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Insucesso inicial causa conflito de ministros

Leitura simplista de que disputas entre Levy e Barbosa se traduzem por uma guerra entre austeridade e "pau-na-máquina" está errada.

Fernando Dantas

02 Setembro 2015 | 11h32

Os conflitos que vêm sendo reportados na imprensa entre o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, antecipam – mas de forma bem diferente – um cenário que foi previsto por muitos analistas. A projeção era de que Levy, com seu perfil ortodoxo, comandaria o ajuste necessário para recolocar a economia nos trilhos. Quando esta tarefa estivesse concluída, ou próximo disso, haveria a tentação de “reesquentar” a economia mirando as eleições de 2018. Para diversos observadores, Barbosa teria um perfil mais condizente com essa segunda etapa.

Essa visão simplista ignorava várias variáveis e sinais de que a realidade era mais complexa. Para começar, o ajuste é muito mais difícil do que muitos anteciparam, e não é algo que se esgote ou se complete em um par de anos. Em segundo lugar, Barbosa não professa o gênero de keynesianismo simplista que julga que basta injetar demanda na economia para que todos os problemas do País se resolvam. Durante seu período fora do governo, ele teve uma interação intensa com economistas mais ortodoxos, onde não só defendia como mostrava conhecer em grande detalhe a agenda fiscal de longo prazo.

Os aparentes atritos na equipe econômica, portanto, começam não na fase do pós-ajuste, mas sim como consequência do fracasso da tentativa inicial de ajuste. Os problemas são menos consequência de visões ideológicas diametralmente opostas de Levy e Barbosa – as diferenças existem, mas são menos caricaturais do que muitos julgam – do que derivadas de divergências de estilo e de formas de lidar com uma situação crítica quando quase tudo que se tentou deu errado. Neste segundo item, importam, sim, as diferentes formações de Levy e Barbosa, mas o conflito entre ortodoxia e heterodoxia se dá de forma mais sutil e complexa do que algumas leituras simplistas sugerem.

A discussão é sobre o que fazer, uma vez constatado que o plano de voo acordado entre os dois ministros na largada no final de 2014 deu com os burros n’água. Trata-se neste momento mais de um debate sobre limitação de danos do que sobre a orientação fundamental da política econômica, ainda que existam também divergências sobre isso.

Barbosa sempre indicou que o grande ajuste da economia brasileira, que considera inevitável, teria que ter algum grau de gradualismo. A essência do problema aqui é menos a busca do ótimo, e mais a tentativa de identificar o que é possível. Vinculado ao PT, o ministro do Planejamento sempre teve um aguçado componente político vinculado à sua capacitação técnica. Os sucessivos recuos que a postura de máximo rigor fiscal vem sofrendo – redução de metas fiscais, proposta e imediata desistência da CPMF, Orçamento com déficit – são na verdade reações à conjuntura política desfavorável. É o melhor que se pode fazer a cada momento, ao mesmo tempo em que se tenta avançar nas inúmeras frentes de aprimoramento da governança pública.

Já a postura de Levy parece ecoar a visão de muitos no mercado de que “o melhor que se pode fazer” provavelmente é insuficiente para tirar a economia brasileira de uma zona de alto risco, que pode criar dinâmicas que não só são desastrosas no curto prazo mas comprometem uma retomada de médio e longo prazo. Neste sentido, é preciso “tentar o impossível”, esticar ao máximo a corda das tensões entre o Executivo e o Congresso, para alarmar os parlamentares até o ponto em que estes ajam para evitar o pior. Nesta abordagem, o gradualismo é uma ilusão e não vai funcionar – o máximo que pode fazer é adiar o momento da verdade. Só os desdobramentos da atual crise neste e nos próximos ano indicarão qual dos ministros aproximou-se mais da realidade dos fatos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 1/9/15, terça-feira.