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Calma, centristas!

A última pesquisa eleitoral, que revela Lula e Bolsonaro ainda na liderança (mesmo depois da condenação em segunda instância do ex-presidente, o que pode tirá-lo do páreo eleitoral), não deve ser lida com muito alarmismo pelos que querem que o próximo presidente seja de centro e reformista.

Fernando Dantas

02 Fevereiro 2018 | 20h06

O fato de a última pesquisa Datafolha sobre as eleições presidenciais ter mostrado que Lula continua com mais de 35% das intenções de voto, que Bolsonaro está próximo a 20% e que os candidatos de centro rastejam no dígito único despertou preocupação nos analistas e no mercado. A condenação de Lula, que pode tirá-lo do páreo presidencial, não teve qualquer efeito eleitoral, e uma candidatura pró-reformas ainda parece carecer completamente de representatividade junto à massa do eleitorado.

Por outro lado, seria surpreendente se a punição a Lula nos tribunais se refletisse rapidamente em redução das suas intenções de voto. Afinal, o ex-presidente está há anos enredado em uma teia de denúncias, com maciça divulgação nos meios de comunicação. Que um tribunal de segunda instância confirme ou não a sentença da primeira instância não parece ser um fator que vai mudar a cabeça de um eleitor que passou incólume pelo mensalão e petrolão.

Na verdade, parece haver dois tipos principais de eleitores de Lula. O primeiro é o grupo de militantes e simpatizantes do PT, do qual faz parte uma porção significativa de pessoas de classe média, já que em geral (mas não sempre) é preciso haver um nível mínimo de educação formal que conduza à capacitação intelectual mínima para um processo de politização.

Os cientistas políticos apontam que o PT é, disparadamente, o partido brasileiro que tem maior base desse tipo, que se articula por meio de uma miríade de sindicatos e outros tipos de associações da sociedade civil. Esse grupo é muito importante por seu papel militante e organizador, mas provavelmente é minoritário entre os eleitores lulistas – e tem uma dimensão que seria insuficiente para que o ex-presidente seja o fenômeno de massas que efetivamente é.

Os militantes e simpatizantes do PT não irão, obviamente, mudar seu voto por causa da decisão do TRF-4. Para eles, o que vale é a narrativa do golpe, começando pelo impeachment de Dilma, e que vê toda a enorme sucessão de escândalos que sacudiu a democracia brasileira nos últimos anos como um processo enviesado – por um Judiciário comprometido com as elites – contra as forças populares e seu maior símbolo e trunfo, Lula.

Mas o que as pesquisas de opinião vêm mostrando há vários anos é que a maior massa de eleitores de Lula vem efetivamente das camadas mais pobres da população, menos politizadas. Essas pessoas votam em Lula pela identificação com as raízes humildes e populares do ex-presidente (realçadas por seu carisma e capacidade de comunicação) e pelo fato de que, durante uma parte significativa do seu governo, o aumento da renda e do consumo dos pobres se deu em ritmo quase “chinês”, como costuma dizer Ricardo Paes de Barros, especialista em políticas sociais.

Pesquisas qualitativas mostram que esse eleitor pobre de Lula, diferentemente do militante mais fervoroso, muitas vezes acha que Lula se envolveu de fato em condutas ilegais. Mas a visão predominante (e não há como dizer que equivocada) é que praticamente todos os políticos estão chamuscados pela corrupção, o que faz com que este fator deixe de ser decisivo na diferenciação. Desonesto por desonesto, o eleitor pobre vai buscar aquele político que julga lhe ter trazido mais benefícios.

Uma análise mais ponderada, portanto, indica que o eleitor de Lula, seja o militante mais politizado, seja o pobre com saudade do boom da década passada, não deixará de votar no ex-presidente por causa dos desdobramentos de processos judiciais. Sempre que indagados sobre em que votariam, e se Lula constar como opção, vão tender a escolher o ex-presidente.

Nesse sentido, a última pesquisa eleitoral não deveria ter surpreendido, e o que de fato importa ali não é o eleitorado consolidado de Lula – nem o de Bolsonaro, por razões muito diferentes –, mas sim os sinais sobre a construção de uma candidatura competitiva de centro.

Nesse sentido, parece ser cedo para o que campo pró-reformas se desespere. Tanto Lula quanto Bolsonaro são candidatos que trazem muita divisão, com uma massa grande de eleitores entusiásticos e uma massa igualmente grande de detratores apaixonados. Já o centro pode vir a atrair uma parte significativa da população mais desencantada, mas que rejeita os extremos.

O momento é difícil, dada a impopularidade abissal de Temer, que encarna a centro-direita. Mas a economia pode melhorar até as eleições, atenuando pelo menos um pouco a rejeição maciça ao presidente, e algum candidato de centro também pode se diferenciar do grupo hoje no poder. Evidentemente não será fácil, mas também não seria de esperar que neste momento – do qual a temporada de alta temperatura eleitoral ainda está relativamente distante, com uma Copa no meio – despontasse com forças nas pesquisas um candidato cujo trunfo não será o de despertar paixões, mas sim de se fazer uma opção aceitável para a maioria silenciosa. Ainda é cedo para perder o sono com pesquisas eleitorais. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/2/18, sexta-feira.