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Maré de liquidez ajuda emergentes

Fernando Dantas

02 julho 2014 | 12:50

O corte dos juros básicos hoje (esta coluna foi publicada no dia 24/6/14) pelos bancos centrais da Hungria e da Turquia deve-se a fatores específicos de ambos os países, mas ainda assim aponta para a continuidade de um cenário favorável aos países emergentes em termos de fluxos de capital. O ambiente mudou muito desde o momento tenso da virada do ano, quando, no Brasil, o câmbio chegou a ser cotado acima de R$ 2,4. Segundo um experiente executivo do mercado financeiro, tesourarias importantes no Brasil experimentaram perdas expressivas este ano por apostarem que a situação iria desandar fortemente para o País. Como ficou claro, isso não aconteceu, e, mais uma vez, a boia de salvação veio do mercado internacional.

O fato é que as grandes economias do mundo ainda permanecem em postura expansionista. O soluço na retomada americana – explicado em parte pelo inverno rigoroso, mas que naturalmente reforçou o estado de alerta no Fed em relação aos riscos de atividade – somou-se às medidas anticonvencionais do Banco Central Europeu (BCE) para evitar a deflação na zona do euro. No Japão, prossegue o “Abenomics” o experimento superexpansionista do governo do primeiro ministro Shinzo Abe.

Existe a expectativa, evidentemente, de que Estados Unidos e Reino Unido irão elevar suas taxas básicas de juros. Mas a sensação hoje é de um “não agora” em relação a esses movimentos, como explica Guilherme Batistella Martins, economista do Itaú-Unibanco que acompanha mercados internacionais. A expectativa compartilhada pelo Itaú-Unibanco é de que a elevação britânica possa ocorrer no primeiro trimestre de 2015, e a americana apenas no segundo semestre do ano que vem.

A retórica cautelosa desses bancos centrais reforça a ideia de que a liquidez não está para ser drenada a qualquer momento. Esta semana, Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra (banco central), enfatizou que a alta dos juros será “limitada e gradual”, num claro sinal de que não endossa uma alta mais firme da estrutura de juros do país.

Assim, o “carry trade” – a captação em moedas centrais com juros muito baixos para aplicação em títulos de alta rentabilidade, com destaque para os emergentes – continua firme e forte, proporcionando conforto para muitos países em desenvolvimento ou produtores de commodities.

Para Martins, do Itaú, “o ambiente externo está favorável aos emergentes, e, com uma moeda mais firme, aqueles que têm algum conforto em termos de inflação e estão com atividade muito fraca podem cogitar de algum relaxamento da política monetária”.

Uma questão interessante é se o Brasil poderia ser incluído nesse grupo. As previsões do Itaú não indicam isso, com projeção de que a Selic será mantida em 11% até o final do ano, e depois irá para 12% ao longo de 2015. Esta é, aliás, a mediana das projeções do Focus, o sistema de captação de previsões do mercado do Banco Central.

O Brasil não parece ter espaço no front inflacionário, com a expectativa média do IPCA para 2015 subindo para 6,1% nas últimas semanas (e há algumas projeções individuais de uma inflação bem acima do teto de tolerância de 6,5% no próximo ano). Por outro lado, a atividade está extremamente fraca, e o câmbio, com a ajuda de medidas antidesvalorização tomadas recentemente pelo BC e pela Fazenda, está bem comportado nas últimas duas a três semanas.

Recentemente, Tony Volpon, diretor de pesquisa de emergentes nas Américas do Nomura em Nova York, previu que o próximo passo da Selic pode ser para baixo. Embora as movimentações recentes dos juros futuros deem algum suporte a essa ideia, a maioria dos economistas que trabalham com análise macroeconômica não parece ainda ter comprado a tese. É muito difícil prever qual será o próximo passo do Banco Central, mas, quanto mais prolongada for a maré de liquidez internacional, menos dura deve ser a política monetária no Brasil.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)