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Compressão de prêmios de risco causa preocupação

Fernando Dantas

11 junho 2014 | 18:17

O aumento da liquidez, a queda da volatilidade e o achatamento dos prêmios de risco nos mercados internacionais estão trazendo inquietação para alguns analistas, que temem “a calmaria que precede a tempestade”. Comparações com o período da “Grande Moderação” até 2007, e que viria a desaguar na grande crise global, já estão sendo feitas.

O alarme pode ser exagerado, já que não há bolha de crédito ou de ativos imobiliários na maior parte das principais economias. Ainda assim, num mundo de incertezas em que uma hipotética mudança forte de sinais nos indicadores econômicos americanos poderia provocar movimentos bruscos em alguns ativos referenciais, como os juros longos dos EUA, a compressão de prêmios de risco preocupa.

Para Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, a calmaria está ligada à política monetária expansionista nas principais economias do mundo. Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) de Mario Draghi está embarcando firme nas políticas anticonvencionais de relaxamento monetário, inclusive com o anúncio da taxa negativa para depósitos dos bancos junto ao banco central. No Japão, prossegue o experimento do “abenomics” do primeiro ministro Shinzo Abe, que também inclui expansão monetária.

Nos Estados Unidos, o “tapering” – redução gradual da última rodada de injeção de liquidez pelo Fed, BC americano – está mantido, mas Rocha nota que isto vem sendo acompanhado por uma retórica mais “dovish” (expansionista) da nova chair do Fed, Janet Yellen. Consta também que o ex-chairman, Ben Bernanke, teria dito em encontros com participantes do mercado que os Fed Funds, taxa básica americana, iriam subir mais tarde do que se pensava. Na China, finalmente, houve liberação de compulsórios sobre recursos bancários direcionados à agricultura e a pequenas e médias empresas, o que atinge grande parte dos bancos comerciais.

“São medidas de relaxamento monetário que atingem a maior parte da economia global”, nota Rocha.

A consequência é a compressão dos prêmios de risco e a busca por maior rentabilidade em ativos mais arriscados, o que afeta inclusive o Brasil. O economista observa que a taxa do DI de janeiro de 2017 era cotada a 11,54% (no momento da conversa com o colunista, na terça-feira, 10/6/14)), com uma Selic de 11%. “É pouquíssimo prêmio para um prazo de três anos e considerando-se a inflação alta e mal resolvida”, ele comenta.

A alta liquidez internacional e o cenário de crescimento decepcionante já levaram dois países emergentes importantes, México e Turquia, a fazerem cortes de 0,5 ponto porcentual nas suas taxas básicas recentemente.

No Brasil, aliás, há também especulações sobre um possível corte da Selic, alimentadas pela ambiguidade da expressão “neste momento” que constou do comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), e que não foi esclarecida na ata. Uma parte do mercado interpretou como sinal de que a alta poderia ser retomada mais adiante (possivelmente depois das eleições, ou em 2015), mas outros analistas aventaram a possibilidade de que a expressão se referisse a um corte da taxa básica. Rocha considera que seria um erro o BC brasileiro seguir o caminho de México e Turquia.

 

O economista, aliás, estranha que, num momento em que teoricamente o apetite por risco emergente está em alta, o governo e o BC tenham agido com tanta energia para evitar qualquer desvalorização maior do real, pré-anunciando um novo programa de swaps, aumentando as rolagens e redução de 360 para 180 dias do prazo de incidência de IOF para captações externas. Ainda que explicável pela tentativa de segurar a inflação abaixo do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas (6,5%), Rocha vê a atuação atual no câmbio como “muito assimétrica”, com um claro viés de impedir a desvalorização da moeda.

De qualquer forma, ele não acha provável que a atual bonança internacional se prolongue muito, caso em que efetivamente poderia haver má alocação de investimentos e risco de formação de bolhas, o que é típico de períodos longos de compressão de prêmios de risco. Rocha nota que a conjuntura atual está muito ligada à prevalência da postura “dovish” no Fed, o que pode mudar diante de uma eventual sucessão de bons indicadores da economia americana.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/6/2014, terça-feira.