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Crítica e elogios à fala de Ilan

Presidente do BC sinaliza manutenção de plano de voo com mais um corte de 0,25 ponto porcentual da Selic (para 6,25%) em maio, o que ajudou a desvalorizar o real hoje. No mercado, há quem ache que Ilan acertou e quem acha que errou.

Fernando Dantas

09 Maio 2018 | 19h23

A tendência de desvalorização de diversas moedas ante o dólar é global, mas a depreciação do real hoje está na contracorrente do que acontece com outros países emergentes relevantes nesta quarta-feira.

Quando essa coluna estava sendo escrita, as moedas do Chile, do México, da Colômbia e mesmo da problemática Turquia estavam se valorizando ante o dólar, e a da África do Sul estava praticamente parada. Já o real se desvalorizava em 0,8%.

A entrevista de Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central (BC), à Globonews na terça-feira à noite, em que ele sinalizou indiretamente que o corte de 0,25 ponto porcentual (pp) na Selic na reunião de maio deve ser mantido, é vista por vários analistas como causa relevante da desvalorização peculiar do real hoje. As interpretações de por que isso ocorre, entretanto, diferem bastante.

Numa ponta, há os que veem as declarações de Ilan como um erro, e acham que o BC deveria manter a Selic em 6,5%. Notando que o BC indicou que este mês pode colocar liquidamente swaps cambiais num valor de US$ 2,8 bilhões no mercado, um gestor comenta que “não faz sentido intervir no câmbio e cortar juros, é como se estivesse reduzindo a marcha e acelerando”.

Evidentemente, ele sabe que as regras do regime de metas indicam que a Selic deve se mexer de acordo com as projeções e expectativas de inflação, tendo como parâmetro a meta. Mas o gestor afirma que, para o BC, “tem a hora de olhar o modelo e pensar com a cabeça de economista, e tem hora de pensar com a cabeça de mercado”.

Ele acha que o mercado reagiu mal à entrevista de Ilan, e que a decisão de cortar ou não a Selic na próxima reunião, embora aparentemente pouco decisiva, porque 0,25 pp não fará muita diferença nem na inflação nem no dólar, tem bastante importância em termos de sinalização.

“O pessoal tomou dólar e comprou a parte mais longa da curva, com a curta ficando mais estável”, disse o gestor, apontando que a sinalização da entrevista de Ilan teria aumentado a expectativa de juros maiores mais à frente.

A visão é de que o momento é de reprecificação dos emergentes nos mercados globais, com alguns danos maiores em casos de países frágeis, como a Argentina. Nesta conjuntura, o BC mostrar que não está tão preocupado assim com o câmbio pode fazer o dólar andar mais ante o real e trazer turbulências, afetando os juros de mercado e gerando um custo maior no caso de uma intervenção mais pesada para contê-lo (o que este gestor acha que não deve ser feito agora).

Adicionalmente, a gestora em questão já trabalha com uma projeção de IPCA de 4,3% para 2019, em cima da meta de 4,25%. Não se pensa em revisá-la agora, pois já tinham uma trajetória de câmbio mais desvalorizado. Ainda assim, ressaltando que, com o pass-through (repasse para a inflação) cambial estimado de 10%, o atual nível de câmbio por 12 meses traria uma inflação adicional de 0,8 pp neste período. Dessa forma, o gestor considera que “6,5% de Selic está de bom tamanho”.

Uma visão contrária é que a desvalorização do real hoje, na sequência da entrevista de Ilan, é apenas um ajuste diante da eliminação de alguma incerteza sobre o corte de 0,25 pp que teria surgido em função da desvalorização recente.

“Acho que o real hoje está pior do que (as moedas) de outros emergentes porque o Ilan sinalizou que vai manter o corte, e juro mais baixo deprecia o câmbio, isto é do jogo”, disse o economista de outra gestora de recursos.

Ele faz parte de uma corrente que considera que Ilan agiu corretamente ao enfatizar os procedimentos padrões do regime de metas, pelo qual o juro só aumenta ante uma depreciação do câmbio se esta alterar projeções e expectativas de inflação para um nível ameaçador ao cumprimento das metas.

Segundo o economista-chefe de uma terceira gestora de recursos, “há 15 dias havia gente discutindo se a Selic ia abaixo de 6% e agora tem quem queira que não tenha corte em maio – as pessoas são muito ciclotímicas”.

Para este analista, com a forte capacidade ociosa e a atividade em marcha lenta, “o pass-through é baixo, dura pouco e não ameaça até agora as metas”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/5/18, quarta-feira.