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Calma que a retomada continua

Para Julio Mereb, economista do Ibre/FGV, BC deve cortar Selic em mais 0,25 pp em março (para 6,5%), mas os motores da recuperação estão bem, obrigado.

Fernando Dantas

07 Março 2018 | 13h03

Na minha coluna da segunda-feira, 5/3, comentei sobre as surpresas desinflacionárias e as decepções com indicadores de atividade no início deste ano. Ambas se combinaram para aparentemente esfarelar a vontade do Banco Central de interromper o longo ciclo de queda da Selic na última reunião, em fevereiro. Agora, a aposta da vez é de que haverá novo corte de 0,25 ponto porcentual (pp) em março, e a ultima comunicação pública de Ilan Goldfajn, presidente do BC, reforçou esse “call”.

Julio Mereb, economista do Ibre/FGV, concorda com a posição acima. Mas ele o faz de forma particularmente não ansiosa. Mereb acredita que a retomada em ritmo gradual segue seu curso, e que o impulso à demanda exercido pela liberação do FGTS no ano passado está sendo devidamente substituído pelos efeitos defasados do ciclo de queda da Selic e por melhoras muito evidentes em motores mais subjacentes como mercado de crédito, inflação e mercado de trabalho. O economista ainda não perderia o sono caso estivesse no Copom.

Em relação à produção industrial de janeiro divulgada hoje, Mereb crê que não muda muita coisa. O resultado dessazonalizado ante dezembro veio pior que o esperado, mas o interanual (contra janeiro de 2017) veio melhor. O analista vê problemas na dessazonalização de dezembro, quando a produção industrial veio muito forte (tanto que já se esperava recuo agora). Assim, se fia um pouco mais no resultado interanual, com avanço significativo de 5,7%.

Mereb nota que tanto o comprometimento da renda das famílias com encargos financeiros de operações de crédito como os juros do crédito para as pessoas físicas vêm numa firma toada de queda desde 2016. Não há sinais de que esse processo esteja ameaçado de interrupção.

Entre março de 2017 e fevereiro de 2018, o comprometimento caiu de 21,8% para 19,7%. A projeção do Ibre para dezembro é de 18,5%. De março de 2017 ao mesmo mês de 2018, o juro médio para a pessoa física saiu de 41,4% para 32,4% (todas as modalidades, incluindo o crédito imobiliário), e a projeção para o final do ano é de 28,7%.

As surpresas desinflacionárias deste início de ano são bem conhecidas, e já há quem veja a inflação no primeiro trimestre sendo quase a metade dos 1,4% da última previsão oficial do cenário principal do BC. Mereb observa que isso traz um impacto positivo para o poder aquisitivo das famílias. Adicionalmente, o mercado de trabalho continua se recuperando.

O BC, portanto, vai precisar de sangue frio para administrar o final deste ciclo de distensão monetária. Por um lado, há a inflação insistentemente surpreendendo para baixo e leituras que ainda veem um gigantesco hiato do produto ou uma taxa de juro neutra que teria caído em relação aos últimos anos. Se tudo isso for verdade, a retomada corre o risco de se desidratar por juros reais ex-post mais elevados do que se imagina.

Por outro lado, há interpretações como a de Mereb, de que os impulsos certos estão na dimensão e nos lugares corretos e que, mesmo que ainda faça sentido algum ajuste adicional para baixo da Selic, a retomada está ganhando tração e não é preciso ficar nervoso demais com cada eventual indicador adverso. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/3/18, terça-feira.