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De volta ao estelionato

Apesar da desastrosa experiência de Dilma e FHC vencendo eleições com falsos compromissos, muitos políticos - como Lula, aparentemente - se sentem à vontade para continuar enrolando o eleitorado. E o pior é que o expediente da "Carta ao Povo Brasileiro" acaba de ser desmoralizado pelo uso por Bolsonaro, propagandista da tortura e da ditadura que agora posa de defensor da Constituição.

Fernando Dantas

14 Novembro 2017 | 11h38

O grande “estelionato eleitoral” praticado pela presidente Dilma Rousseff após ser reeleita presidente do Brasil em 2014 deixou marcas profundas na política e na economia brasileiras. Ao chamar o arquiortodoxo Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, que tentou aplicar um ajuste duríssimo à economia, Dilma atropelou frontalmente o seu discurso de campanha, que não só garantiu que estava tudo bem como atacou especificamente o tipo de ajustamento posto em prática, atribuindo esta intenção aos seus adversários.

A desmoralização política da presidente reeleita foi fulminante, com seus índices de popularidade sendo rapidamente pulverizados. Esse efeito e a destruição da governabilidade por ele causado – que levaria ao impeachment – compuseram o complexo quadro de causas de uma das maiores recessões da história econômica do Brasil.

Como economia e política se retroalimentam, a crise derivada do estelionato eleitoral – combinada com a interminável eclosão de escândalos políticos – devastou a estrutura partidária tradicional do Brasil desde a redemocratização, fazendo com que a eleição de 2018 tenha se transformado em uma enorme interrogação. O que, por sua vez, realimenta a incerteza econômica.

Parece bem claro que enrolar o eleitorado com plataformas que não se pretende cumprir é um grande risco para qualquer político ou partido. Se não bastasse o caso exemplar de Dilma em 2014 e 2015, há ainda a desvalorização do real logo após a eleição de 1998, que tirou os tucanos do governo federal por um longo período que ainda não terminou (e a julgar pela atual crise do partido, ainda pode durar muito).


No entanto, os políticos ainda continuam a vender ilusões, como se o risco mencionado acima não existisse ou como se fosse facilmente controlável.

Um caso exemplar é o do ex-presidente Luiz Inácio da Lula, que – independentemente das dúvidas sobre se poderá concorrer ou não – entrou em franca pré-campanha, com uma plataforma agressiva de esquerda desenvolvimentista, que inclui revogação do teto dos gastos, revisão de pontos da reforma trabalhista, nova expansão do BNDES e oposição acirrada à atual proposta de reforma da Previdência, que chegou a classificar como um “crime”.

Fontes próximas a Lula dizem que não é para o mercado ficar tão nervoso, porque esse é um discurso “pragmático” de quem hoje só conta com a base fiel da militância petista para se escorar, e, portanto, tem que “jogar para a torcida” nesta etapa do jogo.

Ora, o verdadeiro nome desse suposto pragmatismo é falsidade ou mesmo cinismo. Se, de fato, as fontes que garantem que Lula continua moderado em economia estão certas, o ex-presidente está de novo enganando a população (e, justiça seja feita, não é o único político a fazer isso; a prática é ampla, geral e irrestrita), e preparando mais um estelionato eleitoral.

É possível ressalvar que, mais próximo à eleição, Lula ou o seu eventual substituto como candidato do PT pode reeditar a “carta ao povo brasileiro”, dizendo que tudo o que foi dito antes não era para valer. Parece até aquele pecador que continua a pecar com gosto, contando que no último minuto de vida vai se confessar e se arrepender.

Mais a sério, o instituto da “carta ao povo brasileiro” corre o risco de se desmoralizar totalmente e já não servir como desculpa antecipada para estelionatos eleitorais. Em 2002, o documento estava alinhado com uma campanha em que Lula procurou conquistar o eleitorado centrista e com o perfil político do coordenador de campanha e futuro ministro da Fazenda, Antônio Palocci. De certa forma, sendo a primeira vez que a esquerda chegava ao poder depois da redemocratização, tratava-se também de um a atualização compreensível de posturas depois de muito tempo na oposição.

Hoje, “cartas ao povo brasileiro” caíram tanto de prestígio que até o candidato Jair Bolsonaro, que fez toda a sua carreira política defendendo a ditadura, a tortura, o assassinato de militantes de esquerda, a restrição aos direitos de minorias e o estatismo, saiu-se com um documento em que diz que não tem apreço por regimes totalitários, que vai se pautar pelo total respeito à Constituição e que rejeita ideias heterodoxas (aqui aparentemente sinalizando uma plataforma econômica liberal).

Acredite quem quiser. Mas a história recente ensina que o eleitorado brasileiro está com a paciência cada vez mais curta para políticos sem nenhum compromisso com a verdade. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/11/17, segunda-feira.