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Liberais versus industrialistas

O conflito de visões econômica que racha o centro político brasileiro.

Fernando Dantas

06 Dezembro 2017 | 17h19

Um dos graves problemas do centro para se estabelecer como uma força política competitiva no Brasil atual é o perene conflito entre liberais e desenvolvimentistas. Curiosamente, estes últimos são vistos às vezes como pertencentes ao campo da esquerda, mas seu patriarca, Roberto Simonsen, era um representante da classe empresarial. A Fiesp, por sua vez, que congrega interesses industrialistas, e tornou-se nos últimos anos um dos principais alvos das críticas dos economistas liberais, está definitivamente no campo da centro-direita. Não por acaso, foi um dos mais entusiastas participantes da campanha pelo impeachment.

Não há dúvida de que, tanto para liberais como para a Fiesp, há um claro inimigo comum: o populismo de esquerda, de viés estatista, adepto de um distributivismo cego aos limites fiscais, e que tipicamente produz desequilíbrios e crises econômicas, como fica claro em diversos episódios históricos de países latino-americanos como Brasil, Argentina, Venezuela, Peru e outros.

Os liberais, entretanto, consideram que os subsídios que fluem para a indústria e outros setores também são uma causa do quadro de insustentabilidade fiscal, e deploram o excesso de proteção às empresas nacionais, que seria um entrave ao aumento da produtividade e da competitividade.

Na verdade, a interação entre todas essas forças econômica e políticas no Brasil e na América Latina é bem mais complexa do que qualquer esquema simplificado. Há situações e contextos em que governos populistas de esquerda convivem bem com o empresariado, como no caso de boa parte da era Lula. Há líderes populistas de esquerda que mantêm razoável disciplina fiscal, como Evo Morales, da Bolívia. E há ditaduras de direita que promoveram políticas estatistas e intervencionistas – como no caso da era Geisel – ao gosto de economistas desenvolvimentistas mais identificados com a centro-esquerda.

De qualquer modo, no Brasil de hoje, como se viu nitidamente no movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff, há momentos em que se forma uma aliança entre a Fiesp e os liberais contra o que seria a ameaça econômica e política de um populismo de esquerda exacerbado. Embora Lula e o PT nunca tenham chegado nem perto das atrocidades econômicas e institucionais cometidas pelo chavismo na Venezuela, há uma parcela de elite econômica no Brasil que cultiva esse temor.

Essas forças que se opõem ao populismo tendem a desaguar numa mesma candidatura centrista que se mostre competitiva para as eleições de 2018. Mas um pouco como acontece com o próprio PSDB hoje em dia, cujas brigas fratricidas em plena luz do dia enfraquecem qualquer tentativa de ação unificada, industrialistas e liberais são sócios políticos com altíssimo teor de hostilidade mútua, obrigados a viver no mesmo condomínio.

Há um diagnóstico consolidado entre a grande maioria dos economistas influentes do País: o Brasil tem um problema fiscal estrutural dramático, cuja solução inclui uma dura reforma da Previdência (mas não se esgota aí), e é necessário também retomar um crescimento decente da produtividade se o objetivo é crescimento econômico com distribuição de renda.

Essa mensagem, entretanto, muitas vez chega truncada à população – mesmo à camada dos formadores de opinião –, em meio à eterna briga de liberais e industrialistas em torno de juros, câmbio, protecionismo, subsídios à indústria nacional, BNDES, etc. Esse conflito entre as forças teoricamente a favor da economia de mercado ajuda a esquerda mais radical e anticapitalista, que rejeita aquele diagnóstico descrito acima.

No conflito, os industrialistas juntam-se à esquerda populista para denunciar os liberais como representantes dos interesses do sistema financeiro, que seria o grande responsável pela rapinagem que impede o desenvolvimento brasileiro. E os liberais denunciam os industriais ricos que são contemplados com o “Bolsa-Empresário” do BNDES e outros favores do Estado.

Os candidatos tucanos à presidência tradicionalmente têm que arbitrar esses interesses conflitantes. Em sua campanha, Aécio Neves, ao escolher Arminio Fraga como seu homem da economia, posicionou-se claramente a favor dos liberais. Por mais que se possa criticar Aécio em termos de ética, pelo menos nessa escolha de uma direção ideológica ele saiu do muro tucano e exerceu a liderança política ao arbitrar a disputa numa determinada direção. É claro, por outro lado, que, se Aécio chegasse ao Planalto, a gestão desse conflito seria bem mais difícil, pois os interesses industrialistas são bastante poderosos nos bastidores do governo.

Geraldo Alckmin, caso se consolide como principal candidato centrista, terá também que fazer a sua escolha. Independentemente de qual seja a solução de compromisso (este colunista, por exemplo, está mais para o lado dos liberais do que dos industrialistas), é importante que o centro consiga pacificar os ânimos e criar uma agenda comum de desenvolvimento democrático e capitalista da sociedade brasileira, em defesa da qual todos que comungam desta mesma visão de mundo se unam. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Uma primeira versão desta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/12/17, segunda-feira.