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Contra a meta ajustada

Alexandre Schwartsman critica a ideia de uma meta de inflação ajustada para 2017, e acha que, se utilizada, poderia ser ruim para as expectativas. Ele diz ainda que o mercado está apostando na queda dos juros, que seria viabilizada pela meta ajustada, e que se ela não vier pode ser "um deus-nos-acuda".

Fernando Dantas

17 Junho 2016 | 17h56

O economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC), considera que uma meta ajustada de inflação para 2017 é uma “péssima ideia”, apesar de aguardada pelo mercado, que, na sua visão, se posicionou para a queda da Selic.

“O mercado inteiro está apostando em corte de juros, e, se não vier, vai ser um deus-nos-acuda”.

Schwartsman faz a ressalva de que uma meta ajustada seria “mais honesto do que o que (Alexandre) Tombini fez, que era não explicitar (que mirava numa meta mais alta que a oficial)”.

Ainda assim, o consultor não vê razão para se usar o expediente de explicitar uma meta ajustada agora. Para ele, os choques de tarifas públicas e do câmbio ocorreram em 2015, já tiveram seus efeitos principais e não seriam mais motivo. “Qual o choque de 2016 que justificaria isso?”, ele questiona.


“Se for para levar a sério o que está saindo do modelo do BC, mantendo o juro parado, eventualmente se chega à meta em 2017; se seguir o cenário de mercado, que prevê corte de juros, entrega-se 5,5%”, avalia o economista.

Dessa forma, ele considera que a justificativa acabaria sendo, na prática, a de que “está muito difícil de fazer – o BC estaria usando a meta ajustada para poder cortar a taxa de juros mais rapidamente”. Neste caso, prevê o economista, a inflação acabaria não ficando na meta ajustada – por exemplo, de 5,5% -, mas iria para um nível mais alto. “E o que o BC faria para entregar a meta em 2018, ela cairia por gravidade?”, pergunta-se Schwartsman.

A visão do economista contrasta com uma corrente expressiva de analistas e de participantes do mercado, que defendem ou aceitam a ideia da meta ajustada.

Arminio Fraga, ex-presidente do BC, e, um pouco antes, José Júlio Senna, diretor do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, defenderam a ideia de uma meta ajustada para 2017 com o possível adendo, para contrabalançar, de se estabelecer uma meta mais ambiciosa para 2018, abaixo do nível atual de 4,5%.

Na argumentação de Senna, os regimes de meta de inflação detêm um grau de flexibilidade que pode ser usado justamente em momentos extremos como o atual, em que o PIB per capita caminha para cair mais de 10%.

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, nota que há resquícios dos choques do câmbio e dos preços administrados que, somados ao “minichoque” da alimentação e à violenta queda da atividade, justificariam uma meta ajustada em 2017 – no contexto de um arcabouço renovado de política econômica, com forte compromisso na parte fiscal e recuperação da credibilidade.

Posição semelhante é defendida por Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, que inclusive acha que cumprir 4,5% em 2017 poderia exigir um “choque de juros”. Ela nota que os nomes da equipe econômica – incluindo novos diretores do BC como Carlos Viana de Carvalho (Política Econômica) e Tiago Berriel (Assuntos Internacionais), com fortes credenciais acadêmicas – inspiram respeito, e o Ministério da Fazenda está alinhado ao Banco Central tanto em termos de garantir autonomia da autoridade monetária quanto de sinalizar para a sociedade que o ajuste fiscal é indispensável.

Adicionalmente, o BC sinalizou uma postura mais ortodoxa em relação a respeitar a flutuação cambial. Neste caso, avalia Solange, não se poderia descartar alguma apreciação que reforçaria o combate à inflação (embora, em se tratando de câmbio, não se possa contar com esta hipótese). (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/6/16, terça-feira.