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Dois possíveis fatores positivos

O ano começou turbulento, dificultando a tarefa à frente do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Mas enfraquecimento tanto da tese de impeachmente quanto da economia americana podem ajudar.

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Fernando Dantas

12 Janeiro 2016 | 15h50

O ano começou turbulento, com problemas nas bolsas chinesas e aprofundamento da queda de commodities, tornando o desafio do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, ainda mais difícil.

Os mercados brasileiros sentiram a pancada. O dólar atingiu uma máxima de R$ 4,07 durante as negociações da segunda-feira, dia 4 de janeiro, e ainda está sendo negociado acima de R$ 4. A bolsa caiu para a sua pontuação mais baixa desde 2009, em plena crise financeira global. O CDS do título de cinco anos chegou a ultrapassar os 500 pontos-base no dia 4, e depois recuou um pouco, mas ainda se encontrava na sexta-feira, dia 8/1, acima de 480, comparado a um nível em torno de 450 há um mês.

Adicionalmente, as expectativas de inflação não deram trégua, com a mediana das projeções do Focus para 2016 subindo de 6,71% para 6,93% desde o início de dezembro. Para 2017, a elevação no mesmo período foi menor, de 5,12% para 5,2%, mas é significativo que a projeção esteja bem acima do centro da meta de 4,5% (o atual objetivo do BC é alcançá-lo no próximo ano) e se afastando. Assim, em que pesem a vertiginosa queda de 6,8% do PIB projetada pelo Focus para 2015 e 2016, a turbulência política e a baixíssima popularidade presidencial, o Banco Central (BC) aparentemente prepara-se para aumentar mais uma vez a Selic na reunião da próxima semana – segundo relatos da imprensa, com o respaldo de Dilma Rousseff e de Barbosa.

Para finalizar, não há até agora nenhum sinal tangível de solução para o impasse fiscal, e prossegue a sensação geral de que a trajetória da dívida bruta é explosiva e não foi estancada. A anunciada intenção de tentar reavivar a economia com crédito de bancos públicos e do FGTS reforça a impressão de que pode faltar vontade e energia política para colocar as contas públicas em ordem. Dessa forma, é muito difícil encontrar quaisquer razões para apostar no sucesso dessa nova etapa da política econômica de Dilma, comandada por Barbosa.

Existem, porém, dois fatores que podem ajudar o ministro na sua missão aparentemente impossível. Nenhum dos dois é líquido e certo, mas em ambos os casos os primeiros sinais do ano vão na direção de reforçar a probabilidade de que ocorram.

O primeiro deles é o esvaziamento do processo de impeachment com a decisão do Supremo Tribunal sobre o rito do procedimento, e também pelo fiasco da última manifestação popular pela saída da presidente em dezembro. É certo que a guerra do impeachment deve se reiniciar depois do Carnaval, e os opositores da presidente voltarão com energia redobrada às tentativas de mobilizar a opinião pública e pressionar o Congresso Nacional.

Olhando de hoje, porém, não é exagero afirmar que as chances do impeachment parecem menores do que nos piores momentos da presidente no primeiro ano do seu segundo mandato. A probabilidade de impeachment é inversamente proporcional à força política da presidente, e esta por sua vez é um dos elementos-chave da governabilidade. Assim, mesmo considerando alguns meses turbulentos de enfrentamento político à frente, a expectativa de que Dilma possa sair vitoriosa contra a tentativa de encurtar seu mandato – e, mais ainda, a eventual confirmação deste fato – podem ajudar o governo na luta pela aprovação de medidas econômicas no Congresso. Isto não quer dizer, claro, que será tarefa fácil.

O segundo fator vem da economia americana, que parece ter voltado a cair para um fraco ritmo de crescimento anualizado em torno de 1,5%. Há uma discrepância entre a trajetória de altas da taxa dos Fed Funds, o juro básico americano, quando se tomam as projeções do próprio Federal Reserve (Fed, o BC) e as previsões do mercado. Este espera juros significativamente mais baixos não só no curto, mas também no longo prazo, sinalizando uma percepção de fraqueza da economia norte-americana.

É claro que a economia global é um organismo interligado, e ninguém em sã consciência dirá que os Estados Unidos combalidos é algo bom para o mundo no médio e longo prazo. Entre outras coisas, os sinais generalizados de fraqueza da economia mundial, incluindo a China (grande vendedora para o mercado norte-americano), estão por trás da queda das commodities, que afeta diretamente o Brasil.

Ainda assim, no curto prazo, considerando a crítica situação brasileira enquanto a crise fiscal não é resolvida, baixas taxas de juros nos Estados Unidos são um fator que afeta o câmbio e o risco, e que pode comprar tempo para que Dilma e Barbosa organizem e implementem a sua estratégia de arrumar a casa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 12/1/15, segunda-feira.

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