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Impeachment e populismo

Dois anos após o impeachment, as pesquisas indicam que campo político destituído do poder vai melhor do que aquele que lutou pela destituição.

Fernando Dantas

16 Maio 2018 | 18h46

Quando se discutia o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que acabou sendo apoiado pela maior parte das elites dirigentes no Brasil, tanto no setor privado quanto no mundo político, uma das ressalvas feitas por alguns – dentro do campo de oposição à presidente – era de que o tiro poderia sair pela culatra, politicamente falando. Isto é, o impeachment poderia acabar beneficiando o campo populista a ser apeado do poder.

O movimento pelo impeachment se deu no momento em que a economia estava em plena queda numa das piores recessões da história brasileira. Independentemente da discussão sobre a legitimidade do impedimento, que não está sendo tratada nesta coluna, havia a questão da sua oportunidade – seria positivo ou negativo para as forças antipopulistas que apoiaram a deposição de Dilma?

Na virada de 2015 para 2016, a economia brasileira se aproximou de um momento de pânico, refletido nas discussões sobre dominância fiscal. Do ponto de vista da discussão da oportunidade do impeachment, argumentava-se que a crise poderia se tornar tão brutal, no caso de continuidade do governo Dilma (que perdera completamente a governabilidade), que o Brasil poderia sofrer perdas permanentes ou extremamente duradouras.

Como argumentou recentemente com a coluna um participante do mercado financeiro, quando o tema da oportunidade do impeachment foi levantado, “nunca nos recuperamos da década de 80”. O resumo do argumento é simples – o impeachment impediu um desastre econômico que traria perdas enormes de longo prazo ao País.

Esse é um bom ponto, mas é preciso discutir também o resultado do impeachment do ponto de vista mencionado inicialmente, isto é, os temores de que, politicamente, viesse a ser um tiro pela culatra.

Esta visão era de que, mais uma vez na história brasileira (e num padrão costumeiro em países em desenvolvimento com pendores para o populismo), a arrumação de casa após o desastre provocado por um governo irresponsável em termos econômicos iria ficar a cargo de um governo de centro-direita, com um programa ortodoxo e liberal.

O medo era de que a hostilidade da população se transferisse dos causadores do desastre para os encarregados de cuidar dos escombros.

Quando se analisam as últimas pesquisas eleitorais, não há como se furtar à sensação de que esse temor talvez tenha se tornado realidade.

A proporção de apoiadores do PT entre os eleitores brasileiros, segundo a série de pesquisas da Datafolha, saiu de 9%, logo após o impeachment, para 20% em abril deste ano. Lula consolidou-se como o campeão disparado das intenções de voto na atual temporada de eleições presidenciais. Como se sabe, é quase certo que ele não poderá concorrer, mas o fato é que o presidente que iniciou os desvios na política econômica e entronizou Dilma, a grande mentora da nova matriz, é de longe o político mais popular do País.

Por outro lado, Michel Temer, responsável pela equipe econômica “dream team” – que, apesar do naufrágio da reforma da Previdência, conseguiu estabilizar a economia e tirar o país da recessão, com vários avanços macro e microeconômicos – tornou-se o presidente mais impopular desde a redemocratização.

Por fim, Geraldo Alckmin, principal representante nesta eleição do campo antipopulista, está estagnado em níveis muitos baixos de intenções de voto.

Olhando-se o panorama do ponto de vista do momento presente – claro que é preciso esperar o início da campanha eleitoral maciça em rádios e TVs para chegar a conclusões mais firmes –, a impressão é que o impeachment e sua sucessão  de desdobramentos na esfera política trouxeram o País a um momento de rara vulnerabilidade ao populismo (o fato de que, nos cenários sem Lula, Bolsonaro seja o líder só confirma a ideia). (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/5/18, quarta-feira.