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Ficar ou não ficar, eis a questão

Os prós e os contras da saída de Temer, na visão do mercado.

Fernando Dantas

07 Junho 2017 | 12h33

O mercado financeiro se vê diante de uma equação complexa em relação ao processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE – cujo julgamento está previsto para ser retomado hoje (6/6, segunda-feira) às 19h – e de outras ameaças à conclusão do mandato do atual presidente.

Uma leitura inicial poderia sugerir que a saída de Temer, com a sua substituição por um político reformista e da confiança do mercado, como o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), seria a melhor forma de se retomar o clima de otimismo que prevalecia antes da revelação bomba de 17 de maio. Afinal, se naquele momento parecia provável a aprovação de uma reforma da Previdência com um grau de diluição que não comprometesse os efeitos fiscais mínimos planejados, por que a mesma disposição do Congresso não poderia ser retomada com um novo presidente de orientação semelhante a Temer?

Essa visão, entretanto, não é consensual no mercado. Há participantes que se sentiriam mais seguros com a manutenção de Temer, especialmente investidores estrangeiros menos mergulhados na miríade de aspectos da crise brasileira. Uma segunda queda de presidente em pouco mais de um ano tende a ser percebida como um sinal de forte instabilidade institucional, que naturalmente afugenta os que buscam algum nível mínimo de segurança.

Outro fator pró-Temer é a manutenção da atual equipe econômica, respeitadíssima pelo mercado financeiro e pelos investidores em geral. É verdade que já houve uma importante defecção, a de Maria Sílvia Bastos Marques no comando do BNDES, mas é de se supor que o presidente, se assegurar sua sobrevida pelo curto período até o final de 2018, tenha condição de reter os melhores nomes – desde, é claro, que não enverede pelo caminho de distribuir agrados a rodo com dinheiro público para salvar seu mandato.

O problema da saída de Temer, nessa abordagem, é que não é nada garantido o cenário róseo em que ele é substituído por um nome reformista que rapidamente reorganiza a base de apoio e retoma com sucesso a votação das reformas.

Uma expressão que vem sendo utilizada para o cenário de queda de Temer é “abrir a caixa de Pandora”. Isto é, trata-se de um processo cujo ato inicial é conhecido, mas com desdobramentos posteriores imprevisíveis. O nome a emergir vitorioso de uma eleição indireta pode não ser o reformista sonhado pelo mercado e pode inclusive mexer na equipe econômica, além do risco – se vier do mundo político – de ser também abalroado pela Lava-Jato ou por outros escândalos.

Além disso, não se descarta tampouco que, da caixa de Pandora aberta, surja um movimento popular nas ruas pelas eleições diretas que se torne forte o suficiente para forçar o sistema político a considerar esta possibilidade. E daí, com um pulo a mais, se chega ao grande pesadelo do mercado: uma eleição direta em que Lula se sagre vencedor (a suposição implícita é que ele faria um governo populista).

Nenhum dos cenários descritos acima, tomados individualmente, é considerado muito provável pelo cenário. Pelo contrário, a probabilidade de uma eleição direta, por exemplo, é relativamente remota. O problema é que não há, de fato, o cenário mais provável, e isto inclui a substituição de Temer por um nome reformista. A situação é de altíssima incerteza, como refletido na ata da reunião do Copom hoje divulgada pelo BC.

É nesse contexto que a permanência do presidente, com o mesmo programa e a mesma equipe, é percebida como uma alternativa menos incerta, embora a visão sobre a vital reforma da Previdência seja a de que – neste cenário – ela não seja aprovada até 2018 ou que, se passar alguma coisa, será uma versão extremamente diluída.

Uma visão alternativa, que também se pode encontrar no mercado, é de que, no frigir dos ovos, a saída de Temer é melhor do que sua permanência. As pessoas que pensam assim tendem a atribuir uma probabilidade maior à substituição do atual presidente por um nome reformista.

O raciocínio que embasa essa aposta é o de que, com toda a turbulência, o Congresso permanece o mesmo – com uma ampla maioria de centro-direita, passível de ser convencida pelo empresariado, setor financeiro, formadores de opinião e setores da classe média alta a votar a favor de uma reforma impopular como a da Previdência pela sua absoluta necessidade fiscal. Evidentemente, o toma-lá-dá-cá também faria parte do processo de “convencimento”.

Quem é favorável à saída de Temer também foca nos detalhes do que pode vir a ser a cena política caso o presidente escape incólume do julgamento da chapa pelo TSE, ou mesmo se algum pedido de vistas estender indefinidamente o processo. É previsto que a PGR em pouco tempo envie denúncia contra o presidente ao Congresso e, como diz um gestor, “imagine se o Congresso terá tempo para fazer qualquer outra coisa que não seja avaliar a denúncia contra o presidente”.

Esse ponto, aliás, remete ao único consenso no mercado sobre a atual cena política: quanto mais rápido for o desfecho – mantendo-se Temer ou não – e a volta a uma certa normalidade na vida política do País, melhor. O pior cenário é aquele em que meses se arrastam com o presidente enfraquecido e na berlinda, a agenda de reformas paralisada e as decisões empresariais em suspenso. Esta é a fórmula para fazer com que a tênue recuperação atual se transforme em estagnação ou, na pior das hipóteses, num novo mergulho recessivo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

 Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/6/17, terça-feira.