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Cenários binários, fiscal e elitoral

Mercado passa batido por pesquisa eleitoral da Datafolha, que confirma liderança do Lula.

Fernando Dantas

29 Junho 2017 | 19h20

O mercado financeiro não parece muito preocupado com a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais para a disputa presidencial do próximo ano, de acordo com a sondagem que acaba de ser divulgada pelo Datafolha. Hoje (26/6/17, segunda-feira), os ativos brasileiros seguem seu curso relativamente tranquilo das últimas semanas, em nível pior do que antes do fatídico 17/5, mas melhor do que a maioria dos analistas imaginava que ocorreria em caso de a operação Lava-Jato atingir em cheio a figura presidencial, como aconteceu.

Algumas razões podem explicar a relativa indiferença do mercado à última rodada de intenções de voto do Datafolha. A primeira, uma justificativa clássica, é que a eleição de 2018, pela sua distância temporal do momento presente, ainda não chegou ao centro do radar do mercado. Outra é que, apesar da liderança com cerca de 30% no primeiro turno na maioria dos cenários, Lula parou de crescer e manteve o nível do último levantamento.

Também pode estar sustentando o otimismo do mercado o fato de que ex-presidente lidera a rejeição nas simulações para o primeiro turno de 2018, com 46% dos respondentes declarando que não votariam nele de jeito nenhum. A rejeição a Lula destaca-se na comparação com a dos outros candidatos: os segundo e terceiro colocados nesse indesejado ranking são Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro, com níveis bem inferiores de, respectivamente, 34% e 30%.

Finalmente, a liderança de Lula é menos garantida nos cenários de segundo turno, em que o ex-presidente vence bem os potenciais candidatos tucanos, Alckmin e João Doria, mas empata com Marina Silva e perde apertado (dentro da margem de erro) para Sérgio Moro (que nunca acenou com a possibilidade de se candidatar).

Mesmo com todas essas ressalvas, o mercado parece estar adotando, em relação ao cenário eleitoral de 2018, uma atitude semelhante à que prevalece em relação ao ajuste fiscal. Em ambos os casos, há uma situação binária, em que os acontecimentos podem tomar uma direção relativamente boa ou muito ruim. Em ambas as situações, a aposta implícita dos investidores é de que a alternativa otimista vai prevalecer.

No caso fiscal, a visão é de que um ajuste do saldo primário de cinco a seis pontos percentuais do PIB será da alguma forma realizado nos próximos anos, especialmente a partir da eleição de um novo presidente em 2018. Vem junto com essa hipótese uma aposta suplementar de que o cenário externo, de alta liquidez e acolhedor ao risco Brasil, permanecerá assim o tempo que for necessário para que o ajuste fiscal seja realizado sem rupturas dramáticas no equilíbrio macroeconômico.

Em relatório divulgado hoje (segunda-feira, 26/6), o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, transmite seu ceticismo diante dessa postura otimista, bem sintetizado numa frase: “O país parece cada vez mais um veado (paralisado) diante de faróis, olhando para os desequilíbrios fiscais que se aproximam, mas aparentemente incapaz de sair da frente”.

O cenário eleitoral guarda semelhanças com o fiscal. Mantendo-se a clivagem binária, a narrativa otimista tem, como elo de transmissão fundamental de sua cadeia, a eleição de um presidente reformista no próximo ano, que consiga pegar o bastão da agenda que – se sobreviver no cargo – Michel Temer lhe entregará capengando. A partir daí, o novo mandatário deve dar forte o impulso às reformas, e saltar com sucesso por cima do obstáculo fiscal de cinco a seis pontos porcentuais do PIB.

Os números do Datafolha, entretanto, indicam que a eleição de Lula é, no mínimo, um evento possível. Se ela ocorrer, o ex-presidente vai assumir as rédeas de um país dividido e polarizado ao extremo, em que sofrerá forte rejeição do eleitorado de centro-direita, sendo obrigado a se apoiar em sua base tradicional, extremamente anti-reformas. Mesmo que seja derrotado, é alta a possibilidade de que Lula vá a um segundo turno que polarize o País, e torne o mandato reformador do seu eventual oponente bem menos consensual e bem mais difícil de executar.

Sem o “elo” da eleição de um presidente que consiga tocar reformas em 2018, a equação fiscal não fecha e o cenário otimista se esfarela. Esta parece ser uma possibilidade real, mas difícil de encontrar nos preços. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/6/17, segunda-feira.