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Diga-me qual é o teu hiato…

Analistas divergem sobre tamanho do hiato negativo de recursos no Brasil - uma medida dos recursos, isto é, capital e trabalho, ociosos na economia. Quanto maior o hiato negativo, mais a economia pode crescer sem pressionar a inflação. As implicações desse debate são grandes - na economia e até na política

Fernando Dantas

07 Fevereiro 2018 | 00h19

A discussão sobre o atual hiato do produto no Brasil é bastante importante para definir não só o que vai acontecer na economia brasileira estritamente, mas também na economia política.

Grosso modo, as estimativas variam entre três e oito pontos percentuais (pp) do PIB de hiato negativo, uma diferença muito substancial. Um hiato negativo significa que há recursos ociosos na economia, em termos de capital e trabalho. Assim, a atividade pode se acelerar sem pressionar os recursos e, consequentemente, sem pressionar a inflação (ou as contas externas).

No mercado, é bem conhecida a metodologia, para estimar o hiato, de se combinar um filtro Hodrick-Prescott com uma abordagem de função de produção. Aliás, este é praticamente o título de um trabalho da economista Marta Areosa, do Banco Central, de 2008. Esse estudo é uma referência relevante dessa metodologia no Brasil.

Um economista ligado ao mercado financeiro explica que essa metodologia estima um hiato que teria variado de um valor negativo de aproximadamente 5 pp do PIB no final de 2015 para algo em torno de 2,5 pp negativos hoje.

Há, porém, um enigma nessa trajetória do hiato. Tomando a queda do PIB em 2016 de 3,5% e a estimativa de crescimento de 1% em 2017, tem-se um biênio em que a economia aproximadamente recuou 2,5%. Como pode ter o hiato do produto ter se tornando menos negativo em cerca de 2,5 pp do PIB com um desempenho negativo na economia? Em outras palavras, como a economia pode se contrair e ainda assim aumentar em termos relativos a utilização de trabalho e capital até então ociosos?

Uma explicação teórica é que o produto potencial poderia ter desabado no biênio 2016-2017. O hiato é medido em relação ao PIB potencial. Assim, ainda que a economia não tenha aumentado a sua utilização de recursos, se houve um colapso do potencial, o hiato poderia ter fechado.

A explicação soa estranha. Por que teria havido uma queda de produto potencial tão maciça nos dois últimos anos? É certo que há toda uma discussão sobre perda de potencial em função das distorções microeconômicas e dos investimentos ruins durante a nova matriz econômica, que poderia ter efeitos defasados até o biênio 2016-2017. Ainda assim, perda de 4 a 5 pp de PIB potencial em dois anos não parece razoável.

Dessa forma, é bom não esquecer que há outras metodologias que chegam a valores de hiato negativo muito diferentes. Cálculos recentes da Instituição Fiscal Independente (IFI) e do economista Bráulio Borges, da LCA e do Ibre/FGV, com metodologia mais próxima da empregada pela Comissão Europeia, chegam a hiatos negativos na faixa de 7 a 8 pp do PIB.

A fonte mencionada acima observa que, se essas estimativas da IFI e de Borges estiverem mais próximas da verdade do que a derivada da metodologia baseada no trabalho de Areosa, as atuais projeções do mercado para a inflação nos próximos anos são inconsistentes.

“A inflação terá que cair com um hiato (negativo) deste tamanho – mais especificamente, a inflação de serviços e os núcleos têm que cair”, diz o economista.

E, se a inflação for mais baixa do que projeta o mercado, e, portanto, os juros também tiverem uma trajetória mais baixa, a evolução da relação dívida/PIB será mais benigna do que se pensa. Isto, por sua vez, “compra tempo” para o sistema político brasileiro negociar com a sociedade quais serão os perdedores do inevitável ajuste fiscal, que passa por uma substancial reforma da Previdência.

Mas tudo isso, é claro, depende do cenário internacional. Se o alarme da inflação disparar nos Estados Unidos, o prazo para o ajuste brasileiro pode se esgotar imediatamente, e mais uma vez o País será pego de calças curtas numa temporada de aversão a risco global. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/2/2018, segunda-feira.