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A última boia de Temer

A relativa estabilidade macroeconômica é o último trunfo do governo Temer, em avançado estado de "sarneyzação". Se quiser comprar com dinheiro público sua sobrevivência a qualquer custo, o presidente pode escorregar dessa boia derradeira.

Fernando Dantas

14 Junho 2017 | 11h22

A “sarneyzação” parece a descrição mais apropriada da dinâmica do governo de Michel Temer após 17 de maio. As comparações com Collor e Dilma por enquanto são inadequadas porque Temer, assim como Sarney, definhou politicamente e caiu para níveis ínfimos de popularidade, mas ainda não perdeu o controle do Congresso. Collor e Dilma, por diferentes razões, não possuíam as condições e a habilidade de Temer e de seu grupo político para costurar essa rede de proteção parlamentar, mesmo em face da ampla e profunda rejeição de uma grande maioria da sociedade à figura presidencial.

De forma similar a Sarney em relação ao seu ‘um ano a mais’, Temer luta por um pedaço relativamente pequeno – no caso, de um ano e meio – de um mandato para o qual só foi alçado pela circunstância de ser vice-presidente. Tanto num caso como no outro, agarrar-se obsessivamente ao cargo e/ou rejeitar veementemente a renúncia – que em outras culturas políticas seria vista como a atitude mais nobre – passam a ser a preocupação central do mandato e acabam definindo a personalidade política do incumbente.

Há, entretanto, algumas diferenças importantes entre os anos finais de Sarney na presidência e o tempo que resta no cargo a Temer. A primeira é que o atual presidente ainda não está 100% fora de risco de ver sua situação involuir da sarneyzação para um processo semelhante ao que atingiu Collor e Dilma.

É verdade que, olhando-se do momento presente, parece improvável que Temer e seus aliados políticos não consigam reunir votos suficientes na Câmara para impedir que 342 deputados aprovem o processo da PGR contra o presidente. Vencida essa segunda ameaça real ao seu mandato – depois que o presidente obteve vitória contra a cassação da chapa no TSE –, não há no horizonte dispositivos institucionais claros para forçar Temer a sair. É improvável que Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, acate pedidos de impeachment contra o atual presidente.

Existem, porém, a possibilidade de novas revelações escandalosas contra o presidente e a voz das ruas. Depois da chocante gravação da conversa entre Temer e Joesley Batista e da criticada absolvição pelo TSE da chapa presidencial vitoriosa em 2014, uma parte considerável dos segmentos de centro-direita da população que lutaram pelo impeachment de Dilma Rousseff passou a demandar também a saída do atual presidente. Dessa forma, parece que, por uma vez, “coxinhas” e “mortadelas” estão teoricamente unidos numa causa comum. Por outro lado, detecta-se certa apatia na sociedade, e esses dois grupos antagônicos ainda não mostraram disposição para saírem juntos às ruas pelo “fora Temer”.

De qualquer forma, as ruas ainda são uma ameaça que paira sobre o presidente e não se sabe com certeza absoluta se, como Sarney, Temer sobreviverá a ela.

Por outro lado, o atual presidente tem a seu favor a estabilidade macroeconômica, completamente destroçada na era Sarney. Mesmo se considerando que o País ainda não se livrou das garras da pior recessão em um século, e que o setor público está estruturalmente quebrado, o fato é que a crucial posição externa da economia brasileira está muito sólida, a inflação está baixa e continua a cair e os juros seguem em trajetória de queda.

Ao mesmo tempo o câmbio, apesar de alguns momentos de excitação como os de ontem e hoje (12-13/6/17), ainda parece bem ancorado no que seria o comportamento esperado diante de uma grave crise de governabilidade política, no âmbito de um arcabouço de taxas flutuantes com bom funcionamento.

Essa “vantagem econômica” de Temer é bastante restrita. A manutenção da estabilidade macro confere ao presidente o apoio ou pelo menos a tolerância da elite econômico-financeira e ajuda a segurar as tropas no Congresso. Por outro lado, o altíssimo desemprego garante que nada desse trunfo seja reciclado na forma de apoio popular, que permanece em níveis alarmantemente reduzidos.

Ao fim e ao cabo, o jogo do governo Temer fica reduzido a balancear o equilíbrio macroeconômico e a necessidade de fazer “bondades” com dinheiro público para garantir o apoio à sua sobrevivência. O presidente conta com uma equipe econômica de primeira linha, provavelmente disposta a ficar desde que o Rubicão da busca populista de suporte a qualquer custo não seja ultrapassado.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, faz a mediação entre as demandas políticas de Temer e as recomendações da equipe econômica, com a eventual concessão tática aqui ou acolá. Se forçar a mão nesse jogo, Temer pode pôr a perder a relativa estabilidade macroeconômica, deixando-se escorregar de uma das últimas boias a fazer flutuar seu acidentado governo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/6/17, terça-feira.