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Decisão fácil, texto difícil

Depois de se amarrar na reunião de maio com uma sinalização que provavelmente não vai cumprir hoje (reduzir de 1 ponto porcentual para 0,75 o corte da Selic), o Copom se vê às voltas com o dilema de repetir a dose e indicar redução da queda da Selic em setembro, ou deixar a questão em aberto.

Fernando Dantas

26 Julho 2017 | 13h29

Com praticamente consenso do mercado em torno de um corte de 1 ponto porcentual (pp) na Selic hoje, levando a taxa básica para 9,25%, a discussão se transferiu para qual será o comunicado da decisão e a sinalização que este dará ao mercado.

Na verdade, o Banco Central está numa posição um pouco incômoda, porque na última reunião fez uma sinalização da qual foi obrigado a voltar atrás.

No comunicado da reunião de maio, está escrito que “em função do cenário básico e do atual balanço de riscos, o Copom entende que uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária em relação ao ritmo adotado hoje (corte de 1 pp) deve se mostrar adequada em sua próxima reunião”. Na ata (ou nota, como prefere o BC) da reunião de maio, a frase foi repetida ipsis litteris.

No entanto, como se sabe, a inflação continuou a apresentar surpresas para baixo após a reunião de maio, e a atividade a dar sinais de fraqueza. Como qualquer autoridade monetária que se preze, o BC tenta cumprir seus compromissos e ser coerente com sua sinalização até o ponto em que isso não signifique afrontar a realidade.

De maneira correta, e que foi absorvida pelo mercado sem maiores traumas, participantes do Copom deixaram entrever, por atos e omissões, que o contexto havia mudado tanto que o sinal de reduzir moderadamente o corte foi abandonado, e a redução hoje será de 1 pp de novo. Esta é, pelo menos, a interpretação de quase todo o mercado, e, caso seja provada falsa, haverá uma enorme surpresa.

E é aqui que começa o problema do Copom hoje. Por um lado, há analistas que veem como positiva alguma forma de orientação prospectiva do BC quanto aos próximos cortes (especialmente o próximo, na reunião de 5 e 6 de setembro – ninguém espera que não haja nova redução da Selic). Algum parâmetro ajuda a reduzir a volatilidade do mercado, evitando, por exemplo, que ele volte a se entusiasmar demais e venha a precificar outro corte de 1 pp (além do que supostamente ocorrerá hoje).

Não há sinal dessa possibilidade nos preços, segundo Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, no Rio. Ontem, no final da manhã, ele conferiu que a curva de juros precificava um corte de 0,695 pp da Selic em setembro. Rocha explica que 0,625 apontaria um mercado dividido entre probabilidades iguais de corte de 0,75 ou de 0,5 pp em setembro. O nível de 0,695, portanto, indica que a aposta está bem mais para 0,75.

Na interpretação do economista, se o Copom voltar a usar, no comunicado, a expressão “redução moderada do ritmo de flexibilização monetária”, estará reforçando a percepção de corte de 0,75 pp em setembro. Rocha não descarta essa possibilidade, mesmo diante do fiasco da fórmula na reunião de maio. “O BC já queria reduzir o ritmo, e agora, mais perto do final do ciclo, isto se torna mais factível”, ele diz.

O mercado aposta que a Selic caia até o intervalo entre 7,5% e 8%, o que se daria em torno do final deste ano. Projeções mais ousadas já chegam a 7%. Um corte de 1 pp na reunião de setembro (supondo que se siga a uma redução igual hoje) já levaria a Selic para 8,25%, perto do ponto final. Existe a percepção de que o Copom preferiria se aproximar desse limite inferior de forma mais cautelosa e gradativa.

Rocha acrescenta que o uso de “redução do ritmo”, eliminando-se o adjetivo “moderada”, sinalizaria um corte de 0,5 pp em setembro, e provocaria uma “abertura” (alta) na curva de juros. Esta hipótese foi praticamente descartada por outro respeitado analista ouvido pela coluna.

De qualquer forma, há também a possibilidade de que, diante da experiência pouco feliz da sinalização de maio, o Copom prefira agora deixar as coisas mais abertas, ou não fazendo sinalização alguma ou dando indicações de forma muito mais vaga. Embora o mercado não tenha ficado extremamente contrariado com a volta atrás em relação à “redução moderada do ritmo”, há a visão de que, se insistir na mesma fórmula que já não deu certo em maio, o Copom estaria, aí sim, pondo em risco a sua estratégia de comunicação.

Boa sorte para os redatores do comunicado! (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/7/17, terça-feira.