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Meirelles é dispensável?

Tranquilidade do mercado financeiro mesmo depois do escândalo das fitas de Joesley, que praticamente tirou a reforma da Previdência do mapa, pode estar alimentando a confiança da área política do governo em fazer pressão contra Henrique Meirelles. Mas essa é uma estratégia muito arriscada.

Fernando Dantas

27 Julho 2017 | 13h17

Talvez a segurança propiciada pela calmaria nos mercados nas últimas semanas seja um dos fatores que estão instigando a ala política do governo a sacudir a árvore onde o ministro Henrique Meirelles está instalado – ou para derrubá-lo ou para que ele se sinta ameaçado o suficiente para ceder às pressões de quem quer gastar mais.

Afinal, diziam que sem a aprovação da reforma da Previdência o mundo viria abaixo, mas, depois do choque político de 17/5 e da reação apavorada do mercado no dia subsequente, os ânimos voltaram a se tranquilizar e hoje estão excepcionalmente plácidos. Agora, Meirelles é a suposta âncora, mas, quem sabe, a sua queda produzirá tão pouca turbulência quanto a causada pelo fim da reforma da Previdência tal qual sonhada até 17/5.

De fato, o ambiente internacional continua produzindo uma poderosa corrente favorável ao Brasil que desafia a deterioração fiscal e política doméstica. Assim como 17/5 não foi o fim do mundo, é possível pensar também num cenário com Meirelles muito enfraquecido ou fora do governo em que algum grau de estabilidade seja mantido. Na verdade, não se sabe – o padrão de reação a choques do mercado é tudo menos previsível.

Por outro lado, está passando desapercebido de muitos analistas o fato de que 17/5 produziu, sim, um impacto negativo sobre o risco Brasil. Ocorre que a maré positiva internacional se inflou o suficiente para mais do que compensar esse efeito, de certa forma ocultando-o.

Essa é a análise que consta da seção Internacional do Boletim Macro Ibre de julho/17, elaborada pelos pesquisadores Livio Ribeiro e Samuel Pessôa. Eles começam analisando a evolução de fatores favoráveis ao Brasil na cena externa, como a surpreendente desinflação americana no primeiro semestre, que tirou gás da planejada normalização monetária da principal economia do mundo – o que significa juros mais baixos. Combinado com atividade surpreendendo para cima na Europa, tem-se o dólar em baixa, que normalmente ajuda países produtores de commodities como o Brasil.

Essa bonança internacional fez o CDS brasileiro recuar uma parte substancial do caminho percorrido para cima com o choque político de maio, e que já não fora nada extremo. E o dólar coerentemente afastou-se dos níveis próximos a R$ 3,3 para a cotação atual em torno de R$ 3,15.

Os pesquisadores do Ibre, entretanto, utilizam uma metodologia para separar os fatores internos dos externos nessa melhora recente do risco Brasil. Basicamente, eles estimam o impacto no risco de variáveis internacionais: dólar contra cesta de moedas, preço de commodities, juros americanos de dez anos e spread dos papéis high yield. O componente interno é a porção residual do movimento do CDS brasileiro de dez anos que não seja explicada por esses fatores externos.

Dessa forma, eles verificaram que o cenário interno aprofundava a queda do CDS numa média de 44 basis points (bps) do início do ano até 17/7. A partir do choque político, essa gordura positiva inicialmente foi eliminada, e, mais recentemente, tornou-se negativa – isto é, o cenário doméstico está elevando o CDS, embora numa dimensão modesta de 20 bps, até meados de julho, quando termina o exercício de Ribeiro e Pessôa.

Como escrevem os dois autores, “o que esse exercício indica é que o evento político foi precificado, o que não seria a intuição natural ao observarmos a queda do risco e a consequente apreciação da moeda”.

Um exemplo muito mais prosaico é olhar a cotação entre o real e o dólar canadense, moeda de um país desenvolvido que tende a captar junto com o real melhoras no cenário internacional favoráveis a produtores de commodities. Ao longo de todo o ano, até 17/5, o real veio se fortalecendo ante o dólar canadense. Desde fevereiro até o dia do choque político, o câmbio ficou a maior parte do tempo abaixo de R$ 2,35. A partir daí, a cotação deu um salto e, em dois degraus, foi para a faixa entre R$ 2,45 e R$ 2,55, em que ainda se encontra. Fora uma curta e pequena oscilada para baixo no final de maio, não se observa nada da apreciação ocorrida ante o dólar americano.

A conclusão, portanto, é a de que o choque político do escândalo do Friboi teve, sim, consequências negativas sobre o risco Brasil e, portanto, sobre a relativa estabilidade dos principais indicadores macroeconômicos de que o País desfruta neste momento. O fato de que a melhora internacional mais do que compensou a piora doméstica não anula esta última.

Por outro lado, o impacto da deterioração interna foi modesto. Uma boa questão é por que isso teria ocorrido. E uma possível resposta é justamente porque, mesmo sem reforma da Previdência, persistem no leme da economia Meirelles e sua competente equipe (incluindo o BC de Ilan Goldfajn).

Como já mencionado, a intensidade e a duração das reações do mercado a choques são muito difíceis de prever, e não é possível afirmar que o desmantelamento da “âncora Meirelles” necessariamente provocaria uma crise aguda, como a do final de 2015 e início de 2016. O exercício dos pesquisadores do Ibre, entretanto, indica que a estabilidade atual é sensível à piora político-econômica doméstica. Testar essa sensibilidade fritando Meirelles neste momento é uma péssima ideia. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/7/17, quarta-feira.