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Ex-diretor do BC diz que não adianta mais elevar Selic

Ex-diretor do BC, que preferiu não se identificar, diz que inflação pode varar teto de tolerância da meta (6,5%) em 2016, mas que recessão se tornou tão perigosa e economia tão caótica que BC deve tolerar a alta e esperar para ver o que acontece.

Fernando Dantas

17 Setembro 2015 | 23h11

Um ex-diretor do Banco Central (BC), que preferiu não se identificar, acha que o Comitê de Política Monetária (Copom) não deve elevar mais a Selic, mesmo com a curva de juros do mercado futuro precificando novas altas.

“Nós não estamos mais numa situação em que os instrumentos de política econômica têm um funcionamento normal; 13 anos de política econômica do PT levaram o País à beira da insolvência e é uma ilusão achar que nós possamos sair de uma crise dessas incólumes, com inflação na meta no ano que vem e corrigindo o fiscal em um ano – é muita ingenuidade”, ele diz.

Para o ex-diretor do BC, o Banco Central deve tolerar uma inflação mais alta do que a hoje prevista para 2016. Ele pessoalmente acha que, com o reajuste de cerca de 10% do salário mínimo em 2016, com o choque do câmbio e com a provável necessidade de se ajustar impostos sobre o consumo para tentar reduzir o buraco fiscal, o IPCA em 2016 pode ficar significativamente acima do teto da meta, de 6,5%.

“Ninguém com bom senso pode achar que as condições monetárias já não estão muito apertadas, tentar levar a inflação para o centro na meta no ano que vem cria o risco de piorar uma recessão que está se tornando perigosa, com quedas autônomas de demanda efetiva que nunca se viram na história do País”, analisa.


O economista acrescenta que “parece surpreendente que um ortodoxo, como eu, fale essas coisas, mas estamos vivendo uma situação sem precedentes – o grau de desorganização da economia está tão grande que mais aumento da Selic agora só vai ampliar a entropia do sistema”.

Ele lembra que a recessão será intensificada pelos efeitos defasados dos recentes aumentos da Selic e pela forte alta recente dos juros no mercado privado (o swap de 360 dias é um dos principais referenciais), o que encarece o custo do crédito nas diversas modalidades para empresas e consumidores.

Para o ex-diretor do BC, “hoje estamos em um cenário em que a política determina a consecução da política fiscal, e a política fiscal determina a ancoragem da política de controle da inflação – estamos próximos da dominância fiscal”.

Ele se diz assustado com o estado a que chegou a economia, com queda da produtividade total dos fatores e investimentos em colapso. Na sua opinião, é preciso aceitar a realidade de que o atual governo não tem condições políticas de fazer a correção fiscal rapidamente e que os estragos provocados pela política econômica equivocada serão duradouros e não podem ser resolvidos do dia para a noite. Ele cita como exemplo a maciça alocação equivocada de recursos impulsionada pelo BNDES e pelos “investimentos desastrosos na cadeia em sentido amplo do setor do petróleo”, cujos resultados foram agravados pelo colapso do preço da matéria-prima e pela operação Lava jato.

Nessa situação, o economista diz que “o BC deve se entrincheirar no atual nível da Selic e esperar para ver se a poeira baixa”. Ele tampouco recomenda que a taxa básica seja reduzida. “É cedo para isso, para provocar inflação para reduzir a dívida bruta”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/9/15, quinta-feira.