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Lula confunde mais sobre visão econômica do PT

Fernando Dantas

11 junho 2014 | 18:15

A interpelação pública do ex-presidente Lula ao secretário do Tesouro, Arno Augustin, durante seminário promovido pelo jornal espanhol El País em Porto Alegre, na sexta-feira passada, dá uma dimensão da confusão reinante na formulação econômica governista, às vésperas de uma eleição presidencial.

Lula cutucou o secretário, exortando-o a ser mais “afoito” e a colocar um pouco “do charme do compromisso social” para melhorar a desapontadora situação da economia. Mas a intervenção mais inquietante do ex-presidente foi a pergunta direcionada a Augustin em que o ex-presidente que saber “por que a gente está barrando o crédito” se não há inflação de demanda.

São tantas e tão confusas as implicações contidas nos comentários de Lula que é até difícil desembaraçá-las. De início, o secretário do Tesouro não tem nas mãos o controle do crédito dos bancos públicos, que é determinado pelos gestores dessas instituições com a provável influência do chefe de Augustin, o ministro da Fazenda, Guido Mantega. O auxiliar pode, é verdade, influenciar o ministro, mas se a ideia de Lula era exortar Augustin a pisar no acelerador teria sido mais apropriado que lhe pedisse para agilizar liberações típicas do Tesouro.

Depois de governar o País por oito anos, era de supor que Lula conhecesse bem o funcionamento da máquina pública, e por isso é surpreendente o comentário. Porém, mais do que esse lapso, preocupa o sentido mais amplo da fala do ex-presidente.

Os impactos no mercado financeiro das eleições no Brasil chegaram a um ponto estranho em que há melhoras quando se reduzem as probabilidades de reeleição da presidente Dilma Rousseff. O curioso é que há mais incerteza sobre a futura política econômica de uma presidente que está há quase quatro anos no poder, e pertence a um partido há quase 12 anos no poder, do que sobre o que faria a oposição.

Há em teoria três caminhos para Dilma caso se reeleja. O primeiro é o da continuidade, o segundo é o de reforçar a heterodoxia da sua gestão e o terceiro seria uma guinada para o centro, na busca de um caminho mais ortodoxo. A atual aversão dos mercados à Dilma sugere que as apostas na primeira e na segunda hipóteses são bem mais fortes do que na terceira.

Por outro lado, Lula, que é visto por muitos – inclusive no mercado financeiro – como um pragmático, às vezes é apresentado como certo contraponto ao risco de uma guinada à esquerda muito radical na gestão econômica de Dilma. Embora também seja cortejado pelos tucanos, o ex-presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, é citado como um interlocutor de Lula – inclusive, é desta relação que teria surgido o “balão de ensaio” recente, e já descartado, sobre a possível aprovação da autonomia formal do Banco Central.

Mas a recente conversa de Lula com Augustin vai numa direção totalmente contrária. Aqui, o ex-presidente surge como um crítico de um suposto conservadorismo excessivo do atual governo, que deveria estimular mais a economia. O ex-presidente também afirma que não há inflação de demanda, o que vai 100% na contramão dos atos recentes do Banco Central, que elevou a Selic em 3,75 pontos porcentuais desde abril do ano passado.

Além disso, Augustin é criticado por muitos exatamente por características a ele atribuídas que são o contrário do que Lula afirmou. Os reparos mais comuna ao secretário do Tesouro são os de que seria o principal responsável pela “contabilidade criativa” na área fiscal e teria um papel importante na guinada heterodoxa de Dilma.

Dessa forma, parece que as bases para a visão de que um novo mandato de Dilma pode ter uma política econômica mais convencional são frágeis e confusas, para dizer o mínimo – já que nem Dilma nem Lula, as duas principais lideranças do PT, apontam nessa direção.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com) 

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/6/2014, segunda-feira.