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Barafunda eleitoral

Acusações contra Jaques Wagner aumentam a entropia do quadro eleitoral deste ano.

Fernando Dantas

28 Fevereiro 2018 | 10h39

Segundo um analista político de Brasília, “o vencedor dessas eleições é o candidato que conseguir dialogar com o eleitor que odeia o Bolsonaro e odeia o Lula”. O problema, porém, é que até agora não surgiu ninguém que remotamente preencha essa condição.

À medida que outubro vai se aproximando, a entropia eleitoral parece aumentar. O último capítulo é a investida da Polícia Federal contra Jaques Wagner, ex-governador da Bahia.

Wagner é apontado como a melhor opção de “plano B” para o PT quando Lula desistir ou ser forçado a desistir da sua candidatura presidencial, que tudo indica estar inviabilizada legalmente em termos de chances reais de o ex-presidente assumir o governo se for vitorioso nas urnas.

Pensou-se em Fernando Haddad como candidatura alternativa, mas o ex-prefeito de São Paulo não conseguiu ir nem para o segundo turno na sua tentativa de reeleição. Ele é percebido como um político que agrada à esquerda “descolada” de alto poder aquisitivo, mas que tem fraca conexão com as massas populares.

Já Wagner elegeu-se e reelegeu-se governador da Bahia, e é visto como conciliador e hábil negociador. Teve várias experiências como ministro em Brasília, deixando boa impressão junto aos seus interlocutores. E é visto como alguém mais próximo ao centro no PT, que poderia fazer a transição entre o discurso mais à esquerda de Lula como candidato inviabilizado pelo suposto “complô das elites” para uma plataforma mais moderada e agregadora para além das bases petistas.

Agora, com este plano B seriamente chamuscado, a grande interrogação é como o PT vai proceder. Quem será o “reserva” de Lula na hora em que o ex-presidente decidir que já chega de ser candidato que não pode assumir, e que é preciso escolher alguém que ajude o PT a ser pelo menos competitivo. Será que o tiro contra Wagner vai jogar o PT ainda mais à esquerda?

Outro analista político, também baseado em Brasília, vê o caso de Jaques Wagner como apenas mais um episódio desorganizador da eleição presidencial deste ano.

Na sua visão, há uma grande avenida aberta para a vitória de um candidato centrista. A economia está se recuperando, o eleitorado dá sinais de cansaço da polarização estridente entre radicais de esquerda e de direita e Michel Temer, com a intervenção no Rio, abriu uma cabeça de ponte no tema da segurança, que até agora estava praticamente monopolizado pela extrema-direita de Bolsonaro.

O problema, porém, é que a cada dia o centro parece mais fracionado numa briga de todos contra todos. Geraldo Alckmin não consegue unificar nem o PSDB em torno da sua candidatura, e Temer e seu principal auxiliar, Henrique Meirelles, tocam planos presidenciais que são mutuamente excludentes (alguém imagina os dois candidatos criticando-se mutuamente durante a campanha?). Enquanto isso, Fernando Henrique vasculha a praça em busca de outsiders, como o “bidesistente” Luciano Huck, um movimento que obviamente enfraquece Alckmin.

Mesmo a candidatura de Bolsonaro emite sinais problemáticos, dada a falta de base partidária e tempo de TV aliada ao destempero verbal do candidato e, agora, a incursão de Temer no nicho da segurança pública.

Em suma, a eleição de 2018 parece estar ficando cada vez mais confusa e imprevisível. O mercado, porém, parece apostar que do caos emergirá em tempo hábil uma candidatura centrista e reformista vitoriosa, o que, aliás, é um cenário bastante possível. O único problema é que por enquanto ainda não surgiu nenhum indício deste ou de qualquer outro desfecho para a barafunda eleitoral de 2018. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/2/18, segunda-feira.