seu enorme rastro de corrupção. A impopularidade espantosa de Temer obviamente tem como uma das causas a violenta recessão que apenas agora começa a se abater, mas com certeza está sedimentada também na percepção sobre o envolvimento do presidente e do seu grupo político na maré montante de escândalos que assusta o País.


É verdade que o PMDB é uma federação de caciques regionais que ainda poderão amealhar votos com métodos antiquados e distorcidos em diversos bolsões populacionais do País. Mas é igualmente verdadeiro que Lula como fenômeno eleitoral sobrevive, ao menos parcialmente, à débâcle petista, e também ainda é capaz de conquistar muitos votos em grotões e mesmo na classe média de esquerda.

O fato, porém, é que o tsunami das operações policiais e dos processos judiciais não poupou nem o PT nem o PMDB, que governaram o País nos últimos 15 anos. A afirmação de que o PSDB é protegido só terá crédito se os tucanos voltarem ao poder federal nesta fase pós-fortalecimento das instituições de controle, e forem poupados mesmo em face de graves acusações.

Criticar a menor repercussão de denúncias no governo paulista, dominado pelo PSDB, é um exercício relevante e necessário, mas não prova a tese de perseguição ao PT, porque o cerco ao governo federal é naturalmente muito mais cerrado – o que pode se notar não só pelo caso de Temer e seu grupo, mas também pela menor atenção conferida aos escândalos estaduais e municipais em geral no Brasil.

Evidentemente, o ideal era que todas as instâncias de corrupção no Brasil fossem combatidas com o mesmo vigor, mas a vida real é mais complicada. O fato de que pelo menos no governo federal esteja cada vez mais complicada a presença de políticos de passado suspeito ou comprovadamente corrupto já é um grande passo institucional. Temer, de fato, sobreviveu a uma acusação da PGR e é bem possível que escape da segunda, mas é apenas um presidente tampão. É impensável que um político hoje faça uma carreira vitoriosa, até e durante a presidência, sendo alvejado por todos os petardos que avariaram a nau do atual presidente.

O espectro de Lula – Outro aspecto que obviamente chama a atenção na pesquisa da CNT/MDA é o contraste entre a liderança de Lula, o avanço do imprevisível e explosivo Bolsonaro e a fraqueza dos candidatos centristas, de um lado, e a quase euforia dos mercados nas últimas semanas, do outro. A bolsa em moderado recuo hoje e o dólar em alta podem ter alguma ligação com o desapontamento em relação à pesquisa, mas certamente é uma reação bastante epidérmica.

A primeira explicação para essa aparente contradição é que a eleição ainda está muito longe e pesquisas neste ponto querem dizer muito pouca coisa.

Num nível mais consistente de elaboração, o analista político Rafael Cortez, da consultoria Tendências, observa que a retomada da economia ainda está muito no começo para se cristalizar num fato político que se contraponha à maré negativa do noticiário sobre Temer e seu governo. Assim, não só a sua popularidade continua afundando, como pré-candidatos que de alguma forma sejam a ele associados, como Alckmin e Doria, da centro-direita tucana, não decolam nas pesquisas.

Nesse cenário, nomes com elevado “recall” se destacam, com pisos de intenção de votos consolidados, mas também tetos baixos, devido à rejeição elevada. No caso de Lula, o recall é propriamente eleitoral. Já em relação a Bolsonaro, o recall vem do fato de que o político se firmou como principal nome de uma agenda ultraconservadora presente na sociedade, tornando-se muito conhecido e surfando a onda de descrédito dos principais partidos.

Para os que apostam no centro em 2018, a visão é de que gradativamente a melhora da economia vai aliviar a rejeição a Temer e pavimentar o caminho dos candidatos dessa corrente (há também a “torcida” de alguns para que Lula seja barrado de concorrer pela Justiça, o que é possível, e também o desgaste do ex-presidente com a denúncia de Palocci, que, contudo, não desbancou Lula da liderança das intenções de voto).

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, acha que o mercado não se surpreendeu, na pesquisa da CNT/MMA, com a impopularidade de Temer ou com as intenções de voto de Lula, mas parece ter ficado preocupado “na margem” com a fraqueza dos centristas e com a ascensão de Bolsonaro, que pode apontar um resultado em 2018 surpreendente – não necessariamente com a vitória do militar da reserva, mas de nomes imprevisíveis vindos de fora da política. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/9/17, terça-feira.