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A volta da Previdência

Depois que Temer sobreviveu ao voto sobre a denúncia da PGR, governo ensaia retomar a batalha pela reforma da Previdência. É uma boa ideia, mesmo que não dê certo.

Fernando Dantas

09 Agosto 2017 | 10h33

Com a vitória de Michel Temer na Câmara na quarta-feira, 2/8, a equipe econômica recolocou na mesa a reforma da Previdência. A maior parte do mercado, porém, ainda não comprou a ideia de que é possível aprová-la, mesmo numa versão enxuta de idade mínima e alguma regra de transição.

Os 263 votos conquistados por Temer para livrar-se (desta vez) do julgamento pelo Supremo parecem uma base insuficiente para chegar aos 308 necessários para emendar a Constituição, especialmente levando em conta que aprovar uma reforma da Previdência em vésperas de ano eleitoral já seria difícil mesmo com o governo politicamente intacto.

O lado bom desse quadro, por outro lado, é que qualquer conquista do governo em termos de Previdência virá como um algo a mais num cenário de mercado que já é bastante favorável.

“Eu acho que essa possibilidade de aprovação da Previdência não está nos preços, e, se passar alguma coisa, vai ser algo muito positivo”, diz Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio.

De certa forma, é um contexto que permite ao governo praticar uma estratégia que normalmente é arriscada demais: a de acenar com um avanço que tem boas chances de não acontecer. Em situações típicas de crise, é mais prudente não vender o que não se pode entregar, para não criar decepções que podem levar a turbulências no mercado.

Mas o cenário internacional cada vez mais favorável está se mostrando um suporte poderoso para os ativos brasileiros. Assim, o governo pode se dar ao luxo de começar a mover alguns pauzinhos para tentar rearmar o circo da reforma da Previdência, mesmo sabendo de antemão que as chances de dar certo não são das maiores.

Se Michel Temer, Rodrigo Maia e PSDB conseguirem, de alguma forma, alinhar-se em torno de uma pauta de reforma da Previdência, a tarefa de dobrar a resistência dos parlamentares até chegar aos 308 votos começa a parecer menos impossível. E qualquer ganho nesse front vai significar uma grande melhora nas expectativas, como possíveis efeitos positivos sobre a atividade e o emprego em 2018.

É claro que toda a movimentação sobre a Previdência não pode significar descuido com as votações por maioria simples, como a MP 777 do BNDES, e com a complicada gestão da política fiscal – esta pauta mínima e a equipe econômica à frente dela são hoje, na verdade, o esteio doméstico da bonança dos mercados que já está no preço.

“São o Ministério da Fazenda e o Banco Central, o Mansueto e o Ilan, que estão segurando a corda”, diz Jankiel Santos, economista-chefe do banco Haitong no Brasil.

Curiosamente, a situação da reforma da Previdência hoje guarda semelhanças com a do déficit primário. Nos dois casos, há objetivos iniciais que, por fatores difíceis de prever, tornaram-se extremamente difíceis ou quase impossíveis. Um elemento importante da sabedoria da atual equipe econômica é perceber que a construção da credibilidade se dá tanto pela obtenção de resultados quanto pelo empenho demonstrado em persegui-los. Se o resultado às vezes não vem, ainda assim o empenho conta pontos e isto pode se transmitir aos preços. Dessa forma, retomar o combate pela reforma da Previdência, mesmo à sombra das flechas adversárias, é uma boa ideia. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/8/17, sexta-feira.