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Concurso do menos feio

Situação econômica internacional favorável, problemas políticos em vários países emergentes (o que reduz opções do investidor internacional) e setor externo sólido explicam por que Brasil continua estável mesmo com toda a turbulência envolvendo o governo.

Fernando Dantas

29 Junho 2017 | 19h36

Em 30 de março deste ano, Jakob Zuma, presidente da África do Sul, demitiu o respeitado ministro da Fazenda Pravin Gordham, substituindo-o por Malusi Gigaba, mais próximo do presidente. Agora, há uma recomendação da “protetora pública”, Busisiwe Mkhwebane, também do círculo de Zuma, para que o Parlamento mude o mandato do South African Reserve Bank, o banco central, para incluir objetivos como crescimento e “transformação socioeconômica”.

Há uma forte reação do BC sul-africano – que levou o caso à Suprema Corte – e de segmentos da opinião pública quanto ao que é percebido como uma ofensiva de Zuma para minar as instituições e desviar o funcionamento da economia da África do Sul na direção do “capitalismo de compadrio”.

Na esteira de recentes downgrades de rating e mau desempenho econômico, a turbulência política e institucional da África do Sul é uma evidência de que o mundo está muito complicado e o Brasil não é o único país emergente no qual incertezas políticas turvam o horizonte dos investidores. Basta pensar em outras grandes economias emergentes, como Turquia e Rússia, às voltas com regimes crescentemente autoritários, ou o México, que tem que lidar com a hostilidade de Donald Trump, presidente do seu principal parceiro comercial.

Esse quadro de falta de opções seguras ajuda a explicar por que os mercados, apesar do virtual aniquilamento da capacidade política do governo Temer de passar a reforma da Previdência, e das dificuldades que terá mesmo com a agenda infraconstitucional, continua a sustentar os preços dos ativos brasileiros num nível relativamente tranquilizador.

Como diz Tomás Brisola, economista-chefe do Bahia Asset, “o investidor olha para todos esses países problemáticos e lá, da sua mesa em Nova York, ainda vê Donald Trump na Casa Branca”.

Assim, de forma curiosa, e favorável ao Brasil, o risco político disseminado combina-se nesse momento da conjuntura global com um cenário econômico internacional que não poderia ser mais favorável. As principais do mundo, Estados Unidos, Europa, China e até – para o seus padrões – Japão, estão crescendo de forma sincronizada, mas não há sinais alarmantes de inflação e os juros se mantêm em nível baixíssimo, apesar do esforço do Fed, BC dos EUA, em tentar normalizar sua política monetária. As commodities, em que pese os soluços de baixa do petróleo, seguem em preços razoáveis.

No “concurso de beleza” entre os emergentes, o Brasil conta também com a combinação de um juro real extremamente elevado com uma posição externa de solidez a toda prova. O superávit da conta corrente de US$ 2,9 bilhões em maio veio acima das expectativas do mercado e reduziu o déficit em 12 meses para 1% do PIB. A projeção do Bradesco é de que o déficit em conta corrente chegue ao fim do ano em 0,8% do PIB, sendo facilmente coberto pelos investimentos diretos, que superam US$ 80 bilhões nos 12 meses até maio, ou cerca de 4,3% do PIB (mas a entrada de investimento direto caiu em pouco mais da metade, na comparação de maio de 2017 com o mesmo mês de 2016).

As reservas internacionais seguem impávidas em US$ 378 bilhões e a posição de swaps cambiais do BC, apesar de ter subido recentemente, é uma fração do que era quando Ilan Goldfajn assumiu o BC em junho do ano passado.

Dessa forma, de maneira surpreendente para um País que há menos de dois anos temia estar na “antessala da dominância fiscal” por causa da situação intratável das contas públicas, o Brasil hoje desfruta do privilégio de país desenvolvido de enfrentar uma crise política de enormes proporções enquanto a economia aparentemente segue seu curso.

É recomendável, porém, frisar o “aparentemente”: a pior recessão da história ameaça emendar em estagnação, o desemprego se mantém em nível recorde desde o início da década de 80 e a placidez dos mercados depende do apetite por risco dos investidores internacionais, num mundo de grande incerteza política. O Brasil deveria estar aproveitando a calmaria para apressar as reformas, mas é exatamente o contrário que está acontecendo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

 Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/6/17, quarta-feira.