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Governo aposta em rebalanceamento da economia

Fernando Dantas

14 junho 2014 | 15:13

A economia brasileira está passando por um rebalanceamento em que atividade econômica vai ficar fraca, e a inflação alta, por mais algum tempo. Ao fim desse processo, porém, haverá um crescimento e mesmo uma inflação “de melhor qualidade”. A análise é de uma fonte da equipe econômica.

No front inflacionário, a visão é de que o ajuste dos preços externos (isto é, a valorização relativa dos bens comercializáveis internacionalmente ante os não comercializáveis) e dos preços administrados (valorização relativa ante os livres) vai manter a inflação alta durante um certo período.

A fonte nota que, entre meados de março e meados de abril, houve um aumento de 30 pontos base (0,3 ponto porcentual) nas projeções do Focus para a inflação em 2015 que se deveu essencialmente à correção esperada para preços administrados.

Mas, segundo a fonte, “é bom que isso aconteça, sempre que os preços estão muito fora da condição de equilíbrio, é importante que haja uma correção”.

A visão é de que, uma vez ultrapassada a fase de ajuste, o cenário inflacionário pode melhorar. Com isso, seria até possível que as expectativas de inflação de prazo mais longo, que fugiram do centro da meta (4,5%) a partir de 2011, iniciassem uma melhorar gradual.

A razão para esse relativo otimismo, na visão da fonte, é que diversos fatores relativos à demanda estão “caminhando numa direção desinflacionária, ou no mínimo menos inflacionária”.

Assim, tomando-se o acumulado em quatro trimestres, a absorção doméstica (consumo, das famílias e do governo, e investimento) crescia a 2,2% no primeiro trimestre de 2013, o que se compara a 1,3% do crescimento do PIB. Já no primeiro trimestre de 2014, na mesma base de comparação, a absorção crescia a 2,8% e o PIB a 2,5%, o que mostra que a defasagem entre os dois diminuiu.

Isso acontece sob o pano de fundo de um ritmo de atividade abaixo do potencial, com o crescimento anualizado de 1,2% do PIB no primeiro trimestre. Embora a fonte não compartilhe da previsão de que pode haver recessão técnica (com uma revisão que jogue o crescimento do primeiro trimestre no território negativo, acoplada a um número também negativo para o segundo trimestre), ela nota que este tipo de prognóstico é um sinal de que a atividade manterá um desempenho modesto por algum tempo.

Na questão fiscal, finalmente, a projeção é de que em 2015 “o cenário seja desinflacionário ou menos inflacionário”. Esta perspectiva é reforçada pelo previsto processo de correção de preços administrados, que reduz subsídios e renúncia fiscal e aumenta a arrecadação ligada a bases de incidência mais altas, pela elevação das tarifas.

Em termos de mercado de trabalho, a visão é de que, apesar dos sinais confusos dos muitos indicadores – PME, Pnad Contínua e Caged –, está havendo “alguma moderação”, que deve afetar o ritmo de expansão de rendimentos. Por causa dos desdobramentos esperados em termos de atividade econômica – fechamento da defasagem entre a absorção e o PIB e da política fiscal –, a expectativa é de uma moderação adicional do mercado de trabalho. Esta, por sua vez, acabará chegando à elevada inflação de serviços, fazendo-a ceder.

Concluído o processo de digestão do ajuste de preços externos e administrados, a inflação será melhor justamente por estar mais equilibrada em termos desses importantes preços relativos.

Já em termos de crescimento, a interpretação é de que está havendo a transição para um maior peso dos investimentos e da exportação, com recuo relativo do consumo. O processo acontece com uma trajetória irregular, que pode dar a impressão de que está emperrado (como na análise de que “o investimento não chegou”), mas, para a fonte, a direção é inequívoca.

Assim, tomando-se o acumulado em quatro trimestres, o crescimento do consumo das famílias e do governo foi de, respectivamente, 3,14% e 3,5% no primeiro trimestre de 2013, para um PIB de 1,3%. Já no primeiro trimestre de 2014, o PIB, na mesma base de comparação, o PIB veio para 2,5%, e o consumo das famílias e do governo para, respectivamente, 2,49% e 2,20%. As exportações, por sua vez, recuavam 2,25% no primeiro trimestre de 2013 e avançaram 4,5% no mesmo período de 2014. Os investimentos, finalmente, saíram de uma queda substancial para um crescimento de 4,12%.

“O processo já teve início, e, quando terminar, teremos um crescimento com composição bem melhor”, conclui a fonte.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast em 13/6/14, sexta-feira.