As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Arminio aos 60

Na celebração dos seus 60 anos, Arminio foi homenageado com um seminário internacional na Casa das Garças, em que nomes estelares da Economia fizeram apresentações: Stanley Fischer, vice-chairman do Fed, BC americano; Rhaguram Rajan, ex-presidente do BC da Índia e ex-economista-chefe do FMI; o brasileiro José Alexandre Scheinkman; e prodígios acadêmicos mais recentes, como Markus Brunnermeyer e Yulliy Sannikov. No cardápio, discussões sobre juros altos e baixos, populismo e justiça.

Fernando Dantas

15 Agosto 2017 | 10h50

Juros baixos no mundo, altos no Brasil. Populismo, eficiência e justiça. Bolhas de ativos. Esses foram alguns dos temas com que Arminio Fraga foi brindado no seminário de comemoração dos seus 60 anos, realizado no dia 31 de julho na Casa das Garças, think tank ligado ao departamento de Economia da PUC-Rio.

O prestígio internacional de Arminio, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio-fundador da gestora de fundos Gávea, ficou claro pelo time de economistas internacionais que vieram para a celebração do seu aniversário, como Stanley Fischer, vice-chairman do Federal Reserve (Feed, BC americano), e Rhaguram Rajan, ex-presidente do BC da Índia e ex-economista-chefe do FMI. Outros nomes de grande destaque no mundo acadêmico são os de Yuliy Sannikov, de Stanford, Markus Brunnermeyer, de Princeton, e o brasileiro José Alexandre Scheinkman, de Columbia e Princeton.

Armínio foi incumbido de comentar uma longa e abrangente exposição de Fischer sobre as baixíssimas taxas de juros globais por um longo período de tempo, e acabou abordando uma questão inversa: as altíssimas taxas de juros reais brasileiras, que perduram por mais tempo ainda.

Junto com Tiago Berriel, atual diretor de Assuntos Internacionais do BC, Arminio, que vem retomando atividades ligada à pesquisa, está fazendo uma ampla investigação sobre o fenômeno dos altos juros no Brasil. Ele nota que Berriel está tão ocupado no BC que a pesquisa conjunta agora está caminhando de forma bem mais lenta.

“Eu apresentei no seminário alguns pontos muito preliminares, mas algo de que nós já temos bastante convicção é que o Brasil é de fato um caso fora da curva e esse fenômeno começou na década de 60”, explica Arminio. Ele nota que a origem pode ter sido a introdução da correção monetária, com a caderneta de poupança pagando um juro real de 6% ao ano e isento de imposto. “Ter uma como piso de juros no sistema, no varejo (pelo lado do aplicador), uma taxa dessas é muito elevado”, comenta.

Mas entender por que os juros reais brasileiros, a partir dessa possível origem, mantiveram-se tão elevados por tanto tempo é, para Arminio, “um fenômeno extraordinariamente difícil de entender, que provavelmente tem múltiplas explicações”. Nesse rol de causas, ele acha possível que haja até aspectos psíquicos ligados à moderna economia do comportamento, e cuja solução poderia envolver um “investimento grande em educação financeira”.

Por outro lado, Arminio considera importante frisar que, “aos trancos e barrancos”, a taxa de juro real brasileira veio caindo desde o plano Real “até a aventura Dilma, que empurrou de maneira voluntarista para baixo, deu errado, levou a congelamentos (de preços administrados) e depois foi preciso soltar”. Ele observa também que, desde o plano Real, os fundamentos econômicos, que garantem uma taxa de juros real baixa, sempre estiveram sujeitos a idas e voltas. Agora, com a gestão competente da política monetária por parte do BC, o juro real entrou em queda novamente, mas o desequilíbrio fiscal permanece como um risco em horizontes mais longos.

O economista Vinicius Carrasco, recém-saído do BNDES, e um dos organizadores do seminário em homenagem a Armínio, comentou durante o evento a apresentação de Rajan sobre a “era do descontentamento”, focalizando a dificuldade de compensar os perdedores da globalização, uma das causas da ascensão do populismo, em particular nos países ricos.

Carrasco notou que uma possibilidade trazida por Rajan é de que, mais do que compensação pura e simples (o que se pode fazer em teoria repartindo os ganhos derivados de reformas econômicas tradicionais), os perdedores da globalização estejam em busca de empregos e atividades que “devolvam às pessoas o sentido que elas viam na vida”.

Uma questão correlata, que pode ser derivada de modelos desenvolvidos por Brunnermeyer, também presente ao seminário, é que após um choque negativo, como o da grande crise de 2008, a forma certa de relançar a economia é de fato recapitalizar os bancos, que são as instituições com mais capacidade de alocar capitais e gerir ativos de forma eficiente.

O problema é que é muito difícil justificar para o eleito mediano “redistribuir riqueza para os mais ricos”, e o preço desse “seguro” a que os banqueiros têm acesso deveria ser cobrado antes.

Arminio considera “impossível” explicar isso para o eleitor mediano, e nota que um problema adicional é o processo de crescente alavancagem do sistema financeiro ao longo de 120 anos. “No final do século XIX, a alavancagem dos bancos era de três, quatro vezes, e, na antevéspera da crise de 2008, se incorporar os derivativos, havia bancos alavancados quase 100 vezes, uma coisa colossal”, comenta.

Ele emenda com uma entusiástica recomendação do livro “Justice: What’s the right thing to do” (“Justiça: O que é a coisa certa a fazer”), de Michael Sandel, professor de Filosofia Política de Harvard, que trata do tema da justiça, de Aristóteles até autores contemporâneos. Arminio nota que a justiça – e a percepção da sociedade sobre a sua vigência (ou não) – é extremamente importante no desenho das instituições econômicas, assim como a eficiência.

Aos 60 anos, e depois de ter passado por posições de grande destaque no setor público e privado, Arminio permanece sintonizado na mais difícil das questões: como construir democraticamente uma sociedade melhor, tanto em termos de eficiência quanto de justiça.